Albert Gea/ Reuters
Albert Gea/ Reuters

Conflitos internos no conselho de direção do Barcelona abalam a equipe

Seis diretores membros do conselho pediram demissão no início deste mês por queixas de má administração e um deles denunciou casos de corrupção

Tariq Panja, The New York Times

18 de abril de 2020 | 11h00

Há algo de podre no Barcelona. Enquanto o novo coronavírus obriga o futebol mundial a uma parada, no Futbol Club Barcelona, líder do futebol espanhol, a sensação de caos e incerteza parece mais intensa do que em qualquer outro lugar. Em grande parte, uma crise que nasceu de dentro do clube.

Os conflitos que iam se avolumando no conselho de direção eclodiram com revelações embaraçosas sobre a gestão de uma das instituições mais icônicas do esporte. Seis diretores membros do conselho pediram demissão no início deste mês por queixas de má administração, e um deles, um vice-presidente, Emili Rousaud, denunciou inclusive casos de corrupção.

Os seis assinaram uma carta conjunta pedindo eleições antecipadas, quando deveriam ocorrer nos primeiros meses de 2021, a fim de que uma nova administração seja empossada e possa tirar o clube da espiral da crise.

Não foi um espetáculo nada bonito. O clube foi tomado pela feiura dos bastidores, pela conspiração e a paranoia em um agudo contraste com a beleza revelada em campo por seu time inspirado por Lionel Messi, a moderna encarnação do Barcelona como uma das maiores dinastias dos esportes.

“É muito embaraçoso para o clube”, lamentou Rousaud, que até pouco tempo atrás era um dos aliados mais próximos do presidente Josep María Bartomeu no conselho e amplamente considerado seu sucessor.

Rousaud agora quer que Bartomeu saia o mais rapidamente possível e que se realizem eleições para a eleição de um novo líder, possivelmente ele próprio, e para pôr ordem na disputa surgida no interior do clube a ponto de Messi, uma figura que não é conhecida por fazer comentários pesados em público, atacar a administração. “Bartomeu tem só mais um ano de mandato”, disse Rousaud ao jornal The New York Times. “As eleições deveriam se realizar em junho do próximo ano, mas eu acho que seria melhor antecipá-las para que seja constituído um novo conselho diretor e sejam tomadas decisões com uma visão de cinco anos e não de 11 meses.

Rousaud disse que se demitiu depois que Bartomeu disse que ele saísse. Ele foi um dos signatários de uma carta com os outros cinco membros que deixaram o clube. “Não podemos mudar a maneira como o clube é dirigido diante de importantes desafios no futuro, principalmente na era pós pandemia”, afirmou.

Bartomeu combate há meses manchetes negativas, e a sua gestão, que data de 2014, tem sido marcada por períodos de turbulência, mas as saídas do conselho diretor cristalizaram a urgência da solução da crise.

No cerne dela há um contrato com uma empresa de monitoramento de mídias sociais que já estava gerando "calor" em meio a alegações de que estava por trás de contas falsas que supostamente eram de apoiadores legítimos do Barcelona e atacaram aquelas percebidas pelos oponentes de Bartomeu, incluindo Victor Font, um provável candidato ao posto de presidente do clube, e jogadores do gabarito de Messi e Gerard Piqué.

Rousaud afirmou que o acordo com a companhia de monitoramento pode ser um caso de corrupção também, e alegou que 1 milhão de euros em pagamentos foram divididos em pequenas parcelas para que não despertassem mecanismos internos de compliance.

“Quando detectamos isto, não foi uma coisa absolutamente normal”, disse Rousaud, segundo o qual uma comissão dirigida por ele tinha a responsabilidade de supervisionar contratos acima de 200 mil euros. “O clube é limpo, mas esta operação é suja”.

O Barcelona reagiu pouco depois de Rousaud fazer a primeira acusação que caiu como uma bomba, de que alguém no clube “enfiava a mão no caixa”.

Na segunda-feira, o Barcelona afirmou em uma declaração as acusações de Rousaud como “graves e infundadas” e negou qualquer  “ação possa ser definida como corrupção”.

“O FC Barcelona não pode tolerar acusações que prejudicam gravemente a imagem da instituição”, afirmando que estava entrando com uma ação penal contra Rousaud “em defesa da honra do clube e dos seus funcionários”.

Em resposta, Rousaud, um empresário catalão de 53 anos, reiterou suas afirmações de crime e insistiu que os seus advogados ainda não haviam informado de que o clube tivesse movido uma ação contra ele. “O clube afirma que estou mentindo, eu digo que tenho as provas e não há problema algum, meus advogados disseram que o clube não tomou nenhuma medida contra mim”, defendeu-se.

A condução do caso pelo Barcelona, conhecido como “Barçagate”, foi desarticulada desde que os primeiros detalhes surgiram no fim de fevereiro. O clube emitiu fortes desmentidos de que tivesse contratado uma companhia para outras atividades que não o monitoramento das redes sociais, mas um grupo de membros do conselho, incluindo Rousaud, exigiu que Bartomeu solicitasse uma investigação interna à empresa de auditoria PWC.

Bartomeu mostra pouca disposição a ficar em segundo plano e, nos últimos dias, tratou de reestruturar o conselho do clube. Ele deve a sua ascensão ao cargo a um escândalo anterior. Ele era vice-presidente do clube quando o então presidente Sandro Rosell foi obrigado a se demitir, em 2014, depois de uma investigação na contratação do superastro Neymar. Bartomeu foi eleito para um novo mandato em 2016.

Em tempos em que o novo coronavírus parou o futebol na Espanha, o Barcelona havia reclamado uma posição de destaque, mas os torcedores criticaram o fato de que o futebol raramente chegava ao padrão que eles se acostumaram a esperar. O clube quase imediatamente se encontrou em um confronto feio com os seus jogadores por causa dos cortes dos salários que culminaram com um ataque violento de Messi, visando claramente a administração.

“Não foi nenhuma surpresa para nós o fato de haver no clube algumas pessoas que tentam nos colocar sob o microscópio e nos pressionar a fazer algo que nós sempre soubemos que teríamos de fazer,” ele escreveu em uma mensagem no Instagram no mês passado.

A pressa de chegar a um acordo foi definida pela precária situação financeira do time. Na temporada passada, o time gastou 66% do seu faturamento de 1 bilhão de euros em salários, e sendo um clube de membro, não pode confiar na munificência de cheques nadando em petróleo ou de oligarcas que podem patrocinar times rivais em tempos difíceis. “Não estávamos preparados para receber o impacto de algo como o (novo) coronavírus”, disse Rousaud, embora admitindo que poucos clubes poderiam esperar algo desta gravidade.

Neste momento, exilado do time, Rousaud está tramando o seu retorno, traçando um curso que poderá levá-lo de volta para a sala do conselho  substituindo Bartomeu, mas agora não mais como o seu sucessor escolhido dedo. “Se conseguir apoio, irei me apresentar”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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