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Antero Greco
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Começar de novo

Caro amigo, você está curioso para ver como vai comportar-se a seleção, de novo sob nova administração? Eu também. Aguardo com serena expectativa qual rumo tomará a amarelinha com a ascensão de Tite ao comando, depois da segunda passagem insossa de Dunga. A caminhada começa em pleno processo de disputa das Eliminatórias na América do Sul.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2016 | 03h00

Eis a desvantagem de Tite em relação aos mais recentes antecessores: assume com provas de fogo a rondar a equipe nacional. Não tem nenhum amistoso meia-boca como preparação, para servir-lhe de cartão de visitas. Não lhe sobrou nenhum joguinho contra adversário me engana que eu gosto, sparring de segunda linha só para encorajar o recém-chegado.

De sopetão visita os equatorianos, até outro dia um dos patinhos feios da região e agora a tomarem gosto por participar de Mundiais. Os vizinhos estiveram nas edições de 2002, na Ásia, e 2006, na Alemanha. Na corrida por vaga para a Rússia, por ora são vice-líderes, com os mesmos 13 pontos do Uruguai – 4 vitórias, 1 empate, 1 derrota. Na terça-feira, 6, será a vez de hospedar a Colômbia (10 pontos), em Manaus.

A contrapartida está na aceitação popular. Há tempos Tite conta com alto índice de aprovação, como reconhecimento à capacidade, ao equilíbrio e ao talento. As conquistas com o Corinthians deram-lhe estofo e respaldo para o salto maior na carreira. Desde o convite para Felipão, em 2001, um treinador não tomava a guia da seleção com a sensação de que era merecido.

Portanto, há de antemão boa vontade com Tite. Conta também em favor dele a imagem de profissional correto, sem estrelismos nem reações histéricas. Não é visto de esguelha por críticos, jogadores, tampouco cartolas. Em resumo, larga com crédito e confiança, ao encarar o desafio de tirar o Brasil do ostracismo em que se enfiou nos últimos tempos. A rigor, o último momento notável, pra valer, foi na conquista do penta, em 2002. As Copas das Confederações de 2005, 2009, 2013 não passaram de brilharecos ilusórios.

Mas existe um porém, como sempre, e que Tite não se iluda com a maré mansa: uma situação é dirigir clube, outra é a cobrança na seleção. Por mais que o Corinthians seja enorme, caixa de ressonância potente, “uma nação”, etc. e tal, não se compara com a tarefa que tem a partir de agora. O saldo pode desaparecer de uma hora para outra. Para tanto, bastarão tropeços, se vacilar já no confronto de amanhã, em Quito. Como não se trata de novato, que esteja preparado para a cornetagem.

De certa forma, a trombeta soou, na semana passada, ao se analisar a avaliação de alguns eleitos na primeira lista. Não foram poucos os olhares enviesados para a presença de Giuliano, Paulinho, Taison, trio sumido do noticiário. O “professor” justificou as ilustres presenças como consequência de observações e acompanhamento de perto. Treinador do Brasil sempre é cobrado.

Há lógica nas escolhas. Tite pretende dar o pontapé inicial com uma trupe na qual confia. Na medida do possível, tratou de chamar gente com quem conviveu, profissionais que conhece e que entendem seus métodos. Porque se depara com operação de emergência, em que são necessários ao menos quatro pontos: empate fora e vitória em casa. E torcida por combinação de resultados favoráveis que empurrem o Brasil para o bloco principal e o tirem da inédita sexta colocação.

Não há mistério na estratégia, conforme conta o enviado Almir Leite. O Brasil terá semelhanças com o Corinthians, o que significa que devem prevalecer trocas de passes, marcação no meio-campo, atenção redobrada no sistema defensivo, contragolpes pontuais e certeiros – com a responsabilidade nas finalizações de Neymar e Gabriel Jesus (se jogar). E sobretudo muita paciência.

Paciência que será pedida ao torcedor também. Vá lá, pelas circunstâncias com que topou a parada, que se conceda trégua para Tite. Mas, por favor, não demore para arrumar a casa, pois pode ficar muito tarde.

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