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Como o Náutico reconheceu o racismo do passado e entrou na luta contra o preconceito

Clube pernambucano superou resistência de uma minoria dentro dos Aflitos e lançou campanha antirracista

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 08h00

Em 2002, então goleiro do Santa Cruz, Nilson ouviu sons de macaco vindos de torcedores do Náutico durante clássico disputado no Estádio dos Aflitos. Naquela época, ele nem poderia imaginar que depois de 18 anos se tornaria personagem central da campanha do próprio Náutico para combater o racismo. Hoje, aos 44 anos, ele é um dos ídolos da torcida do Náutico por causa também da sua passagem pelo time entre 2004 e 2005, Nilson comemora a nova postura do clube.

A campanha lançada pelo Náutico ganhou repercussão e fez barulho por se aprofundar num assunto em que a maioria ainda nada no raso. O clube reconheceu seu passado racista, lembrando que foi o último do Estado de Pernambuco a aceitar jogador negro em suas fileiras, a partir somente de 1960, e agora quer intensificar ações de conscientização nesse sentido. Além do escudo e da camisa em preto, algo antes inimaginável por ser a cor predominante dos principais rivais do Estado (Sport e Santa Cruz), o Náutico abriu canal direto para denúncias em seu site e aplicativo. Se algum sócio-torcedor praticar qualquer ato discriminatório, será expulso do clube, sem conversa, e a denúncia será encaminhada para as autoridades competentes, uma vez que injúria racial é crime.

A pauta começou a ser discutida durante reunião do departamento de marketing do clube em abril. Na visão dos dirigentes, já havia passado da hora de o Náutico tentar corrigir o passado racista. A ideia era criar uma campanha consistente que causasse reflexão nos torcedores, não apenas algo pontual ou superficial. Após diversas reuniões, ficou definido que o clube lançaria o escudo e a camisa pretos e criaria o canal da denúncia. O próximo passo era elaborar uma cartilha de conduta antirracista para as categorias de base, realizar ações no estádio quando o público puder voltar a frequentar as arquibancadas e fazer parcerias com instituições que combatem o preconceito. O assunto passou a ser ouvido em todas as partes do clube.

Para lançar a camisa preta, o Conselho Deliberativo do Náutico realizou sessão extraordinária. O clube nunca tinha usado a cor em seu uniforme, porque o time é branco e vermelho. O preto remete a Sport e Santa Cruz, os rivais do Estado. Uma vez, inclusive, o fornecedor de material esportivo do Náutico criou uma camisa com a numeração preta e teve de refazer o modelo após críticas da torcida. Desta vez foi diferente. Em razão da causa, o Conselho Deliberativo aprovou a alteração do escudo e o uniforme completamente preto para simbolizar a luta contra o racismo. No Brasil e no mundo. 

"É natural que exista resistência, mas foi minoria. Algumas pessoas falavam 'é causa nobre, mas não acho que precise mudar de cor'. Mas quem fala que não precisa é quem nunca olhou a questão do racismo se vendo pelo outro lado. Nas próprias redes sociais a aceitação da torcida foi quase de 100%", disse o vice-presidente de marketing e de comunicação do Náutico, Luiz Filipe Figueirêdo, ao Estadão. "Esgotamos as camisas no primeiro dia. Do ponto de vista comercial, foi uma ação muito grande, mas o mais importante são as ações de efetivação dessa política de tolerância zero contra o racismo", acrescentou o dirigente de 32 anos, que assumiu o departamento em março. O número de camisas vendidas não foi divulgado. Uma camisa de futebol custa em média R$ 200.

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Algumas pessoas falavam 'é causa nobre, mas não acho que precise'. Mas quem fala que não precisa é quem nunca olhou a questão do racismo se vendo pelo outro lado
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Luiz Filipe Figureirêdo, vice-presidente de marketing do Náutico

Em poucos dias, o vídeo da campanha no Twitter chegou a quase 2 milhões de visualizações. O alcance foi maior do que o imaginado, e o clube colocou legenda em inglês no vídeo postado em seu canal oficial no YouTube. O sucesso é comemorado por Nilson, o convidado pelo Náutico para ser o personagem da campanha.

"A repercussão foi muito grande, não ficou nem no Estado nem no Nordeste apenas, foi para o Brasil inteiro e mundo afora. Estamos vendo esportistas levantando essa bandeira, como o (piloto da Fórmula 1 Lewis) Hamilton. Quem tem voz precisa gritar. Sabemos que a sociedade manda calar às vezes. Mas nós, que temos esse acesso com a imprensa e nas redes sociais, que levam nossa voz para fora, não podemos nos calar", disse ao Estadão o ex-goleiro, que se aposentou há três anos e atualmente é treinador.

Nilson cobra, agora, ações constantes para ajudar no combate ao preconceito. Ele sabe que manifestação pontual de pouco adianta, e leva como exemplo o racismo sofrido em 2002. Na ocasião, após a torcida do Náutico imitar sons de macaco, o então goleiro deu diversas entrevistas e foi contatado por ONGs. "Mas depois ficou por isso mesmo", relembra.

"Quando uma instituição se posiciona da forma como o Náutico está se posicionando, é diferente do que quando uma pessoa, como eu, reverbera a luta contra o racismo. Quando falamos da instituição, trazendo para o futebol. O Náutico representa sua nação alvirrubra. O Estado de Pernambuco e a Região Nordeste também são impactadas, não fica restrito ao Náutico apenas, vai tocar o torcedor do Santa, do Sport... Tive até amigos de fora do Brasil que viram a ação e falaram comigo. É uma mensagem muito positiva, é um posicionamento de cortar toda a relação com o passado racista. O que fez no passado não dá para apagar, mas daqui para frente podemos fazer diferente. É uma luta constante. Com posicionamentos contra o racismo, vamos criando gerações mais conscientes e menos preconceituosas. É preciso continuar esse trabalho", afirmou Nilson.

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O que fez no passado não dá para apagar. Mas com posicionamentos contra o racismo, vamos criando gerações mais conscientes e menos preconceituosas. É preciso continuar esse trabalho
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Nilson, ex-goleiro do Náutico

NÁUTICO QUER ESTENDER CAMPANHA PARA OUTRAS CAUSAS

Depois do sucesso da campanha antirracista, além de continuar as ações, o Náutico tem outro objetivo: estender a luta para outras causas, como a homofobia e a violência contra a mulher. "Precisamos entrar em todas as pautas para abraçar todo tipo de torcedor. Vamos entrar em todos os assuntos com impacto social. Queremos que torçam pelo Náutico pessoas de qualquer cor, raça e sexo. Com clube de futebol, temos esse papel social de ajudar a construir uma sociedade melhor", disse Luiz Filipe Figueirêdo.

LEIA O MANIFESTO ANTIRRACISTA DO NÁUTICO

"A gente tem orgulho da nossa história. A tradição, os títulos, os craques, o estádio dos Aflitos e A Mais Fiel do Nordeste são parte fundamental do que é ser Clube Náutico Capibaribe. Mas nem tudo do passado nos orgulha. Ser o último clube do Recife a ter aceito negros vestindo a nossa camisa nos envergonha. Sem esconder ou deixar de falar do assunto, sabemos o quanto esta atitude colaborou com o preconceito e a discriminação.

Não podemos apagar o racismo do nosso passado, e só um pedido de desculpas não é suficiente. O que a gente pode e vai fazer é contribuir cada vez mais no combate ao racismo estrutural, à desigualdade social e à violência contra negros.

Pela primeira vez na história, o vermelho e o branco são deixados de lado, por uma causa bem maior: avisar para todo mundo que o Náutico também é preto!"

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