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Hulk sofre com o racismo desde a sua chegada à Rússia Divulgação

Combater o racismo é o principal desafio da Rússia para 2018

Discussão sobre cronograma das obras ficou em segundo plano

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2015 | 17h00

Foi tão contundentequanto comer a banana jogada pelos racistas. Quando Hulk, atacante dorusso Zenit, viu a torcida do rival, o Torpedo, imitar macacos,esperou para dar o troco. Na hora do seu gol, colocou a mão noouvido, em formato de concha, como quem faz esforço para ouvir, emandou beijinhos para os rivais. O marfinense Yaya Touré não teve omesmo sangue frio. Após viver uma situação semelhante em viagem doManchester City a Moscou, o melhor jogador africano defendeu umboicote: os negros não jogariam mais lá. Nem na Copa do Mundo.

Embora seja difícil deser concretizada, a ideia causou calafrios no presidente da Fifa,Joseph Blatter, que decidiu abrir guerra ao racismo. Em sua últimamanifestação, ele afirmou que ainda existe muito a fazer. Adiscussão sobre cronogramas das obras na Rússia ficou em segundoplano. Faltando três anos para o Mundial, a lição de casa dosrussos é convencer o mundo de que não haverá racismo em 2018.

O problema é real.Relatório da rede Fare, organização que combate o racismo nofutebol europeu, e da Sova Center, ONG russa que pesquisa casos denacionalismo e racismo, revelou mais de 200 casos de comportamentodiscriminatório ligado ao futebol na Rússia nas duas últimastemporadas. “O que você pode fazer nessas situações além dereagir com um sorriso? Se eu trato os torcedores com respeito, talvezreceba o mesmo em troca”, disse Hulk. “O futebol deve unir aspessoas, não dividi-las”, completou.

Esse não foi o únicoepisódio vivido por Hulk. Logo que foi contratado, uma das facçõesorganizadas da torcida, conhecida como Landscrona, divulgou ummanifesto declarando sua oposição à contratação de jogadoresnegros. Hoje o paraibano é o artilheiro do torneio com 11 gols, masainda convive com as injúrias raciais dos rivais.

Antes de Hulk, oex-lateral Roberto Carlos, hoje técnico na Turquia, também foidiscriminado. Em 2011, um torcedor jogou uma banana no campo, pertodo campeão do mundo em 2002. Ele defendia o Anzhi em partida contrao Krylia Sovetov, em Samara. Roberto abandonou o jogo.

O atacante VágnerLove, hoje no Corinthians e que atuou no CSKA de Moscou, afirma queos torcedores do Zenit, o time de Hulk, sempre foram os maisradicais. “Infelizmente em São Petersburgo esses casos de racismosão comuns. Eles ficam fazendo barulho de macaco quando jogadoresnegros pegam na bola”, disse o corintiano, que nunca foi vítima deinjúria racial quando esteve lá, entre 2004 e 2013.

Com a proximidade doMundial, a questão ultrapassa as vastas fronteiras russas.“Prejudica nossa imagem. As federações internacionais estãoatentas a isso e dizem que estamos nos preparando para o Mundial, masse perguntam sobre o que pode acontecer”, alertou o ministro dosEsportes, Vitaly Mutko, que também lidera o Comitê Organizador daCopa 2018, ao site esportivo russo R-Sport.

Na prática. A primeiramedida prática foi a criação de um inspetor antirracismo,burocrata que faz parte da diretoria de segurança da União deFutebol da Rússia, a CBF de lá. Alexei Tolkachev ainda não começoua trabalhar porque as autoridades estão revisando as leis paradefinir quais serão os seus poderes. Ele vai nomear um grupo detrabalho para começar a supervisionar as partidas.

Por enquanto, o que aRússia faz para combater o racismo é café pequeno. Pelas ofensascontra Hulk, o Torpedo teve de jogar duas partidas sem torcida. Alémdisso, multa de 300 mil rublos (R$ 16 mil). Foi a terceira vez que otime sofreu esse tipo de sanção. Sempre pelo mesmo problema.

O professor AngeloSegrillo, que leciona História da Rússia no curso de graduação daUniversidade de São Paulo, afirma que a Copa do Mundo será quase umestado de exceção, o que diminui o risco de injúrias raciais.

“Estamos falando deracismo em campeonatos comuns. Na Copa do Mundo, a história édiferente, como a gente viu aqui no Brasil. As entradas são maiscaras e o controle será muito maior. Além do racismo, eles têm umapreocupação acentuada com o terrorismo. Atualmente não existemcâmeras para identificar quem joga as bananas, mas na Copa serádiferente”, diz o autor do livro “Os russos”. “As sançõesque estão sendo impostas desde 2012 e o rigor na segurança podemsurtir efeito”, completa o historiador.  

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'Sanções e controle maior devem surtir efeito na Rússia'

Historiador diz que racismo é bode expiatório da crise

Entrevista com

Angelo Segrillo

Gonçalo Junior, O Estado de São Paulo

11 de abril de 2015 | 17h00

1. Como explicar osepisódios de racismo no futebol russo?

No Brasil,nacionalidade é definida pelo direito do solo, ou seja, a primeirageração de imigrantes nascida no país é brasileira. Nos paíseseslavos, como Rússia, a nacionalidade é determinada pelo direito dosangue, ou seja, depende do pai ou da mãe. Isso cria os estados comdezenas de nacionalidades, o que potencializa os conflitos. Alémdisso, o fim da União Soviética trouxe abalos psicológicos eeconômicos. Nesses períodos é comum o acirramento do racismo. Abusca por um bode expiatório é comum na história.

2. O alvo não é só onegro?

Não. Existem váriostipos de racismo. No futebol, ele está concentrado nos negros, poisnão existiam muitos antes. Mas temos questões históricas deantissemitismo no leste e centro europeu. Existe um problema dediscriminação em relação às pessoas do Cáucaso, onde está aChechênia.

3.Como resolver aquestão até a Copa do Mundo?

O ideal seria corrigir os problemasestruturais com educação. A curto prazo, desde 2012, existe umanova lei para regular o comportamento dos torcedores, como se fosse oEstatuto do Torcedor daqui. Lá, o foco é o racismo. Os times sofremuma punição, em geral têm de jogar com portões fechados. É umproblema difícil de sanar, mas eles não querem fazer um papel feiona Copa.

4. Pode funcionar?

Estamos falando deracismo em campeonatos comuns. Na Copa, a história é diferente,como a gente viu aqui no Brasil. As entradas são mais caras e ocontrole será maior. Além disso, eles temem atos terroristas. Hojenão existem câmeras para identificar quem jogou a banana. Assanções e o rigor na segurança podem surtir efeito.

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Mais uma vez, Hulk é vítima de racismo no campeonato russo

Atacante do Zenit responde com beijos em direção aos torcedores

O Estado de S. Paulo

15 de março de 2015 | 16h54

O brasileiro Hulk, do Zenit, voltou a ser alvo de racismo no futebol russo. Ele foi chamado de "macaco", neste domingo, por torcedores do Torpedo, durante o jogo entre as duas equipes, que terminou empatado por 1 a 1. O atacante, que fez o gol de seu time, respondeu à ofensa com ironia: levou a mão ao ouvido, simulando querer escutar o xingamento, e depois respondeu com um beijo.

É a segunda vez que Hulk é vítima de manifestações racistas na Rússia. Em setembro passado, torcedores do Spartak, também de Moscou, já o haviam chamado de "macaco".

Ele pareceu não ter se abalado. "Posso apenas sentir pena do que aconteceu e pedir aos fãs do futebol para respeitar o jogo, os jogadores e manter tudo em bom tom", disse Hulk ao site do Zenit. "O futebol deve unir as pessoas, e não dividi-los por razões diferentes."

Sobre sua reação de mandar um beijo para os torcedores, ele explicou: "O que você pode fazer nessas situações além de reagir com um sorriso? Se eu trato os torcedores com respeito, talvez receba o mesmo (respeito) em troca". Mas ele admitiu não conseguir compreender, aceitar ou explicar o racismo.

O técnico do Zenit, o português André Villa-Boas, foi mais duro que o atacante brasileiro. "O jogo foi lamentável. Futebol ruim, torcedores ruins, por causa dos insultos a Hulk. Os insultos vão correr o mundo e esta é a imagem que fica da Liga Russa."

Os dirigentes russos não se pronunciaram. No entanto, sabe-se que o racismo é uma das principais preocupações dos organizadores da Copa de 2018, que não sabem como conter a intolerância e temem problemas graves durante o Mundial.

Hulk marcou de falta o gol contra o Torpedo. O Zenit lidera o campeonato com 45 pontos, cinco a mais que o CSKA.

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