Dida Sampaio/ Estadão Conteúdo
Dida Sampaio/ Estadão Conteúdo

Como foi assistir ao jogo do Brasil na Copa América sem torcida no Mané Garrincha

Diante da pandemia de covid-19, estádios seguirão sem receber público durante a competição

Felipe Frazão / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2021 | 21h23

"Vibra o Continente". O slogan oficial da Copa América realizada de última hora no Brasil é o avesso do que se vivenciou na partida de abertura do torneio, a vitória do Brasil por 3 a 0 sobre a Venezuela, em Brasília. Nem sequer nos gols anotados pelo zagueiro, Marquinhos, numa trombada no primeiro tempo, e por Neymar, de pênalti, e Gabigol, de barriga, no segundo, houve grande emoção. As reações no Estádio Nacional Mané Garrincha, vazio por causa das restrições da pandemia de covid-19, limitaram-se às palmas dos jogadores reservas que assistiam à partida sentados nos primeiros lances da arquibancada.

Como a Conmebol exagerava no volume do som ambiente artificial, o simulacro da torcida ausente, pouco ouvia-se dos gritos e conversas dos jogadores em campo, uma das marcas do futebol televisionado na pandemia. A gravação repetitiva com assobios, gritos de euforia e vaias não se alterou nem nos gols - era a mesma durante todo o jogo.

Da Tribuna da Imprensa, ouvia-se com destaque a locução entusiasmada do radialista Milton Naves, da Itatiaia, emissora de Minas Gerais. A narração ecoava pelos assentos vermelhos enfileirados do Mané.

A competição mais tradicional das Américas, que aos poucos perde relevância desportiva, foi muito mais comentada pela controvérsia política, a decisão de do governo Jair Bolsonaro de sediar mais um campeonato continental enquanto o País caminha para a triste marca de 500 mil mortos pela covid-19.

Em nota, os jogadores da seleção, boa parte deles apoiadora do presidente (como Neymar, principal estrela do time), se manifestaram contra o torneio, mas não se recusaram a jogar, como cogitado. Por fim, entraram em campo e exibiram sua técnica para ninguém no estádio.

Do lado de fora do estádio, cerca de 40 pessoas, parte delas militantes ligados a movimentos e partidos de esquerda, protestaram com faixas, bandeiras e cartazes pedindo o impeachment do presidente e cobrando a vacinação. Um grupo ainda menor de indígenas também se manifestou contra a Copa América.

A cerimônia de abertura foi minimalista e constrangida, sem nenhuma autoridade pública presente. Houve uma breve queima de fogos que soou desconexa com o momento. O show dos fogos usados em festividades contrastava com a pandemia descontrolada na maior parte dos países latinos. O que celebrar?

À beira do campo, dois homens de jaleco, representando um médico e um enfermeiro, carregaram a taça. Um deles usava uma máscara com o símbolo do SUS (Sistema Único de Saúde). Antes de a bola rolar, os jogadores prestaram homenagem com 1 minuto de silêncio e a locução oficial da organização agradeceu aos "heróis que estão lutando em todas as frentes contra a covid-19". A lembrar a pandemia só mesmo isso e as propagandas da farmacêutica chinesa SinoVac, que comprou uma cota de patrocínio da competição e teve sua marca exibida nas placas ao redor da cancha.

Na Tribuna de Honra, mais ausências. O presidente Jair Bolsonaro ficou em casa. De bermuda e com a camisa do Brusque (SC), publicou uma foto sozinho em frente à TV assistindo ao jogo no Palácio da Alvorada, apontando para a logomarca do SBT.  "Copa América. Bom domingo a todos", escreveu. Na imagem, aparece de semblante fechado.

O secretário-geral da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Walter Feldman, disse ao Estadão que o Palácio do Planalto sequer justificou a ausência. "Decisão deles", afirmou. Mas as reações negativas à controversa opção por acolher o torneio nas redes socais, a bússola do governo bolsonarista, ajudam a entender os motivos de ele desistir de se associar ainda mais à competição.

Não houve outras menções nas redes sociais por parte de autoridades do governo envolvidas com o torneio, como os ministros Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil) e João Roma (Cidadania), a quem está vinculada a Secretaria Especial do Esporte, no passado um ministério. Como Bolsonaro já havia indicado que não iria à abertura, aliados do governo que têm o esporte como bandeira política agendaram outros compromissos, fora de Brasília.   

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), habitué de jogos de futebol, também desprezou a partida da seleção. Segundo aliados, preferiu ficar em casa e assistir à vitória do seu Flamengo por 2 a 0 sobre o América-MG pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro. Para completar uma noite tão fria, até mesmo a chuva apareceu na noite de Brasília, quebrando a seca característica da capital federal nesta época do ano.

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