Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Comedia all’italiana

Teste linguístico de Luis Suárez para obter a cidadania da Itália teve apenas 12 minutos e foi bizarro

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2020 | 22h00

A Itália parece feliz de novo, depois dos dias terríveis do auge da covid-19. Hoje, tendo talvez o menor índice de infectados e mortos da União Europeia, a Itália volta a rir. E, como nas comédias clássicas que inventou aí pelo meio do século passado, ri riso de canto de boca, meio alegre, meio amargo.

Neste setembro que acaba de findar, aconteceu um episódio não inteiramente desconhecido no futebol italiano. Já houve coisa bem parecida antes e, talvez, pior. Aconteceu envolvendo uma estrela internacional, Luiz Suárez, que depois de seis anos deixava o Barcelona, onde tinha sido campeão de tudo.

Rapidamente a poderosa Juventus de Turim lançou-se no encalço dele e parecia se dar muito bem. Tudo acertado entre os clubes, apareceu um obstáculo imediatamente considerado de pequena monta. Para obter a necessária nacionalidade italiana, Suárez tinha que se submeter a um exame legal.

Nada mais fácil, outros futebolistas sul-americanos tinham já conseguido essa ambicionada nacionalidade que lhes dava o direito de jogar em qualquer clube da Europa. Alguns brasileiros conseguiram, e talvez tenham mesmo se submetido às provas necessárias com sucesso. O brasileiríssimo Cafu, se não me engano, de nome e aparências tão nossas, saiu do Jardim Miriam para Milão quando se descobriram surpreendentes laços de sangue que o conectavam com a Itália.

Continua a haver uma prova – dizia a notícia do Corriere della Sera – que consta de um exame de língua italiana para atestar o nível de comunicação entre o novo dono da nacionalidade e o país de que seria parte. Não sei se a Juve tinha certeza de que Luiz Suárez se daria bem, pois, talvez por via das dúvidas, convocou seu corpo legal em auxilio do craque. E lá foi o bravo Suárez para a “Universitá per stgranieri di Perugia’’, o que emprestava inegável solenidade ao ritual da prova. 

E aqui a coisa começa apresentar aspectos estranhos, a começar pela sua duração: exatos 12 minutos. Com total desconsideração pelo talento linguístico de Suárez, começaram o falatório e as suspeitas. Deve ser dito que a prova não requeria conhecimentos tão profundos assim da língua de Dante. A primeira pergunta era: como você se chama? O jogador respondeu corretamente em italiano “meu nome é Luiz Alberto Suarez Diaz, sou uruguaio”.

Depois a dificuldade aumentou: foi-lhe mostrada uma foto de uma melancia e pediram que a identificasse em italiano, o que ele imediatamente fez com a palavra “cocomero” (melancia em italiano). Finalmente foi-lhe apresentada uma foto da fachada de um supermercado e ele, segundo o Corriere della Sera, não titubeou um instante na resposta. Foi tudo. Luiz Suárez foi plenamente aprovado no exame de língua italiana.

A divertida história ganhou, porém, status de um daqueles episódios magistrais, comuns em filmes antigos de Mario Monicelli ou Dino Risi, quando se descobriu, que dada a enorme dificuldade do exame, Suárez tinha sido informado das perguntas previamente, com dias de antecedência, e talvez tenha varado noites decorando as respostas.

O Ministério Público de Perugia entrou em cena e apreendeu gravações, e-mails e outras provas. Estão envolvidos a Juve, que evidentemente diz que nada teve a ver com o negócio; os advogados, que dizem que tudo foi legítimo e as informações deformadas pela imprensa; o reitor da Universidade de Perugia, que balança no cargo; e Luiz Suárez, que preferiu prudentemente ir para o Atlético de Madrid.

Por outro lado, Suárez poderá se vangloriar de ter acrescentado ao seu currículo cultural o conhecimento de uma das línguas mais representativas do mundo ocidental. Nem todos são capazes de dizer sem erros: “Mi chiamo Luiz Suárez, sono uruguaiano”.

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