NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Como é assistir a um Argentina x Brasil na 'popular' do Monumental

Os mais irritados cospem nos brasileiro e jogam garrafas plásticas

RODRIGO CAVALHEIRO / CORRESPONDENTE EM BUENOS AIRES, O ESTADO DE S.PAULO

14 Novembro 2015 | 00h46

Assistir a um Argentina e Brasil no lugar mais barato do estadio Monumental de Nuñez é estar separado por uma cerca e ter a mesma visão de um dos mais caros, o da torcida visitante. É ouvir o coro "nao tenha medo, pode cantar" depois de levar 1 a 0. É escutar um "ponham o Neymar em campo" no fim do primeiro tempo. É saber que os argentinos aprenderam uma nova palavra em português impecável. Sete. 

A entrada para a popular Centenário, atrás das traves em que o Brasil sofreu o gol no primeiro tempo, custa 150 pesos. Para quem compra na mesma semana do jogo, sai por 500 pesos em sites de revenda. Este é o último dos três anéis do estádio do River Plate, o campeão da América em crise técnica. 

Quem chega na hora da partida fica na metade da arquibancada para baixo e vê o jogo através de uma tela com pilares de metal a cada 2 metros e um arame farpado no alto. Melhor fcar grudado à tela e olhar oor um dos losangos. O mesmo problema têm os brasileiros, sentados à esquerda. Só que eles pagaram 1200 pesos para ter a mesma vista.

No segundo tempo, é possível roubar o lugar de algum argentino que deixou o assento para ir ao banheiro e voltou tarde.

Aos 4 minutos, ouve-se o primeiro elogio ao Brasil. "Viu como ele controla a bola?", diz um depois de Neymar passar entre dois na lateral da grande area. Aos 9 minutos, a torcida brasileira canta pela primeira vez depois de um chute próximo da trave esquerda.

Do lado argentinos, voltam as provocações. "Pelé estreou com um menino" é uma das mais comuns.

Gol do Brasil. Alguns argentinos correm contra a grade irritados com a comemoração verde-amarela.

Aos 28, o clima se inverteu, com o Brasil mais perto do segundo do que a Argentina. "Volta pra favela", diziam alguns em português. 

Um negro colombiano com camiseta argentina, que vê o jogo no intervalo entre um cigarro de maconha e outro, não parecia se importar com alguns insultos racistas contra Pelé. Ele compartilha a droga com um dos seguranças encarregados de afastar as duas torcidas.

"Pelé era negro e você é branco, cara de pau", grita um torcedor argentino a um brasileiro com a 10.

Com a expulsão de David Luiz, " a ovelha" para os argentinos, o estádio volta a gritar "Maradona es mas grande, es mas grande que Pelé". O jogo termina. Os mais irritados cospem no lado brasileiro. Jogam garrafas plásticas. Gritam furiosos que os vizinhos festejam um empate. E estão certos.

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