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Concacaf já investe mais que Conmebol

Clubes da América do Norte superam os do continente sul-americano em gastos e reforços e mostram nova tendência

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Pela primeira vez na história, os clubes da América do Norte superaram os sul-americanos em gastos e movimentação em reforços. Segundo observadores na Fifa, os dados, de 2015, são um sinal claro da mudança no epicentro do futebol das Américas, numa transformação na lógica regional que pode se aprofundar nos próximos anos. 

O crescimento dos investimentos é parte de um plano ambicioso, principalmente dos Estados Unidos. O país pretende sediar a Copa de 2026 e desenvolver o futebol interno.

Números levantados pela Fifa e obtidos com exclusividade pelo Estado apontam que, em 2011, os clubes do continente norte-americano gastaram US$ 21,5 milhões (cerca de R$ 67,8 milhões) para trazer novos reforços. Em 2014, o valor já havia atingido US$ 109,8 milhões (R$ 346,5 milhões). Mas, no ano passado, a expansão chegou a US$ 118,5 milhões (R$ 374 milhões), aumento total de 451%. 

Entre os jogadores mais cobiçados pela América do Norte, estão os do Cone Sul, transformando o “sonho americano” em possibilidade real para dezenas deles. Hoje, o futebol sul-americano fornece 59% dos estrangeiros que desembarcam nos EUA, México e Canadá.

Na América do Sul, a tendência tem sido inversa. Entre 2011 e 2015, a queda no número de transferências internacionais foi de 12%. Os clubes, que gastaram US$ 130,6 milhões (R$ 412 milhões) em 2011, reduziram seus gastos para US$ 99 milhões (R$ 312,4 milhões) ano passado e foram superados pelos “irmãos do norte”. Grande parte das compras feita pelos sul-americanos foram de jogadores da mesma região. 

Juntas, as Américas respondem a 23,8% das transferências internacionais. Os lucros dos clubes sul-americanos com a venda de jogadores continuam superiores aos do norte. Mas as agremiações do hemisfério norte querem se transformar em polos de atração para craques e, assim, reforçar suas marcas.

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Meta dos americanos é atingir o topo

Estados Unidos investem pesado no futebol, com dois objetivos básicos: crescimento interno e ser sede da Copa de 2026

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Os investimentos que os Estados Unidos têm feito fazem parte de um plano mais amplo para o futebol. O país pretende organizar a Copa do Mundo de 2026 e, em âmbito interno, quer desenvolver e fortalecer cada vez mais o esporte. O maior poder financeiro no futebol está, sem dúvida, com os clubes europeus. Mas, atualmente, os norte-americanos só não são a segunda maior potência porque a China decidiu gastar cerca de US$ 400 milhões (cerca de R$ 1,262 bilhão) em 2016 em seus times.

No entanto, na Fifa considera-se a possibilidade de os chineses frearem os investimentos. Já os planos nos EUA são ambiciosos, dentro e fora de campo. Nos últimos cinco anos, US$ 3 bilhões (R$ 9.46 bilhões) foram gastos nas cidades americanas apenas para construir ou reformar estádios e centros de treinamento. Os salários dos jogadores também aumentaram com a maior receita. Há três anos, apenas nove atletas da Major League Soccer (MLS) ganhavam mais de US$ 1 milhão (R$ 3,156 bilhões) em salários. Hoje, eles são mais de 20.

O salto e o sucesso do futebol norte-americano não ocorreram da noite para o dia. “Houve planejamento”, disse Sunil Gulatti, presidente da US Soccer – a Federação dos Estados Unidos. Um momento-chave foi a organização da Copa de 1994, que criou em uma geração de crianças nova possibilidade.

Hoje, as pesquisas apontam que o “soccer” é o segundo esporte mais popular na geração entre 12 e 24 anos. Entre os 44 milhões de descendentes de latino-americanos que vivem nos EUA, é o número 1. Dados da Associação de Colégios Públicos também indicaram que, em 2015, o futebol foi o esporte que mais adeptos atraiu. 

Tais tendências já começaram a ser traduzidas em audiências de TV. No Mundial Feminino, a final contou com uma audiência de 27 milhões de pessoas, equivalente ao que se registrou nas finais do campeonato de futebol americano entre universidades. TVs americanas passaram a comprar os direitos para transmitir campeonatos de todo o mundo e, hoje, o mercado dos EUA é o que mais oferece torneios nacionais à audiência.

A explosão do mercado americano tem sido cobiçada tanto pela Uefa como pela Conmebol. Clubes sul-americanos e europeus tentam convencer seus parceiros norte-americanos a sediar finais da Libertadores e mesmo da Liga dos Campeões. Mas, na semana passada, Sunil Gulatti indicou que sua política era a de apenas realizar partidas oficiais de clubes da sua região.

ARENAS CHEIAS

Nos estádios americanos, as arquibancadas têm registrado saltos importantes em termos de público. Nos últimos cinco anos, a quantidade de ingressos vendidos aumentou 30%. Atualmente, mais torcedores vão a uma arena para assistir futebol do que a jogos da NBA ou a NHL, a liga de beisebol.

Num ranking internacional, as partidas da MLS têm média de 21,6 mil pessoas, o que faz o torneio ser o sexto maior em público no mundo, superando o Brasileiro, o Campeonato Argentino ou a Ligue 1, na França. 

O time do Orlando City, por exemplo, tem média de 32 mil pessoas por partida e o clube chega a cobrar um depósito de US$ 75,00 (R$ 236) apenas para que o torcedor seja mantido em uma lista de espera.

No caso do New York FC, a média de público chega a 27 mil e antes mesmo de iniciar a participação nos torneios já haviam sido vendidos 15 mil pacotes para torcedores acompanharem o time durante toda a temporada.

Nas duas outras ligas que operam nos EUA, o público cresce, ainda que a média seja de 10 mil por jogo no caso da NASL (North American Soccer League) e 3,1 mil no caso da United Soccer League (USL), espécie de terceira divisão. Mas, mesmo nesse nível inferior, algumas partidas surpreenderam até os mais otimistas. O FC Cincinnati chegou a ter público de 23 mil pessoas em uma de suas partidas.

Em 2016, um total de 60 times profissionais competiram em torneios na América do Norte e os cartolas apontam que ainda existe espaço para crescer.  A diferença, porém, está ainda na renda. Hoje, o “soccer” acumula uma receita que é apenas 10% do que a NBA movimenta, em parte por conta dos contratos de publicidade. A esperança, porém, é de que uma eventual Copa do Mundo em 2026 nos EUA abra um mercado maior para o marketing.

FIFA É ALIADA

Na Fifa, a direção já fez sua parte para tentar garantir um Mundial na América do Norte em dez anos. Em suas reformas, a entidade anunciou que as duas últimas regiões que tenham organizado uma Copa não podem concorrer para 2026. Ou seja, Europa e Ásia ficarão de fora da corrida. Já a América do Sul sonha com o evento em 2030, entre Uruguai e Argentina. Ficariam como concorrentes dos EUA apenas Austrália e os países africanos. 

Outro desafio pode vir ainda da China, que tem feito fortes investimentos na contratação de estrangeiros e pode inflacionar os preços, dificultando para que equipes americanas saiam em busca de reforços.

Mas, com uma base cada vez maior de jogadores nacionais ou filhos de imigrantes latino-americanos, administradores americanos também consideram que essa pode ser uma oportunidade para garantir o espaço para criar “ídolos nacionais”, num país movido pelo orgulho patriótico de ter alguns dos maiores atletas do mundo.

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