Nilton Fukuda/Estadão
Bancos de reservas da Arena Condá, em Chapecó: equipe catarinense passará por reconstrução para tentar alcançar o mesmo patamar  Nilton Fukuda/Estadão

Como a Chapecoense pretende se reerguer após tragédia

Árduo trabalho para reconstruir o clube terá início: desafio vai ser montar elenco forte e ter equilíbrio financeiro

Daniel Batista e Gilberto Amendola, enviados especiais a Chapecó, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2016 | 06h00

A partir deste domingo, uma nova página começa a ser escrita na história da Chapecoense. A ordem no clube é enxugar as lágrimas e iniciar o árduo trabalho de reerguer o time catarinense para, quem sabe, recolocá-lo no patamar onde estava até a tragédia da última terça-feira ou acima disso. Mas será necessário muita ajuda e trabalho.

Clubes de todo o mundo prometeram auxiliar a equipe de Chapecó a se reerguer. Financeiramente, o clube vivia situação invejável para a maioria dos times de futebol brasileiro e nos últimos anos tem fechado as contas no azul, sem que os dirigentes colocassem qualquer centavo do próprio bolso – como, por exemplo, fez o presidente Paulo Nobre, do campeão Palmeiras, ao emprestar dinheiro para quitar dívidas. 

No total, a Chapecoense teve neste ano uma renda de R$ 45 milhões, sendo R$ 25 milhões oriundos da cota de TV, R$ 9 milhões dos patrocínios da Caixa e Aurora e mais R$ 9 milhões de outras fontes (venda de produtos, sócio-torcedor, ingressos, etc). Entretanto, em nenhum ano foi preciso montar um novo time como agora.

Por isso, a diretoria está propensa a aceitar que jogadores cheguem por empréstimo. Clubes da Série A se comprometeram a ceder gratuitamente atletas para o clube catarinense na próxima temporada. Até times do exterior também querem ajudar. O Libertad-PAR, o Racing-ARG e o Benfica-POR prometeram dar alguns reforços. 

A diretoria vai promover diversos garotos das categorias de base e analisará a situação de todos os atletas do atual elenco. Eles têm contrato até o fim do ano, mas avisaram que querem ficar para ajudar na reconstrução. No total, são 11 jogadores, entre eles, o goleiro Marcelo Boeck e o meia Martinuccio. 

QUEM COMANDA

Além de clubes, empresários também estão dispostos a ajudar. O agente Jorge Machado, que cuidava da carreira de Matheus Biteco, Dener Assunção e Tiaguinho, todos mortos na tragédia, avisou a diretoria que pretende ajudar levando atletas para o clube. 

Existe ainda um grupo de empresários dispostos a investir cerca de R$ 30 milhões em contratações. A Chapecoense diz não saber de tal disposição, mas afirma que a ajuda seria bem-vinda. 

Existem dois pontos que mais preocupam a diretoria no momento. O primeiro é definir quem será o técnico, já que a quase toda a comissão técnica - inclusive o técnico Caio Júnior - faleceu. Existe a possibilidade de recorrerem a algum treinador que já tenha dirigido o time, para facilitar na questão da adaptação e ter maior apoio das arquibancadas.

Outra situação que faz todos na Chapecoense ficarem atentos é com possíveis aproveitadores. Os dirigentes sabem que o clube catarinense pode ser usado por clubes, empresários e atletas para se promover. Por isso, já avisaram que não pretendem contar com nenhum grande nome do futebol para ajudar na reconstrução. Exceto, se sentirem que pode ser útil.

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Garotos esperam que trabalho na base seja mantido

Presidente do clube, morto no acidente, era o principal entusiasta do investimento na revelação de jogadores

Daniel Batista e Gilberto Amendola, enviados especial a Chapecó, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2016 | 06h00

Os meninos da base da Chapecoense rezam pelos que partiram, mas também para que todo o trabalho feito pelo clube nas divisões interiores não seja jogado fora. A morte do presidente do clube, Sandro Pallaoro, pode frustrar a ascensão dos garotos, já que o dirigente tinha um carinho especial pela base.

“Ele falava que era o orgulho dele ter uma base forte”, lembra Giovanni Rigotti, coordenador das categorias de base. Por conta da tragédia, os meninos foram liberados dos treinos por tempo indeterminado e até a disputa na Copa São Paulo do ano que vem está sob risco. 

Enquanto isso, os meninos do time sub-17 ainda lembram do treino que tinham feito contra o profissional, na preparação para o jogo contra o São Paulo. “O nosso técnico pediu para eles não marcarem tão forte, para jogarem mais leve. Era um jeito da gente conseguir equilibrar um pouco a partida”, lembra o volante Paulo Ricardo, 16 anos. 

Curiosamente, nenhum dos garotos é natural de Chapecó, mas promessas garimpadas em outras cidades. O clube oferece alojamento para os meninos e exige que eles continuem os estudos. Na escola, são admirados por colegas de classe e convidados para disputar peladas de fim de semana. “A gente nem pode jogar bola com o pessoal da escola. No turno da noite, só tem pingue-pongue”, brinca outro Paulo Ricardo, também de 16 anos, mas atacante.

Quando se reúnem no alojamento do clube, o clima tem sido mais silencioso do que de costume. Contam que, às vezes, falta força até pra conversar e que, nos últimos dias, a sensação mais comum é de que o time vai voltar e ainda disputar a final da Sul Americana. 

Cada atleta do sub-17 tem uma história com um dos jogadores ou um sentimento relacionado ao momento do clube.

O Paulo Ricardo volante é de Ibirama, em Santa Catarina. Ele conta que o atleta com quem ele tinha mais amizade era o lateral-esquerdo Dener. “Ele me deu quatro chuteiras. Eu nem precisei pedir. Ele era muito gente fina. Isso parece um sonho ruim, cara”, comenta.

O respeito e o companheirismo era tão grande que o lateral-esquerdo Renan Gimenes, 16 anos, conta que o atacante Tiaguinho foi falar com ele quando soube que seria pai. “Ele veio me contar. Estava todo feliz. Acho que ele queria ser um bom exemplo pra mim também.”.

É o lateral-direito Jean Wunsch, 16 anos, de Santa Cruz do Sul, quem resume o sentimento do grupo. “A gente sabe da responsabilidade. A gente precisa honrar esse time e os jogadores que se foram.

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