Como sempre, a aposta é em Marcos

Era 21 de junho de 2000, véspera do feriado de Corpus Christi. Final da Copa Libertadores da América. Palmeiras e Boca Juniors empatam por 0 a 0 e a equipe argentina conquista o título da competição na decisão por pênaltis, calando o Morumbi. Foi um dos dias mais tristes de um dos maiores ídolos dos palmeirenses na atualidade, o goleiro Marcos. Naquela noite, foi a única vez que Marcos perdeu uma disputa por pênaltis das sete que já disputou com a camisa alviverde na Libertadores.Quase um ano mais tarde, também véspera de Corpus Christi, e, mais uma vez, Marcos aparece como a grande esperança dos palmeirenses para eliminar os rivais argentinos, nesta quarta-feira, às 21h40, no Palestra Itália, e chegar à terceira final consecutiva da Libertadores. Entra ano, sai ano e ele é sempre o principal jogador do time, aquele que deixa os torcedores otimistas. O rótulo de salvador, porém, o preocupa um pouco. Marcos não esconde que se sente pressionado. "Toda a imprensa vem falar comigo, saio no jornal, na televisão, mas, se a decisão for para os pênaltis e eu não pegar nenhum, vão falar que fracassei, vão achar que tive culpa. A responsabilidade tem de ser de todos", afirmou o goleiro palmeirense. Marcos deverá aparecer nesta quarta-feira na lista de Luiz Felipe Scolari como um dos goleiros da seleção brasileira. Com a saída de Emerson Leão, o palmeirense volta a "sentir prazer" em defender a equipe nacional. Em abril, ele havia discutido com o antigo treinador às vésperas do jogo com o Peru, pelas Eliminatórias. "No Brasil, existem grandes goleiros, como o Danrlei, o Velloso, o André, mas, se eu fosse o técnico, me convocaria." Qual é o segredo do palmeirense para tanto sucesso e regularidade? Com a palavra, os especialistas da posição. "Logo de cara, ele me chamou a atenção, porque tem todos os requisitos para um goleiro, é alto e, além disso, tem muita agilidade e bom posicionamento", avaliou Valdir Joaquim de Moraes, um dos primeiros treinadores de goleiros do Brasil. Valdir trabalhava no Palmeiras quando Marcos iniciou seus trabalhos no Palestra Itália. "Um dia, cheguei perto do Velloso (titular do gol palmeirense na ocasião) e disse para ele abrir os olhos, porque tinha um cara muito bom no seu calcanhar."Para Valdir de Moraes, o caráter de Marcos foi fundamental para levá-lo ao "hall da fama". Ele contou que, em 98, Marcos substituiu Velloso, machucado, em algumas partidas. Jogou sete vezes e acabou sendo convocado para a seleção. Mesmo assim, quando o titular se recuperou, tomou seu lugar. Marcos, porém, não chiou. "Ele me disse que sabia que eu o tiraria e ainda me deu os parabéns pela atitude." Embora Marcos tenha uma carreira marcada pela regularidade, os momentos infelizes também fizeram parte de sua história. No início de 2000, ele teve uma fase difícil, falhou seguidamente em alguns jogos e chegou a pedir para ser substituído pelo reserva Sérgio e para não ser chamado para a seleção. Começou a se recuperar justamente contra o Corinthians, nas semifinais da Libertadores. Defendeu o pênalti de Marcelinho Carioca e desclassificou o rival do torneio. Uma séria contusão na mão direita, no entanto, o fez parar por oito meses.Atualmente, o goleiro joga com uma proteção no punho e diz ainda sentir algumas dores. "Uma das grandes virtudes dele foi conseguir voltar com a mesma forma de antes", afirmou Rojas, preparador de goleiros do São Paulo.Marcos retornou apenas neste ano, e bem. As excelentes atuações lhe valeram até um contrato de patrocínio pessoal da Reusch, empresa alemã de materiais esportivos.Aos 26 anos, experiente, ele sabe, contudo, que uma derrota numa partida decisiva pode apagar todo o bom desempenho do ano. Por isso, tem consciência de que o jogo com o Boca Juniors é vital para o futuro da equipe. "Já chegamos muito longe e agora queremos ser campeões da Libertadores para que ninguém mais fale mal da gente", desabafou o goleiro, fazendo referência às pesadas críticas que o Palmeiras recebeu de torcedores e jornalistas durante o ano.Marcos fala com autoridade. Sentiu na pele o sofrimento de falhar em um jogo decisivo, contra o Manchester United, na decisão do Mundial Interclubes, em Tóquio, em 99. O erro custou o título e a vitória - os ingleses venceram por 1 a 0. Na ocasião, foi bastante criticado. Salvou-se apenas de uma "pena maior" porque havia sido o grande responsável pela chegada a Tóquio e pelo título da Libertadores."Estava bem preparado, mas acabei falhando, foi um lance normal de jogo", lembra. "Agora, quero voltar a Tóquio da mesma forma como estava em 99, voando." Treinar muito é uma das principais qualidades do goleiro, segundo seu treinador, Carlos Pracidelli, que deve ser convidado por Scolari nesta quarta-feira para trabalhar na seleção, assim como o preparador físico Carlos Pacheco."Ele é constante, se dedica muito e sempre treina cobranças de pênalti", contou Pracidelli, que diz que seu pupilo sai bem do gol e tem reflexos apurados. Humilde, Marcos garante que ainda precisa melhorar e que tem defeitos, mas prefere não citá-los. "Ah, não vou falar, depois sai no jornal e os adversários vão saber meu ponto fraco."

Agencia Estado,

12 de junho de 2001 | 19h08

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