Peter Powell/EFE
Peter Powell/EFE

Conheça como o Liverpool trabalha para derrotar seus adversários

Time inglês decide o Mundial de Clubes da Fifa contra o Flamengo neste sábado, às 14h30, no Catar

Arthur Renard, especial, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 16h24

Bem antes de o Liverpool chegar à final da Liga dos Campeões, no ano passado, a preparação para um possível confronto em Madri começou com Pepihin Lijnders. As duas semifinais contra o Barcelona ainda seriam realizadas, mas o assistente do técnico Jürgen Klopp  já analisava como seria uma preparação ideal. Ele pensou em convidar outro time que conseguisse copiar o estilo do Ajax ou do Tottenham Hotspur's para dar ao Liverpool uma ideia de como deveria ser a equipe se vencesse o Barcelona.

O local havia sido decidido. Marbella tem condições climáticas similares às de Madri e seria também mais fácil levar outra equipe para o local em segredo. Lijnders tinha tudo isso em mente. "Se chegássemos à final, eu realmente queria organizar um jogo porque, do contrário, seriam três semanas sem nenhuma ação competitiva. A minha ideia era jogarmos contra um rival similar ao oponente que enfrentaríamos em Madri. A ideia era convidar em particular uma equipe para treinar três a quatro dias da maneira que desejávamos que ela jogasse num amistoso".

No final, todos os esforços de Lijnders valeram a pena, uma vez que o Liverpool chegou à final derrotando o Barcelona por 3 a 0. Depois da final, o plano do Liverpool poderia ser executado plenamente agora com o time indo para Marbella para seu campo de treinamento. Nesse ínterim, o clube fez um acordo com uma segunda equipe do Benfica para visitá-lo na Espanha. "O Benfica B veio e tudo continuou em segredo. Fizemos uma apresentação para seu técnico sobre como eles teriam de jogar. Teria de ser como o Totenham, com suas jogadas de bola parada, objetivos e organização defensiva. Fizemos um jogo a portas fechadas. Até instalamos grades de proteção mais altas de modo que ninguém pudesse ver alguma coisa. O jogo foi realizado exatamente uma semana antes da final e preparamos tudo como se fosse no dia da final".

O Liverpool, que derrotou o Benfica B por 3 a 0, conquistou a Copa da Europa uma semana depois, superando o Spurs por 2 a 0. Quando assistimos ao desenvolvimento em campo dos primeiros gols, em ambos os jogos, notamos um padrão reconhecível, com o Liverpool tendo a posse da bola no meio e os arremessos longos para Sadio Mané. "Em ambos os momentos você via claramente como nos posicionamos para dominar o segundo jogo de bola e diretamente buscar Sadio no espaço livre, atrás da última linha".

Todos os pequenos detalhes contribuíram para o grande término da temporada. Para Lijnders foi como um quebra-cabeças que se encaixou exatamente como desejava. "O caminho inteiro para a vitória na Liga dos Campeões foi incrível. Como técnico você tem de tomar muitas decisões e felizmente durante a disputa da Liga dos Campeões muitas deram certo. E realmente crescemos como equipe e jogadores e todas as coisas realizadas me deixaram muito orgulhoso. Não se trata do troféu em si. Naturalmente isso vai marcar o resto da sua vida, mas a rota para chegamos aí foi inacreditável. Você não consegue comparar a equipe que começou esta competição com aquela que terminou".

ENTENDA O LIVERPOOL

Lijnders falou de um episódio especial em uma das muitas salas de escritório no campo de treino de Melwood. Ele explicou como a equipe técnica trabalha junto diariamente. "Klopp é o líder e o rosto do time, aquele que define o caráter e estimula todos. E ele é inovativo também, sempre buscando o próximo passo e como podemos melhorar. Pete (Krawietz) é o responsável pelas análises e prepara tudo em vídeos que são mostrados para os jogadores. Eu sou o responsável pelos treinos. Juntos, decidimos os aspectos que queremos desenvolver para o time e então elaboro exercícios. É simples, trata-se de continuar estimular nossa mentalidade no sentido de conquistar a bola rápido e avançar no campo o mais rápido possível. Esse elemento retorna em cada exercício. Como equipe técnica sempre buscamos maneiras para os jogadores serem mais espontâneos e mais criativos".

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Klopp é o líder e o rosto do time, aquele que define o caráter e estimula todos. E ele é inovativo também, sempre buscando o próximo passo e como podemos melhorar
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Pepihin Lijnders, auxiliar-técnico de Klopp

A forte pressão contra o adversário se tornou a identidade do Liverpool de hoje. Lijnders trabalha diariamente para refinar seu modelo e criar formas que ajudem os jogadores a subconscientemente dominarem o sistema. Por exemplo, quando jogam em treinos, uma regra é de que um gol só vale quando todos os jogadores cruzaram o meio de campo. "Basicamente é estimular a equipe a avançar rápido e estar pronta para pressionar. E isto só é possível quando vocês estão juntos o tempo todo. As pessoas afirmam que o Liverpool é bom nisto ou naquilo, mas sempre digo que somos bons principalmente porque sempre estamos juntos, não importa para onde vamos".

Lijnders explicou que existem muitos formatos diferentes. "Veja o rondo (bobinho) de 5 x 2 que na verdade é um rondo de pressão. Nosso jogo tem a ver com movimento e velocidade, de modo que com apenas cinco jogadores você tem de derrubar os lados do bobinho sem parar. Os dois jogadores no meio são incentivados a fazer uma interceptação dentro dos primeiros seis passes. Se conseguirem, eles vão juntos ao mesmo tempo, do contrário somente o jogador que interveio pode deixar o meio de campo. Isso tudo estimula nossa visão de pressão contrária em que tentamos quebrar o avanço do oponente dentro dos seus primeiros toques de bola".

Embora o bobinho de 5 para 2 também aumente a concentração dos atletas, Lijnders explica como eles com frequência continuam a sessão de treino com outros exercícios relacionados, como um em que duas equipes de três competem contra uma de três até que a última conquiste a bola e substitui o time que perdeu. Esse rondo específico tem a ver com a transição instantânea e o foco para não se afligir com qualquer tipo de desapontamento depois de perder a bola.

Lijnders argumenta que esses exercícios ajudam a moldar a identidade do Liverpool, uma vez que é exatamente o estilo adotado em jogos. "Eles primeiro têm de compreender a importância da pressão contrário para nossa equipe. Têm de sentir isso, não com a cabeça, mas com o coração. Eles começam o exercício com a ideia de manter a bolsa, mas no caso de perdê-la eles têm de estar no controle da situação". É esta consciência que a equipe técnica enfatiza o tempo todo. "Quando a equipe perde a bola, você me ouve, ou Klopp ou Pete, gritando. "Vai! Recupere! Não pare! Eles têm de entender a razão disto ser tão importante. Esse poder e emoção é o nosso jogo. Porque nossa identidade é a intensidade. E é isto que aprecio como treinador, quando você estimula um determinado comportamento comum e cria muito com um treino da equipe. É o que espero".

JOVEM APRENDIZ

Embora com apenas 36 anos, Lijnders já vem atuando como técnico há alguns anos. Quando tinha 17 anos, foi obrigado a deixar de jogar depois de um problema no joelho. E então passou a atuar como técnico, isto depois de atuar como amador e depois se transferir para o PSV, da Holanda, onde se tornou técnico de uma equipe juvenil. Em 2007, ele foi para o Porto onde trabalhou como chefe de desenvolvimento individual e foi treinador da equipe juvenil. Depois de algumas temporadas, o Manchester United quis levá-lo para Old Trafford, mas não conseguiu, quando Alex Ferguson se aposentou. O Ajax achou que ele seria ideal para trabalhar no desenvolvimento da equipe juvenil. No final, Lijnders acabou no Liverpool, onde ficou responsável pelas equipes sub-15 e sub-16. Um ano depois, foi promovido para a equipe principal.

Portanto, ele tem muitos anos de experiência, mas diz que sempre se sente inspirado pelos seus próprios jogadores quando cria exercícios novos. "O bobinho 5 x 2 é um bom exemplo. Hoje nós chamamos o bobinho de Milly, pois me inspirei em James Milner, porque ele sempre interceptava a bola nos primeiros passes. Ele era muito rápido e trouxe o foco do bobinho para um outro nível. Eu imaginava como poderia instituir uma regra que todos executariam com essa intensidade. Assim, dei um incentivo extra para dois jogadores de meio de campo se tivessem de intervir nos primeiros seis passe. Então disse a Miller: 'esta é ideia sua! Os outros jogadores adoraram'".

CORAÇÃO DE CAPITÃO 

Ele acredita muito no poder dos exemplos a seguir. Diz que o técnico e os capitães de equipe refletem a identidade do clube. "O coração do time é o coração do técnico. Portanto, o caráter do técnico se tornará o caráter da equipe no longo prazo. Não existe arma mais poderosa do que o seu próprio exemplo. Se sou uma pessoa disciplinada, então não preciso disciplinar os jogadores. Nossos capitães Hendo (Jordan Henderson) e Milly, junto com Virgil (van Dijk), são muito disciplinados, o que significa que o resto do grupo não tem necessidade de ser disciplinado. Há uma frase de Theodore Roosevelt (ex-presidente dos EUA) que é a seguinte: 'as pessoas não se importam com o quanto você sabe, até saberem o quanto você se importa'".

"Klopp, de fato, se importa com o esquadrão e sua equipe. Os jogadores compreenderão e absorverão mais a nossa filosofia quando sentirem o quanto nos importamos com eles. Assim, em primeiro lugar, está a relação pessoal entre o técnico e o time".

Lijnders diz que essa relação recíproca forte torna mais fácil para os jogadores acatarem a filosofia do clube, uma filosofia que tem a ver com jogar futebol na melhor forma de ataque. "Sempre temos como foco atacar o oponente, especialmente sem a bola, com uma atitude de caça durante os 90 minutos de jogo. Queremos ser dominantes contra qualquer time e em todos os momentos do jogo. Então jogamos na metade da área do oponente, os bloqueamos, e jogamos com grande variedade. Precisamos ser realmente agressivos nos momentos em que perdemos a bola. Esses momentos exigem uma grande intensidade, sem perder a concentração. Queremos fazer isso contra o Barcelona no exterior, em casa, em qualquer lugar e contra qualquer outro time. Assim, nossa maneira de jogar é um elemento essencial nos nossos treinos."

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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E diz mais: "Muitos times ajustam seu jogo quando confrontam o Liverpool. Por exemplo, eles sacrificam um atacante para marcar nosso número 6, então seu sistema muda de 4-4-2 para 4-5-1. Ou então jogam com cinco homens atrás. Acho que 75% dos oponentes com os quais jogamos até agora na Premier League mudaram alguma coisa na sua formação antecipadamente."

Na sua primeira temporada no Liverpool, quando dava aulas de futebol na academia em Kirby, Liynders era convidado de vez em quando para Melwood pelo primeiro técnico da equipe, Brendan Rodgers, para falar sobre pressão contra e sua interpretação da formação 3-4-3. "É um estilo de futebol holandês autêntico, que, na minha opinião, lhe oferece a melhor oportunidade para bloquear o oponente no seu próprio meio de campo. E estimula os jogadores a terem mais iniciativa".

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Ele tem uma estrutura clara de como deseja que a equipe jogue. E consegue dar uma percepção completamente diferente para uma situação em questão de minutos
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Pepihin Lijnders, auxiliar-técnico do Liverpool

Liynders impressionou Rodgers com seus insights táticos e depois de uma temporada foi convidado a assumir o time principal. Ele aceitou a oferta, mas continuou ligado à academia, criando um grupo de talentos de onde vieram os melhores jogadores de grupos de idade diferentes. Um deles é Trent Alexander-Arnold, que se tornou um jogador regular imprescindível na equipe principal.

Logo depois da promoção de Lijnders, Rodgers deixou o clube, mas quando Klopp o sucedeu, o técnico alemão percebeu que havia herdado um brilhante treinador jovem na pessoa de Liynders e o manteve no grupo. Eles se complementavam com seus respectivos enfoques e conhecimento de táticas. Assim, Klopp ficou triste ao ver Lijnders deixar o clube na temporada de 2017/18, quando o treinador holandês aceitou um papel de supervisor do NEC, time holandês da segunda divisão. Mas Klopp foi rápido em contatar seu aliado e lhe ofereceu um novo posto em Anfield.

FIEL ESCUDEIRO

"Ele quis que eu voltasse para ser técnico-assistente. E disse que nós dois nos tornaríamos responsáveis por tudo dentro do clube. Ele foi muito claro quanto ao que desejava. E me convenceu que faríamos o clube avançar ainda mais e de que conquistaríamos muita coisa juntos. Eu também tive uma imagem na minha mente de como as coisas poderiam ser. Nesse momento isso ficou muito claro para mim".

Ele aceitou a oferta de Klopp, apesar de ter apenas iniciado seu trabalho na Holanda. Desde então o Liverpool ficou ainda melhor, com uma maior flexibilidade e intensidade táticas que resultou na sua entrada na Liga dos Campeões na última temporada. Klopp expressou sua admiração por Lijnders em inúmeras ocasiões e ele só tem elogios quando indagado sobre seu colega alemão. "A capacidade de mudar e compreender o jogo é algo difícil num técnico. Você poder ser um líder, entender o processo de treinamento, mas no final a maneira como você pode mudar um jogo faz uma grande diferença e Klopp tem essa capacidade. Ele tem uma estrutura clara de como deseja que a equipe jogue. E consegue dar uma percepção completamente diferente para uma situação em questão de minutos".

BOM DE PRELEÇÃO

Lijnders dá um exemplo do jogo em Barcelona na última temporada. "Perdemos por 3 a 0, mas depois no vestuário, Klopp disse: 'o único time no mundo que pode reverter esta derrota contra o Barcelona é o nosso'". Isso deu um ímpeto para o esquadrão, também por causa da maneira como jogamos naquela noite. Quando os jogadores se acercaram do técnico já havia um sentimento diferente entre eles.

Segundo Lijnders, este é um bom exemplo da capacidade verbal de Klopp. "Ele resolve problemas antes que ocorram. Antecipa as coisas muito bem. Com frequência no início da semana, ele menciona as dificuldades potenciais dos dias seguintes e age para que elas não surjam. Em termos de liderança e motivação, é um dos melhores do mundo".

Ele reconhece que seus vínculos vão além da relação profissional. "Acho que neste nível é preciso haver uma confiança muito grande um no outro. Discutimos e conversamos muito". Às vezes eles se reúnem em suas casas, mas na maior parte do tempo estão em Melwood, onde passam até as horas de descanso juntos.

COLEGAS DE TÊNIS

No campo de treinos em Melwood há uma quadra de tênis numa gaiola de vidro, construída especialmente para Klopp e Lijnders. Os dois são grandes fãs do esporte. "É uma combinação de tênis e squash e com as paredes de vidro a bola quica rápido. A quadra é para jogo de duplas, assim não é uma disputa um contra o outro, mas contra você também". A primeira ideia era construir uma quadra perto da residência deles, uma vez que são vizinhos. Mas perceberam que uma quadra de tênis no clube teria mais sentido. "É fantástico. Jogamos duas a três vezes na semana, às vezes até mais".

Esses jogos intensos propiciam a eles uma pausa do seu trabalho diário. "É uma maneira perfeita de desligar um pouco. Você não pode jogar esse jogo sem estar 100% concentrado. E é ótimo não pensar em nada durante esse tempo. Às vezes são nesses momentos que achamos uma solução brilhante para alguma coisa". Para Lijnders, o futebol tem a ver com olhar para a frente, não para trás. "Sempre digo: 'se você não foi tão bom no último jogo, pode ser tão bom no próximo'. Porque isso é algo que influencia".

Em tudo o que o técnico holandês faz, a preparação é chave. E ele aprendeu que os mínimos detalhes fazem a maior diferença. No dia do jogo de retorno contra o Barcelona, ele enviou uma mensagem para a equipe técnica para instruir os jogadores a devolverem a bola o mais rápido possível. "Eles terão de dar o melhor de si esta noite, é preciso que todos deem o máximo", foi a mensagem pessoal que enviou.

E foi o que aconteceu. O quarto gol que decidiu o jogo foi depois de Trent Alexander-Arnold receber a bola rapidamente para cobrar um escanteio. Assim, a final, que muitos achavam que seria impossível de alcançar, tornou-se uma realidade que permitiu a Lijnders continuar a trabalhar nas suas preparações bem avançadas para o jogo em Madri. E na capital espanhola, depois de apenas 21 segundos de jogo, ele se deu conta de que os investimentos iniciais compensaram. O quebra-cabeças estava completo. Tradução de Terezinha Martino

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