Estadão
Estadão
Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Como manter o emprego

Carreiras consolidadas e pouca informação sobre o que passou é a nova tendência entre os técnicos que atuam no Brasil

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 04h00

O Flamengo está ganhando todas. Joga como nunca jogou antes do técnico Jorge Jesus. Ele é a causa disso? Sim, e seu grande trunfo é o pouco que se sabe sobre ele. Era, até pouco tempo, desconhecido para jogadores e torcedores. Dele se sabia o nome e os clubes que treinou, todos fora do Brasil. A rede subterrânea de informações montada pelos jogadores de futebol funciona pouco num caso assim. Simplesmente não há informação disponível. Deve haver uns poucos boatos, narrações incompletas, fatos um pouco incertos. 

A lenda de Jorge Jesus se formou longe. Não chega trazendo na sua bagagem feitos e histórias. Suas maneiras ainda são desconhecidas, seu modo de agir como ser humano ainda será testado, tudo é novo. É quase um homem sem passado. E o que atrapalha os treinadores é exatamente seu passado, vale dizer um longo passado. Dão a impressão, às vezes, de que se foram para sempre, mas eis que subitamente reaparecem. E pouco mudados, principalmente sem modificações de personalidades e métodos, superconhecidos.

Se os próprios torcedores já têm opiniões definitivas sobre eles à simples menção de seus nomes, imagine-se os jogadores, muito mais interessados do que qualquer um no homem que os vai dirigir. Quando Felipão, Abel Braga, Cuca, Oswaldo de Oliveira, entre outros, chegam num clube, trazem consigo todos esses anos de carreira. 

São fatos e mais fatos que correm de um jogador para outro desde o primeiro dia e servem de aviso a todos e de preparação de defesa.

Curiosamente esses treinadores muito rodados parecem sempre iguais, não se valem de disfarces a não ser uma inocente tintura de cabelo, uma pança semi disfarçada ou uma bela dentadura de um branco ligeiramente artificial. Mas é impossível mudar o que não depende deles. Os episódios de longas carreiras cheias de batalhas que deixaram desafetos e mal-entendidos espalhados pelos campos de batalha da vida, repetidos e transmitidos sem cessar de time para time.

Não é apenas isso. A maioria não praticou maldades intencionalmente, nem prejudicou ninguém de propósito. Mas há defeitos irritantes, defeitos de personalidade, que não escapam ao jogador. Escapam do público, mas não de boleiros experimentados. Portanto, quando o treinador chega, todos estão preparados, à sua espera para o bem e para o mal. Todos prevenidos, não há uma entrega total e imediata. 

Ao contrário, todos querem cooperar, mas com um pé atrás e já com estratégias prontas para as inevitáveis manias. 

Mencionei acima alguns treinadores que foram demitidos ou saíram de seus clubes recentemente, a maioria de forma traumática, com torcedores pedindo e vociferando às portas dos CTs. Essas reclamações são feitas muito mais pelo que não fizeram do que pelo que fizeram no passado, cujos ecos reverberam sempre que há a primeira derrota. Acho que esse é o segredo de Jorge Jesus e, em certo sentido, também de Sampaoli, no Santos. Carreiras consolidadas e pouca informação sobre o que passou. Os jogadores os aceitam como se fossem folhas em branco sobre as quais não há escrito nada.

Claro que são competentes, mas tenho certeza que uma carreira feita fora daqui, longe dos olhos, ajuda muito. É claro também que existe uma arte sofisticada, não de eliminar o passado, mas de suavizá-lo, tirar-lhe os contornos e as arestas.

Mano Menezes, por exemplo, é um dos maiores, se não o maior, mestre nessa arte. Tudo nele é um pouco distante e fugidio. Quase nunca entra em polêmicas e sai de um clube como entrou: discreta e silenciosamente pela porta da frente. Recentemente sua última entrevista coletiva, no momento em que era anunciada sua demissão do Cruzeiro, foi uma prova disso. Obra-prima da diplomacia, da classe e da elegância de quem tem como tarefa principal sair sem ser notado. Exatamente como quando chega.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.