Junior Vieira/Arquivo Pessoal
Junior Vieira/Arquivo Pessoal

Conheça Estufa, o bairro em Ubatuba que tem Corinthians, Palmeiras e São Paulo como nome de rua

Povoado tem ainda um Maracanã raiz, cercado apenas por um alambrado, técnico que se inspira em Guardiola e revelou amigo de Neymar

Toni Assis, especial para o Estadão

05 de janeiro de 2022 | 15h00

Um Maracanã raiz, cercado apenas por um alambrado, e que conta com um aspirante a técnico que atende pelo nome de Bob Guardiola. É nessa atmosfera varzeana que Ubatuba se identifica com o futebol das antigas. Representado pelo bairro da Estufa, com mais de 30 ruas dedicadas a nomes de times, esse universo já rendeu frutos.

No início dos anos 2000, um promissor artilheiro deu seus primeiros chutes no “Maraca caiçara”. Dez anos depois, o atacante Felipe Azevedo vestiu a camisa 10 do Santos, foi parceiro de Neymar na Vila Belmiro e, neste ano, vai disputar a Libertadores pelo América-MG.

Em tempos de arenas modernas, com camarotes luxuosos, lugares marcados e atendimento vip, o que o campo da Estufa oferece são os refletores que viabilizam partidas noturnas no bairro. Para assistir aos jogos de final de semana, o jeito é ficar em pé, ao redor do alambrado, e curtir a partida na beira da rua que forma a praça Maracanã.

Os dois vestiários são simples e pequenos mas cada um oferece três chuveiros com água quente e fria. E é dali que os atletas saem uniformizados e turbinados para desfrutar o tradicional futebol raiz.

Considerada a capital do surfe pelas belas praias e qualidade das ondas, Ubatuba também tem sua ramificação no futebol por meio da Estufa. A sensação de quem chega aos arredores do bairro é a de estar transitando em um Campeonato Brasileiro. O acesso principal para quem vem pela rodovia Rio-Santos é a Vasco da Gama. São Paulo e Palmeiras também carregam a alcunha de avenida, assim como o Corinthians e o Fluminense, que formam uma esquina clássica na geografia do lugar.

Democrática, a distribuição homenageia os clubes dos mais variados centros. Mesmo que de forma indevida. O rubro-negro pernambucano, por exemplo, é apresentado como `Esporte Recife´. O Santa Cruz também aparece na lista, mas com a grafia correta. Flamengo, Botafogo, a dupla Grenal, os dois gigantes de Minas, Ponte Preta, Goiás, Bangu, Vitória, Portuguesa e times de menor expressão como Nacional, Jabaquara, Comercial, Caxias, Bonsucesso, Olaria e Madureira  ajudam a incrementar o mapa futebolístico.

A origem do bairro tem ligação com Lycurgo Querido. Ele liderou, na metade do século passado, diversos loteamentos e a Estufa foi um deles. Fã de esportes, o empresário pediu que as ruas ganhassem nomes de times de futebol.

Com cerca de oito mil habitantes, as Estufas 1 e 2 apresentam um perfil popular. Com poucas casas de veraneio, o local tem comércio próprio e abriga o Fórum da cidade.

No passado, a região contou com equipes como o 7 de Setembro e o Luamar. Porém, o mais tradicional e único que segue na ativa é o Caiçara, que disputa o campeonato da cidade.

Corintiano de coração, Ironilton Carvalho, 57 anos, não realizou o sonho de morar na rua Corinthians. “Não achei uma vaga lá. Moro na Santa Cruz, esquina com a Santos. Nesse caso, o Santos vai é ficar esquecido mesmo. Passo sempre pelo outro lado quando saio de casa”, divertiu-se.

Proprietário do bar que leva o seu nome, o palmeirense Jadir reside na rua Portuguesa. Mas como seu comércio fica na esquina da avenida Palmeiras, ele une o útil ao agradável. “Aqui é um dos pontos de encontro da turma.”

AMIGOS DO BOB

Figura popular do bairro, Ironilton também é atleta de fim de semana e comanda um grupo de veteranos há mais de uma década. Também conhecido como Bob, o time carrega o seu apelido no nome.

“Aqui no Amigos do Bob temos médico, advogado, cozinheiro, pintor, pedreiro, policial, agente funerário e ambulante que trabalha na praia. Temos uns 100 simpatizantes, mas que jogam mesmo são uns 35.”

O grupo tem regras. No primeiro domingo do mês, os times são divididos e mantidos por quatro finais de semana seguidos. Para jogar, é mais importante ser pontual do que ter habilidade já que a escalação é por ordem de chegada. E o horário é fixo: 8h da manhã.

“Estou lá para segurar a bronca. Os caras reclamam de tudo. Eles me chamam de Bob Guardiola porque quando falta técnico, eu assumo. E gosto de futebol bonito, de bola no chão”, brada o comandante.

O esquema armado pelo comandante valoriza também quem não entra em campo. É o caso de João Cabelo, um cearense de 59 anos. Com pompas de auxiliar, ele chega mais cedo, compra carvão e cuida do churrasco. “O João gosta é de tomar a cachacinha e preparar a carne.”

Ademir, de 76 anos, é um ex-jogador que virou torcedor. Ele disputou o Campeonato Carioca de 1964 pelo Canto do Rio e atuou no Maracanã famoso. “Hoje eu gosto de ver o pessoal jogar. Mas a turma sabe, se tiver que entrar em campo ninguém pode me derrubar, porque se eu cair, demoro a levantar.”

Nos finais de semana, a movimentação gira em torno dos jogos no bairro. O `complexo´ abriga uma quadra soçaite e também a sede onde funciona a Sabe (Sociedade Amigos do Bairro da Estufa).     

O anel que envolve o Maracanã fica rodeado de torcedores e curiosos. Dependendo da partida, o público supera as 100 pessoas. Normalmente, são realizados de seis a sete confrontos entre sábado e domingo.

O Cantinho da Clemilta, que tem um caldinho de mocotó de primeira, e o Bar do Liu, famoso pelo torresmo, são os pontos mais procurados pelos frequentadores.

O clima de final de ano indica um momento de pausa para a rotina do bairro. Como a maioria dos moradores ganha um dinheiro extra na temporada de verão, o Maraca de Ubatuba ganha uma trégua que se inicia no Natal e termina só depois do Carnaval. “A cidade fica uma loucura. Aí o futebol só volta em março do ano que vem”, encerra Bob.

PARCERIA COM NEYMAR E GOL INSPIRADO EM ROMÁRIO

Descoberto por André Paulo Aliste, técnico das seleções da categoria de base, Felipe Azevedo ganhou destaque no “Maraca caiçara”. E logo em um de seus primeiros jogos no campo de nome famoso, ele fez um gol inspirado em Romário.

“Arranquei pela esquerda, entrei na área e completei de bico ao estilo Romário. Fazia muito gol assim. Fui para a seleção da cidade e não parei mais. Jogar no Maracanã de Ubatuba embalou meu sonho e atuar ao lado do Neymar foi a realização da minha carreira”, afirmou o atacante do América-MG ao Estadão.

Em Ubatuba, ele brilhou defendendo o juvenil do Brasília e também deu volta olímpica com o time principal. “O Felipe se destacou nos Jogos escolares e fui responsável por sua transição para o futebol de campo. Daí, ele foi se transformando e virou o jogador que é”, comentou André Paulo.

Aos 34 anos e ainda sem previsão de pendurar as chuteiras, Felipe Azevedo procura contribuir da maneira que pode. Já fez doações de chuteiras, coletes e material esportivo para as escolinhas da cidade, mas planeja algo maior quando parar de atuar.

“Sei das dificuldades que os garotos de Ubatuba enfrentam para buscar o sonho de ser jogador. Tenho ideia de ajudar as crianças de alguma forma.  Para fazer um teste, precisa sair da cidade, tudo é muito complicado. De repente oportunizar um teste para garotos que tenham potencial na cidade, incentivar a prática do esporte. Enfim poder ajudar de alguma forma os garotos que gostem de futebol”, falou o atleta.

A bola vez na cidade atende pelo nome de Vítor Barreto. O atacante levantou o título de campeão brasileiro de aspirantes este ano com o Grêmio. Em processo de reformulação para disputar a Série B, o clube gaúcho renovou o contrato da promessa ubatubense.

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