Andrés Cristaldo / EFE
Andrés Cristaldo / EFE

Conmebol anuncia que a Copa América será disputada no Brasil em meio à covid e agradece a Bolsonaro

País se torna sede do torneio após Colômbia e Argentina serem tiradas de cena por motivos diferentes; vale ressaltar que os Estados brasileiros continuam enfrentando o aumento dos casos da covid-19

Redação, Estadão Conteúdo

31 de maio de 2021 | 11h23

A Conmebol anunciou nesta segunda-feira que a próxima edição da Copa América será disputada no Brasil. As datas permanecem as mesmas - 13 de junho a 9 de julho -, mas as sedes ainda serão divulgadas. Manaus, Brasília, Natal e Recife seriam as cidades escolhidas para receber a competição continental de seleções. Ainda não estão confirmadas. Há muita desinformação. A CBF deu aval para a realização dos jogos no País, em concordância com o governo Federal. Há Estados brasileiros que aceitariam receber as partidas e outros que não.

"Quero agradecer muito especialmente ao presidentede Jair Bolsonaro e a seu gabinete por receber o torneio de seleções mais antigo do mundo. Igualmente meus agradecimentos vão para o presidente da CBF, Rogério Caboclo, por sua colaboração", disse o dirigente máximo da Conmebol Alejandro Dominguez.

O Brasil se torna sede da Copa América 2021 depois de a Conmebol tirar de cena os países que receberiam a competição, que seriam Colômbia e Argentina. O Brasil foi escolhido com o argumento de possuir estádios em boas condições de uso, apesar de estarem alguns ociosos após a Copa do Mundo de 2014. A CBF se ofereceu. Chile e Venezuela estavam no páreo. Uma reunião foi realizada virtualmente nesta segunda-feira com a participação dos dez representantes das confederações sul-americanas. O campeão vai receber R$ 52 milhões.

Em um primeiro momento, o Brasil não era uma opção real, por causa da disputa simultânea do Campeonato Brasileiro. Estados Unidos e até Israel surgiam como alternativas para 'salvar' a competição. Mas a proximidade das sedes iniciais fez com que a Confederação Sul-Americana optasse pelo país vizinho. A Colômbia foi retirada da competição por causa das manifestações populares de rua contra o governo que já duram mais de um mês. Foi a primeira a cair fora. A Argentina foi preterida por causa do aumento de casos de contágio do novo coronavírus no país. A AFA (Federação de Futebol da Argentina) parou o futebol argentino. Há uma semana, a Argentina registrava recordes diários de 35 mil casos e 745 mortes por covid.

Ocorre que o Brasil também não controlou sua onda de contaminação da doença. O País continua enfrentando altos e baixos e novas ondas de mortes e contágios, além de novamente ter suas UTIs em alguns Estados em utilização alta, acima dos 80%.  Nas últimas 24 horas, a média móvel de mortes por covid teve a terceira alta seguida e chegou a 1.844.

A Conmebol vai oficializar os Estados brasileiros que receberão as partidas. Por enquanto, as grandes praças, como São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo, não estão no caminho da Copa América. Ao menos não nessa primeira fase da disputa. O Brasil registra mais de 462 mil mortos por covid-19. Toda uma movimentação e estrutura para atender as seleções, são dez ao todo, e suas delegações devem ser montadas nas cidades-sede do Brasil. Torcedores não serão permitidos nos jogos. Mas o Brasil não controla a entrada de sul-americanos em suas fronteiras.

A Conmebol conseguiu via governo do Uruguai, 50 mil doses de vacinas para os jogadores das seleções da Copa América. Os times da Libertadores também teriam seus atletas imunizados com as duas doses. Alguns já foram vacinados. Não se sabe ainda se parte desse carregamento de vacinas seria doado ao SUS.

A seleção brasileira está no Grupo B, ao lado de Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. Como o Brasil virou país-sede, pode mudar seu grupo para A. A estreia da equipe de Tite estava marcada para o dia 14 (segunda-feira), contra a Venezuela. "O torneio de seleções mais antigo do mundo fará vibrar todo o continente", escreveu a Conmebol no anúncio oficial do Brasil como nova sede. Existe o interesse por parte da Conmebol que a final seja no Maracanã, com a presença de público. Isso ainda não foi aprovado. No Brasil, as partidas de futebol estão sendo jogadas com portões fechados.

Especialistas condenam torneio no Brasil

Especialistas ouvidos pelo Estadão condenam a realização da Copa América no País em função da falta de controle da pandemia. Eles argumentam que há riscos de aumento da transmissão e de novas variantes. "Acho que não seria adequado fazer o torneio no Brasil porque ainda não temos uma situação tranquila em relação ao controle da pandemia", opina médico infectologista Julio Croda , professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). "Com o aumento do número de viajantes, teremos maior contato entre as pessoas, maior transmissão do vírus e, consequentemente, podemos ter novas variantes", completa o especialista. 

O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, também mostra preocupação com o surgimento de variantes. "Acho desnecessário mesclar pessoas de tantos diversos países com tanta diversidade de tipos de SARS-CoV-2 em uma atividade não essencial", avalia. Na opinião do especialista, até mesmo a vacinação dos atletas, medida adotada pela Conmebol na Copa América após doação de 50 mil doses do laboratório Sinovac, é motivo de estranhamento. "Temos também os privilégios em termos de vacinação e viagens internacionais pelos atletas e comissões enquanto a população da América Latina está sob tanto sofrimento em função da pandemia", completa. 

Os especialistas já mostravam preocupação com o retorno do futebol ainda no mês de março com a disputa dos torneios estaduais. Marcelo Otsuka, especialista da Sociedade Brasileira de Infectologia, via com receio a continuidade do futebol no Brasil. "A questão em relação à continuidade dos campeonatos, ou mesmo de outros torneios, diz respeito ao controle da doença. A gente observa que, no caso do futebol, os profissionais são realmente testados com uma frequência até acima da média. Mas eles também têm familiares e pessoas de risco. Se eventualmente desenvolvem a doença e levam para casa, isso representa a chance de complicação."

No fim de semana, o Brasil deu início ao Campeonato Brasileiro. São dez partidas por rodada da Série A e outras dez da Série B. Serão, ao todo, em cada disputa, 38 rodadas, contabilizando 380 jogos de futebol até dezembro. 

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