Tim Ireland/AP
Tim Ireland/AP

Conheça a história de Roberto Firmino, o novo xodó de Dunga

Desconhecido do público brasileiro, meia faz sucesso na Europa

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2015 | 18h13

Existem dois Robertos Firminos. Um, fora dos gramados, é tímido, voz mansa e baixa e introvertido. O outro, dentro de campo, é arrojado, corajoso e valente.

Foi justamente a combinação desses dois perfis antagônicos que conquistou Dunga. Hoje, pode-se dizer que o meia do Hoffenheim já faz parte do chamado núcleo duro da seleção. Ou seja, daquele grupo de jogadores de confiança do treinador.

 “Bom de grupo”, como costuma-se dizer no futebol, bastaram apenas duas convocações para Firmino cair nas graças do treinador. Na primeira, para os amistosos contra Turquia e Áustria, no ano passado, marcou um golaço no segundo jogo em um momento complicado do jogo, quando a partida estava empatada por 1 a 1 – o Brasil acabou vencendo por 2 a 1.

Na segunda convocação, a história se repetiu. Contra o Chile, domingo passado, em Londres, coube a Firmino decidir a partida, novamente com um belo gol no qual deixou o goleiro no chão antes de mandar a bola para a rede e decretar a vitória por 1 a 0.

Apesar de Firmino ser desconhecido para boa parte do torcedor brasileiro, Dunga revelou que acompanha o jogador desde 2009, ano em que ele despontou no Figueirense. Em 20013, quando o treinador estava no Internacional, chegou a pedir para a diretoria tentar tirá-lo do Hoffenheim. Mas já era tarde demais. Àquela altura, o meia já fazia sucesso na Alemanha e o clube gaúcho não tinha cacife para contratá-lo. 

Ano passado, enfim, Dunga pôde trabalhar com Firmino e o jogador confirmou as boas referências que o treinador tinha recebido dele. Além de salvar a pele dos companheiros com dois golaços, o meia mostrou ser um jogador humilde, sempre concentrado e dedicado aos treinos. Exatamente como Dunga tanto valoriza.

E não é só o técnico da seleção que gosta – e muito – de Firmino. O jornal alemão Bild publicou recentemente uma lista de 12 clubes interessados no brasileiro. O Atlético de Madrid, por exemplo, estaria disposto a pagar A 25 milhões (R$ 90 milhões) pelo jogador.

Em Maceió, cidade natal de Firmino e do CRB, seu primeiro clube, as informações são de que o próximo destino do meia será a França. “O que passaram para a gente é que ele já está fechado com o PSG”, diz o vice-presidente Ednilton Lins.

O clube alagoano está atento a cada passo de Firmino não só porque ele é motivo de orgulho para a sua torcida, mas principalmente devido à porcentagem a que tem direito a receber a cada transação do jogador por tê-lo formado em suas categorias de base.

“Não gosto de falar sobre especulações, mas é fato que ele cresceu muito e amadureceu nesse período em que está na Alemanha. Os clubes sabem que ele é um jogador com consistência e que não está apenas vivendo um bom momento”, diz o empresário Eduardo Uram, que está com Firmino desde 2009 e foi responsável pela sua transferência do Figueirense para o Hoffenheim.

Antes de trabalhar com Uram, um dos empresários mais poderosos do País com mais de 120 atletas na carteira de clientes, Firmino teve a sua carreira agenciada por Marcellus Portella, um dentista que caiu de paraquedas no mundo do futebol.

“Em 2006, eu era dentista do CRB e o vi jogando nas categorias de base. Logo notei que era um menino muito talentoso, mas ninguém dava atenção para ele. Eu não tinha a pretensão de ser empresário de jogador, mas resolvi conversar com ele e os pais e, então, passei a administrar a carreira dele”, lembra Portella.

Com 17 anos, ele já jogava com os garotos de 19 e arrebentava nos treinos e jogos do Sub-20. Portella percebeu que Maceió e o CRB ficaram pequenos para Firmino. “Quando eu dizia que ele ia chegar na seleção, o pessoal falava: ‘Você é doido’. Agora digo que doidos são eles”, conta Portella.

O dentista/empresário resolveu levar Firmino para fazer testes no São Paulo. Reprovado no Tricolor, o garoto foi tentar a sorte no Figueirense.

Em Florianópolis, ele foi avaliado por Hemerson Maria e deixou o técnico de queixo caído. “Logo no primeiro treino, ele fez dois gols de bicicleta. Foi aprovado na hora.”

Firmino sempre foi destemido na hora de enfrentar os zagueiros, mas na hora de se comunicar era calado. Hemerson relembra uma passagem curiosa entre os dois: “Como tinham vários meninos novos no time, eu confundi o nome dele e fiquei pelo menos duas semanas o chamando de Alberto. Até que um dia o preparador físico disse que o nome dele era Roberto. Para tirar a dúvida, eu o chamei de Alberto e ele veio até mim. Quando eu perguntei o seu nome, ele disse que era Roberto”.

Desfeito o mal-entendido, Firmino fez sucesso no Figueirense. Principal destaque das categorias juvenil e Sub-20, chegou a passar por um período de treinamentos no Olympique de Marselha, na França.

Logo foi promovido para o time profissional e continuou acumulando boas atuações em sequência. “Ele sempre mostrou ter qualidade técnica e, acima de tudo, inteligência de jogo acima da média. Ele antevê as jogadas e tem muita personalidade. Sempre foi um jogador diferenciado”, elogia Hemerson.

A ótima campanha na Série B do Campeonato Brasileiro de 2010, que garantiu ao Figueirense o acesso, foi a vitrine de Firmino para o mercado europeu. Então com 19 anos, ele terminou a temporada como revelação do campeonato e um contrato milionário de quatro anos com o Hoffenheim.

Na Alemanha, o meia demorou um pouco para engrenar, mas atingiu o seu ápice na temporada 2013/2014, quando marcou 16 gols e deu 11 assistências no Campeonato Alemão.

Na Europa, Firmino pegou gosto pela moda e por tatuagens. O meia passou a usar roupas extravagantes e cobriu o corpo com imagens e frases em alemão e até grego. O jogador confessa que a inspiração vem da internet, onde ele também gosta de se mostrar pelas redes sociais.

Uma das suas últimas tatuagens (devidamente publicada na sua conta no Instagram) foi feita no peito e traz o nome da filha recém nascida Valentina Firmino ladeado por uma coroa e uma pedra de diamante.

A relação com a família, inclusive, foi outro motivo que chamou a atenção de Dunga e da comissão técnica da seleção brasileira. Durante a passagem da equipe por Paris, onde disputou amistoso com a França, o jogador recebeu a visita da filha e da esposa Larissa. “Isso é que dá mais motivação ainda. A família, minha filha e a seleção brasileira”, disse Firmino.

Ao colocar a seleção no mesmo patamar da filha e da família, Firmino ganhou importantes pontos com Dunga. Talvez tão valiosos quanto seus gols.

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