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Ex-jogador do Cruzeiro, Ronaldo volta à equipe celeste como dono de 90$ de suas ações XP

Ex-jogador do Cruzeiro, Ronaldo volta à equipe celeste como dono de 90$ de suas ações XP

Compra do Cruzeiro por Ronaldo faz futebol brasileiro se voltar para o mundo S/A

Clubes agora podem se tornar sociedades anônimas, em bem-vindo choque de gestão em marcha no País: 'Estadão' explica todos os passos da nova legislação

Eugenio Goussinsky , especial para o Estadão

Atualizado

Ex-jogador do Cruzeiro, Ronaldo volta à equipe celeste como dono de 90$ de suas ações XP

Pouco mais de 80 anos depois de sua profissionalização, o futebol brasileiro está prestes a passar por um novo choque de gestão. Com o objetivo de reconduzir o Brasil ao patamar de potência neste esporte, dando novo fôlego e nova diretriz aos clubes, a lei que cria e regulamenta o modelo de SAF (Sociedade Anônima do Futebol) foi sancionada em agosto pelo presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo não sendo obrigatória, a lei dá instrumentos para os clubes ingressarem em um modelo que facilitará a captação de investimentos, pagamento de dívidas, criando maiores condições para uma gestão profissional e eficiente, como fez o Cruzeiro, vendido por R$ 400 milhões a Ronaldo Nazário. Novos acordos são esperados para 2022.

Com a grande maioria dos clubes brasileiros endividados, a nova lei abrirá a possibilidade de eles ingressarem em nova era de governança, em substituição ao período de gastos desmedidos, dívidas com o governo e um ciclo financeiro baseado em uma visão amadora dos dirigentes, sem prestação de contas mais precisa.

Clubes como Botafogo, Avaí e Chapecoense já têm planos concretos nesse sentido. Cruzeiro, América-MG e Vasco já anunciaram que serão empresas em 2022. Ronaldo abriu os portões e a tendência é que, a partir do próximo ano, uma legião de clubes se torne empresa, em situação similar à que ocorre na Europa, onde 92% dos times das cinco ligas principais são empresas, segundo estudo da consultoria EY, divulgado em janeiro.

“Temos percebido que há dois anos existe essa conversa de transformar clubes em empresas. Todos os clubes brasileiros devem dinheiro ao governo federal. Percebemos um movimento dos clubes para que a partir do momento em que a lei fosse sancionada eles acelerassem, se tornassem empresas para captar recursos, de forma mais organizada. Cruzeiro e Vasco já anunciaram. Vários outros das Séries B, C e D estão no mesmo caminho, por uma gestão mais apurada”, diz Pedro Oliveira, cofundador da consultoria OutField, especializada em direitos esportes.

A possibilidade de transformação do futebol brasileiro é algo concreto, já para 2022. “Primeiro porque haverá maior entrada de recursos com maior segurança jurídica. Segundo porque teremos nova chance de pensar em governança. Historicamente, como modelo associativo, a governança estava se perdendo. Os clubes não tinham donos e as pessoas não eram responsabilizadas pelas decisões que tomavam. Agora, como empresas e uma lei, isso se torna mais seguro ao investidor.”

AÇÕES ORDINÁRIAS

A possibilidade de transformar o clube em uma S/A terá como uma das mudanças o fato de as novas empresas serem obrigadas a emitir ações ordinárias da Classe A, além de serem regulamentadas pela Comissão de Valores Mobiliários.

Tal situação se difere do atual cenário, em que os poucos clubes-empresa, como Cuiabá, Botafogo-SP e Red Bull Bragantino, atuavam num modelo que não lhes garantia a mesma segurança jurídica.

“Com uma lei específica, foi possível trazer a chance de um tratamento tributário diferenciado, maiores possibilidades de investimento e de redimensionamento das dívidas. A nova lei dá maior segurança jurídica. As sociedades anônimas, por força da lei ou prática societária, são mais transparentes e integradas a sistemas de conformidade, pois se encontram em ambiente econômico de maior segurança”, afirma Tullo Cavallazzi Filho, advogado de direito desportivo e presidente da Comissão Especial de Direito Desportivo da OAB.

A maioria dos clubes brasileiros é associação desportiva, sem fins lucrativos. Não precisam pagar IRPJ (Imposto de Renda Pessoa Jurídica), CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) e Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social). E pagam PIS (Programa de Integração Social) e INSS (Previdência) com alíquotas menores.

Até então, caso se transformassem em empresa, teriam de pagar impostos como qualquer outra, incluindo IRPJ e CSLL. Com a aprovação da lei da SAF, haverá um regime tributário especial para o clube de futebol que virar S/A.

Ele pagará alíquotas mais baixas de imposto. Nos primeiros cinco anos, a SAF terá de pagar um imposto (que substituirá o IRPJ, a CSLL, o PIS, o Cofins e o INSS) de 5% sobre a receita bruta, excluída a venda de jogadores. A partir do sexto ano, o imposto a ser pago será 4% da receita bruta total, mas incluindo a venda de atletas. Haverá mais transparência.

Entre outros pontos facilitadores para a S/A estão uma maior proteção contra a penhora ou o bloqueio de receitas; mecanismos para pedir recuperação judicial, falência ou priorizando os credores a receberem primeiro, em um prazo de até dez anos. “O clube-empresa na forma de SAF tem uma vantagem tributária muito maior. Este é um dos maiores atrativos da SAF”, afirma Cavallazzi Filho.

MUDANÇA DE COR

O advogado ressalta que, na formatação da lei, houve muito cuidado para que a tradição do clube não fosse arranhada em função dos interesses dos investidores. Ele afirma que a mudança de denominação, símbolos, hinos, cores e sede, por exemplo, só pode ocorrer com a concordância de todos os detentores de ações ordinárias da Classe A que, são de exclusividade do clube ou pessoa jurídica original. “Essa foi uma defesa que a lei fez para a garantia dos aspectos históricos e culturais.”

A S/A herdará contratos, compromissos e dívidas. Também há a possibilidade de o investidor separar o departamento de futebol das outras atividades, ficando apenas responsável pelo primeiro. Inclusive ao herdar os compromissos. “A questão dos contratos, dívidas e patrimônio irá depender da modalidade escolhida”, comenta Cavallazzi Filho.

Ele aponta que no novo modelo tanto os chamados clubes grandes quanto os de menor porte têm perfil para obter êxito, mesmo com diferentes tipos de investimentos com a transformação em empresa.

O Avaí é mais um que está prestes a se tornar empresa, nos moldes da nova legislação. Segundo o presidente Francisco José Battistotti, o clube já vinha se preparando para isso.

“Diante da evolução da discussão sobre o assunto e avaliadas as suas características locais e os seus projetos futuros, antes mesmo da aprovação da Lei 14.193/21, o clube mudou o seu estatuto permitindo que seja apresentada ao Conselho Deliberativo a proposta para a transformação em empresa.”

Battistotti, que também é presidente da ANCF (Associação Nacional de Clubes de Futebol), é um dos que acreditam que o clube pode se tornar S/A e manter mais de 50% das ações sob seu controle.

Um dos modelos que ele tem como referência é o do Bayern de Munique, que se tornou uma S/A, mas tem a maioria das ações. Parte menor pertence aos patrocinadores, que não têm o controle do time, mas se tornaram parceiros e buscam contribuir e participar das diretrizes para uma gestão mais eficiente. O retorno, afinal, também virá para eles.

PRIMEIRA MUDANÇA

Até 1933, a seleção brasileira venceu apenas dois campeonatos sul-americanos. O Brasil tinha craques como Neco, Friedenreich, Arnaldo, Amílcar Barbuy e Preguinho, mas costumava ser facilmente batido por Uruguai e Argentina, apesar de o futebol ainda ser amador nestes dois países até o início dos anos 30.

Tudo começou a mudar a partir de 1933, quando foi instaurado o profissionalismo no Brasil. Craques como Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Fausto e Niginho estavam deixando o País em função de propostas de centros onde o futebol já era encarado de forma mais profissional.

Dezessete anos depois, o Brasil já fazia a sua primeira final de Mundial. A partir do primeiro título, em 1958, passou a ser conhecido como o País do Futebol. Foi em termos de gestão, portanto, que se deu o maior impulso para que o talento do jogador brasileiro, enfim, prevalecesse. Agora, a chegada da SAF se tornou um instrumento para o fim do amadorismo entre os dirigentes.

Em 1933, com a formação da Liga Carioca de Futebol e em seguida a mudança de estatuto da Apea (Associação Paulista de Esportes Atléticos), a relação entre clube e jogador passou a ser trabalhista, com clubes pagando salários aos atletas. E levou o Brasil a se firmar como referência no futebol.

“Cansei de ser amador no futebol, onde essa condição há muito deixou de existir, maculada pelo regime hipócrita da gorjeta que dão aos seus jogadores, reservando-se para si o grosso das rendas. Os clubes enriqueceram e eu não tenho nada, sou um pária do futebol”, declarou um craque da época, Amílcar Barbuy, nos anos 30, em depoimento a Floriano Correa no livro Grandezas e misérias do nosso futebol.

Cerca de oito décadas depois, ao anunciar a compra de 90% do Cruzeiro pela empresa de Ronaldo, Leo Berenguer, CEO da XP Investimentos, que intermediou o negócio, acenou para um novo panorama no futebol brasileiro. E deixou a entender que não há caminho de volta. “Começamos a transformar a história do futebol nacional. O Cruzeiro é só o primeiro. Muitas outras negociações estão por vir. O Botafogo será o próximo.”

PONTOS DO PROJETO SAF

  • Nome e escudo: A lei que criou a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) estabelece que o clube só poderá mudar nome, hino, escudo ou cores com concordância da associação que deu origem ao clube-empresa.
  • Patrocínio e TV: Quaisquer acordos comerciais, como direitos de transmissão e patrocínio, terão transferência à SAF
  • Patrimônio: O texto prevê que a transferência de patrimônio “independe de autorização ou consentimento de credores ou partes interessadas”. Ou seja, clubes poderão transferir ou não o patrimônio, mas deverão firmar contratos de aluguel ou comodato.
  • Dívidas: O texto prevê o prazo de seis anos, prorrogáveis por mais quatro, para o clube quitar suas dívidas trabalhistas e cíveis, criando mecanismos para acelerar esses acordos.
  • Regime tributário: A Lei da SAF cria regime tributário específico. Nos primeiros cinco anos, o clube-empresa pagará 5% sobre todas as receitas em um único imposto, não incidindo transferências de atletas. As demais receitas serão tributadas. A partir do sexto ano, pagará 4% sobre todas as receitas, incluindo as transferências.

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Como empresas, clubes de futebol poderão adotar diferentes modelos de gestão

Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) permite instituir administrações mais modernas e atrair novos investidores

Eugenio Goussinsky, especial para o Estadão

23 de dezembro de 2021 | 05h00

A aprovação da Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) dá abertura para mais de um tipo de modelo de gestão no futebol. Clubes de maior porte, mas com muitas dificuldades financeiras, como São Paulo, Santos, Vasco e Cruzeiro têm um perfil mais propício para atrair investimentos de fundos maiores e até de governos, como os de países árabes, que buscam maneira eficiente de praticar soft power – usar o futebol para melhorar a imagem.

“O investidor de um clube grande não poderá pensar apenas em gerar novas revelações para exportação. Ele deverá gastar muito para ter estrutura competitiva. Nesse sentido, o retorno em soft power é importante. Uma imagem simpática através do investimento em futebol pode ajudar esse país a alavancar negócios e apoio político em um dos países mais importantes do ponto de vista geopolítico e econômico”, afirma Denis Rappaport, formado pela Universidade de São Paulo e pela Fundação Getúlio Vargas.

Já os clubes de menor porte têm maiores possibilidades de captar investimentos de fundos que não sejam tão grandes, mas que tenham condições de dar um aporte financeiro ao clube, visando ao lucro posterior com venda dos direitos de TV e de jovens jogadores.

Para Pedro Oliveira, cofundador da consultoria OutField, há mesmo distintos níveis de investimento nesta atividade. “A gestão do clube-empresa irá depender muito do modelo de negócio. Clubes grandes como PSG, Barcelona, Real Madrid e Manchester City fazem muito dinheiro com receitas comerciais, com presença global, patrocinadores globais, vendas de camisa, licenciamento, direitos de imagem de atletas.

Mas é possível ter uma operação lucrativa no modelo mais tradicional, baseado só no comercial. Aproximando mais da realidade do Brasil, isso também é possível, dentro de um modelo pautado nos direitos de transmissão e venda de atletas, que somam cerca de 70% das receitas dos clubes do Brasil”, diz.

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Conheça o Ronaldo empresário, as empresas que ele abriu e onde investiu até comprar o Cruzeiro

Ex-atacante busca lucrar com temas ligados à sua própria vida. Craque, que anunciou a compra de 90% da equipe mineira, viu no mundo empresarial uma forma de seguir obtendo êxito após parar de jogar

Eugenio Goussinsky, Especial para o Estadão

22 de dezembro de 2021 | 10h00

A carreira de Ronaldo Nazário, 45 anos, como jogador se encerrou em 2011, mas, antes disso, ele já havia iniciado na atividade de empresário. Essa faceta o acompanha desde a segunda metade da trajetória dentro dos gramados. Mas, assim como um atleta, ele foi ganhando experiência, estofo, aprendendo a se posicionar cada vez melhor em sua área.

A vida empresarial de Ronaldo se iniciou formalmente em 1998, naquele que seria o seu ano mais difícil dentro de campo, quando teve uma convulsão antes da final da Copa do Mundo na França e, mesmo assim, entrou no jogo. O atacante parecia sentir que toda aquela cobrança, que chegava a afetar o seu bem-estar, tinha de ter um plano B, caso, por contusão, questão de saúde ou até um encerramento natural da carreira, fosse preciso gerir uma nova vida. A carreira de um jogador termina quando ele tem, em média, 35 anos. Algumas se prolongam por temporadas a mais. No caso de Ronaldo, ele anunciou sua aposentadoria aos 34 anos.

Então vieram empreendimentos como a boate R9, em 1998, já extinta, no Leblon, e o centro de fisioterapia R9, criado em 2002, após ele se recuperar de ruptura no joelho e ser campeão mundial, que se mantém ativo no Rio. Eram negócios ligados à própria vida de Ronaldo: o gosto pela diversão com amigos e a preocupação em cuidar do corpo, principalmente em relação à recuperação física. Ronaldo foi eleito três vezes o melhor jogador do mundo.

Já em 2010, em meio à sua trajetória no Corinthians, por onde atuou entre 2009 e 2011, após jogar no Milan, ele investiu na empresa de marketing 9ine, que passou a gerir a carreira de atletas e de artistas. Foi mais uma etapa em que ele espelhou novamente um tema ligado à própria vida: como lidar com as idas e vindas de uma carreira bem-sucedida, ou promissora, para que ela não se perdesse na empolgação e na falta de planejamento. A empresa também não teve continuidade. Ronaldo abria e fechava seus negócios, sempre sem revelar o tamanho dos investimentos. Ele sabia usar sua imagem e ela era uma porta aberta para parceiros e boa de divulgação. O carisma de Ronaldo também sempre o ajudou no futebol. Sabia que poderia levá-lo para outros negócios.

"Quando ele chegou ao Corinthians, ele já era gestor de um patrimônio empresarial grande. Tinha uma equipe que cuidava dos contratos dele e, como nenhum outro atleta, tinha uma consciência muito intensa sobre como utilizar os proventos que recebia. Essa consciência era voltada para lidar bem com questões de patrocínio, contratos, assuntos ligados diretamente à sua rotina de jogador. O engajamento empresarial, relacionado à gestão do futebol como um todo, veio depois que ele parou de jogar", conta o economista Luis Paulo Rosenberg, ex-diretor de marketing do Corinthians e um dos maiores responsáveis pela contratação de Ronaldo em 2008.

ESTRATÉGIA DE MARKETING

A própria passagem de Ronaldo pelo Corinthians acabou dando muitos subsídios ao craque em sua atuação fora dos gramados. A iniciativa da diretoria corintiana, na época, serviu como uma prévia do que seria um clube-empresa, mais voltado a uma administração profissional.

Por alguns anos, o Corinthians passou a gerir enormes receitas de patrocínio que levaram o clube a sair da Série B do Campeonato Brasileiro e se tornar uma "potência mundial", tanto do ponto de vista esportivo quanto de marketing. Tudo isso foi impulsionado pela chegada de Ronaldo, que deu início a uma nova era no Parque São Jorge. Até a festa de sua apresentação, sua chegada ao clube era tida com muita desconfiança. Mas Ronaldo viu no Parque São Jorge, além de jogar por mais alguns anos, uma oportunidade.

"Não sabia se a contratação do Ronaldo iria dar certo. Mas sabia que, se desse certo, seria um estouro, um marco. E deu. Marketing tem disso, é preciso se basear em alguns conceitos para levar um projeto adiante. E a base foi o parecer do médico, do técnico e do marketing", diz.

Rosenberg conta que, na ocasião, o médico Joaquim Grava afirmou que a cirurgia do Ronaldo no joelho era reversível. O técnico Mano Menezes, consultado, disse que, mesmo acima do peso (nunca revelado), se Ronaldo jogasse 50% do que poderia tecnicamente, já seria o melhor do Brasil. E do ponto de vista do marketing, seria um bom negócio para todos.

"Foi uma coincidência entre questões médicas, técnicas e mercadológicas. E tudo deu certo porque o Ronaldo, que não era de se envolver pelas torcidas dos clubes anteriores, se apaixonou pela Fiel, que o impressionou", afirma.

O ex-diretor conta que não aconselhou mais Ronaldo após o encerramento da carreira dele como jogador. "Não falei mais nada com o Ronaldo sobre negócios no futebol. Quando ele jogava pelo clube, em decisões econômicas mais sérias, ele me pedia opinião e eu ajudava."

Já como aposentado e mais pesado, Ronaldo não teve uma experiência bem-sucedida ao adquirir em 2014 o controle do Fort Laudardale Strikers, antigo Miami F.C, um time de futebol (soccer) dos Estados Unidos, que acabou falindo. O ex-atacante, porém, manteve o perfil empreendedor e continuou expandindo seus negócios. Trocou o calção e a camisa de treino por terno e camisa social.

Atualmente, ele mantém a Ronaldo Academy, uma franquia de escolas de futebol com 25 unidades no Brasil e três no exterior; o Futebol Experience, um dos principais eventos digitais de futebol do mundo, e abriu outra empresa para orientar investimentos de atletas, a R9 Gestão Patrimonial e Financeira.

Também possui uma ONG, a Fundação Fenômenos, que desenvolve e apoia projetos sociais, cujas informações são veiculadas no canal Ronaldo TV, na twitch. "Quando a pandemia começou, o isolamento me levou a emergir com mais profundidade no mundo dos games. Passei a jogar mais e fui sentindo uma necessidade cada vez maior de me conectar com os fãs, interagir, retribuir. Assistir a lives também virou rotina, fui me interessando mais pelo universo virtual e pela forma como os jovens estão conectados, mudando hábitos e, consequentemente, padrões de consumo. Foi vivendo esse processo que surgiu a ideia da Ronaldo TV", disse Ronaldo tempos atrás.

CLUBES EM DIFICULDADE

No início de 2021, Ronaldo inaugurou a Oddz Network, junto com os sócios Eduardo Baraldi, Otávio Pereira e Gabriel Lima. A empresa é uma holding (que tem participação acionária em outras empresas), em atividades que vão além das realizadas pela agência de marketing esportivo e entretenimento Octagon, também de propriedade do atacante.

Atuando em novos formatos de entretenimento, a Odzz trabalha com temas como big data, games, eSports, gestão e experiências esportivas, tecnologia e produção de conteúdo audiovisual.

Outra holding da qual Ronaldo é proprietário é a Tara Sports, sediada em Madri, na Espanha. A Tara já está atuando na gestão do Valladolid, clube que estava na primeira divisão, mas que caiu na temporada passada, do qual Ronaldo tem a maior parte das ações.

E, caso a compra seja concluída, foi a empresa que adquiriu os 90% do controle do Cruzeiro, negócio anunciado no último dia 18 por R$ 400 milhões, com a missão de pagar 60% da dívida do clube em seis anos. A dívida estimada é de R$ 1 bilhão.

Para Rosenberg, esse novo modelo no futebol é muito bem-vindo, mas, segundo ele, o ideal seria que fosse implementado antes em clubes com melhor saúde financeira. "O exemplo e a iniciativa são as certas, mas estão ocorrendo, neste momento, na direção errada. É lamentável os investidores chegarem para uma reestruturação financeira com clubes altamente endividados, tendo de começar pensando em até dar calote. O ideal seria começar por clubes que estão em melhores condições. Eles utilizariam o capital para crescer ainda mais, acrescentando na gestão. Mas, se nesse momento, pode servir para clubes como Cruzeiro e Botafogo, espero que seja uma boa saída", observa.

Com a experiência de Ronaldo no Valladolid, Rosenberg acredita que o profissional, entre erros e acertos, está pronto para comandar a reestruturação do Cruzeiro. "Se tem alguém que pode impulsionar uma virada no Cruzeiro, esse alguém é o Ronaldo. Ele já adquiriu certa experiência e tem um ótimo suporte técnico. É a pessoa ideal. A paixão não atrapalha. É só ver o futebol inglês, totalmente apaixonado e profissional ao mesmo tempo. A torcida e o gestor querem títulos. Só que o gestor tem uma estratégia de longo prazo", diz Rosenberg. Ronaldo sabe de tudo isso. 

O Ronaldo empresário não tem o perfil de alguém intempestivo. Ele prima pela cautela, por pensar antes de falar e se cercar de profissionais mais qualificados do que ele para direcioná-lo. Diferentemente de suas características como jogador, com suas arrancadas, sua velocidade e explosão muscular, que, impetuosas, não deixavam rastro.

"Ronaldo é um empresário cauteloso, longe de ser precipitado ou desajuizado. Tem muito cuidado ao investir", observa Rosenberg. Para ele, Ronaldo é um homem calculista, frio, que busca o momento certo para finalizar um negócio. Por isso, quando uma notícia é anunciada, ela até parece surpreendente, mas ele já juntou todas as peças e está mais do que seguro para realizá-la. No campo dos negócios, Ronaldo mais se parece com um zagueiro: seguro e só vai nas bolas boas.

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