Alex Silva/Estadão
Credores tentam protestar em cartório para receber as dívidas Alex Silva/Estadão

Organização da Copa de 2014 ainda deve R$ 340 mil a prestadores de serviço

Empresas que prestaram serviços de limpeza, segurança e transporte durante o Mundial no Brasil protestam dívidas em cartórios

Matheus Lara, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2017 | 17h00

A organização da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, ainda deve pelo menos R$ 340 mil a sete empresas contratadas para prestar serviços durante o evento realizado há mais de três anos no País. Esta é soma dos valores de nove protestos registrados em cinco cartórios diferentes em São Paulo e Rio que ainda estão em aberto, portanto, sem solução ou pagamento.

Os calotes incluem serviços de limpeza, segurança, transporte de encomendas e até a contratação de atores e atrizes para a abertura e encerramento da competição. Das empresas que tiveram o prejuízo, uma fechou as portas no início deste ano. "Assinamos o contrato para prestação do serviço e simplesmente não recebemos pelo trabalho que fizemos", reclama a representante comercial Luzia Miranda Dias, da WPW Prevenção. 

A empresa deixou de receber quase R$ 14,5 mil referentes às duas parcelas finais do combinado por fornecer equipamentos e brigada de incêndio na abertura e no encerramento do torneio. O débito ainda está em aberto. 

Representantes da firma dizem não ter havido nenhum tipo de explicação para a falta do pagamento. O mesmo ocorreu com a empresária Dayane Felipe da Silva, sócia da Time Serviços Especializados. A empresa cobra R$ 30 mil do Comitê Organizador da Copa por fornecer carregadores e ajudantes gerais para a festa no Itaquerão, onde o Brasil estreou com a Croácia.

"A perspectiva de trabalhar no evento foi importante para nós. Achamos que seria uma revolução dentro da empresa e chegamos até a fazer empréstimos para poder custear tudo", conta Dayane, que estima prejuízo de quase o dobro do valor não recebido por causa de despesas com transporte, refeição, uniforme e juros do mercado.

Tanto a Time quanto a WPW e outras empresas que levaram calote foram contratadas de forma terceirizada pela agência Team Spirit, que prestou serviço ao Comitê Organizador Local da Copa do Mundo (COL), órgão ligado à Fifa, para a organização dos eventos durante a competição. Algumas das reclamantes dizem ter sido orientadas pela agência a emitirem notas fiscais diretamente ao COL.

Um empresário que preferiu não se identificar disse ao Estado ter entrado em contato com o Comitê logo que a pendenga foi registrada num cartório de protesto de títulos. Segundo ele, o órgão informou ter feito o repasse dos recursos para a agência e que, por isso, já não poderia se responsabilizar pelo pagamento do serviço prestado no Mundial. 

Outro representante de empresa localizado pela reportagem, Eduardo Pontes, da Wartung Serviços de Limpeza, contou ter entrado em acordo para resolver o débito, mas negou informações adicionais, alegando a existência de cláusula contratual de confidencialidade. Ainda não houve outros acordos.

Nos registros da Receita Federal, a Team Spirit aparece ativa, mas seus contatos redirecionam para o escritório de contabilidade Balboa, em São Paulo, que confirmou já ter tido a Team Spirit como cliente, mas nega qualquer relação com a empresa atualmente. O então presidente da Team Spirit, Alan Cimerman, é funcionário do departamento de marketing do São Paulo. Procurado pelo Estado, ele não se manifestou. Ele fechou a empresa e demitiu os funcionários. "O projeto deu prejuízo e ponto. Não foi administrado talvez da maneira certa. Errei", disse Cimerman depois da Copa ao site Terra. Nada comentou sobre as dívidas.

EMPRESAS CREDORAS

Crialed Produções: R$ 65.000

Rodominas Encomendas: R$ 198

Odair R. Brunocilla: R$ 40.698

Odair R. Brunocilla: R$ 41.076

WPW Prevenção: R$ 7.347

WPW Prevenção: R$ 7.130

Wartung C. Limpeza: R$ 131.676

Time Serviços: R$ 28.750

HZ Eventos: R$ 20.400 

Total: R$ 342.276

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Fifa desvia de assunto e Comitê Local nega débitos referentes à Copa

Entidades se esquivam sobre falta de pagamento a credores

Matheus Lara, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2017 | 17h00

As perspectivas de resolução do problema dos calotes da Copa não parecem ser as melhores, visto que a responsabilidade pelos débitos vem sendo jogada de mão em mão desde 2014.

Em troca de e-mails a que o Estado teve aceso, entre representantes da Team Spirit com uma das empresas que levaram prejuízo, a agência chega a pedir desculpas pelos transtornos sem resolvê-los. "Ainda não tenho a confirmação se iremos conseguir pagar algum valor para vocês, estamos no aguardo e assim que tiver notícias, informamos", respondeu a Team Spirit em 19 de agosto de 2014, após sucessivas cobranças da firma. 

No dia seguinte, outra má notícia. "Infelizmente hoje não tenho como efetuar nada, estou tentando para amanhã, mas só consigo te confirmar amanhã. Desculpe o transtorno."

Consultada sobre os débitos, a Fifa não quis se pronunciar, argumentando que o assunto é de responsabilidade do Comitê Organizador Local (COL).

Em nota, o COL afirma ter cumprido suas obrigações com os prestadores de serviço. "O COL não responde pelas relações entre as empresas que lhe prestaram serviços e seus fornecedores", informou.

Criado em 2008 e presidido por Marco Polo Del Nero, também presidente da CBF, para organizar e realizar a Copa das Confederações de 2013 e a Copa do Mundo de 2014, a previsão era que o COL fosse "dissolvido e liquidado" em até 18 meses após o fim do Mundial. 

O prazo já acabou, mas há uma ressalva regimental que permite ao órgão funcionar por tempo indeterminado até que conclua todas as suas atividades e obrigações. E são justamente questões financeiras que impedem que o Comitê encerre suas atividades no Brasil.

Conforme o Estado noticiou há alguns meses, as pendências financeiras nos tribunais referentes à realização da Copa podem chegar a R$ 1 bilhão, ainda que advogados que trabalham nos casos digam que será preciso desembolsar "apenas" entre R$ 10 milhões e R$ 20 milhões. São contas que precisam ser acertadas, mas que não tiveram ações na Justiça. A Fifa diz confiar no Comitê Organizador.

Em 2014, o COL recebeu US$ 440 milhões (R$ 1,4 bilhão) da entidade. Parte do dinheiro foi destinada a pagar salários de cartolas como Ricardo Teixeira e José Maria Marin. Enquanto as dívidas não forem pagar, o COL não deixará de existir.

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