Arquivo Nacional
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Conquista da primeira Copa América pela seleção brasileira completa 100 anos

Título contribuiu para a democratização do futebol nacional, até então um esporte visto e praticado pela elite

Da Redação, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 04h30

Há cem anos, no dia 29 de maio de 1919, o Brasil bateu o Uruguai por 1 a 0 e conquistou o título do Sul-Americano, torneio que anos mais tarde viria se chamar Copa América. A partida tornou-se um marco na história do futebol nacional. O governo decretou ponto facultativo nas repartições públicas, os bancos e as principais casas comerciais ficaram fechados. Pela primeira vez o futebol deixava de ser exclusivo da elite e virava a alegria do povo. Nascia ali a paixão do povo pela seleção brasileira.

O autor do gol da primeira conquista da seleção foi Friedenreich, filho de um alemão com uma negra. Para Mario Filho, um dos principais cronistas esportivos do País, autor de "O Negro no Futebol Brasileiro", a conquista significou a "democratização do futebol brasileiro". O gol foi de voleio e fez explodir o recém-inaugurado estádio das Laranjeiras, então principal palco do futebol nacional. Os torcedores nas arquibancadas e no alto dos morros que circundavam o palco da partida ainda não sabiam que aquela vitória sobre a seleção uruguaia seria o passo inicial para miscigenação do futebol nacional.

Até então, todos os ídolos anteriores do futebol brasileiro foram brancos. O negro só tinha vez na seleção em caso de corte de um branco. O gol fez o país também receber o apelido de Nelson Rodrigues, irmão de Mario Filho, de "A Pátria de Chuteiras".

QUEM FOI FRIEDENREICH?

Friedenreich foi transformado em herói nacional. Ganhou o apelido de “El Tigre” por parte dos uruguaios e suas chuteiras foram expostas em uma loja na Rua do Ouvidor, no Rio, após aquela conquista. No futebol brasileiro passou por 18 clubes ao longo da carreira e levantou inúmeros títulos. Fez do Paulistano o recordista de títulos estaduais entre 1917 e 1929 ao levantar seis troféus.

O estilo de jogo encantava os torcedores nos estádios. Pode-se se dizer que foi um revolucionário da bola, ao dar dribles mais curtos e chutar com efeito. Ele também se tornou o primeiro atleta a marcar sete gols em um único jogo na goleada do Paulistano por 9 a 0 sobre o União da Lapa, em 1928

ESTÁDIO DAS LARANJEIRAS

A casa do Fluminense foi inaugurada em 11 de maio de 1919 com goleada do Brasil de 6 a 0 sobre o Chile na estreia do Sul-Americano. Foi o primeiro grande estádio nacional com capacidade na época para 18 mil torcedores. O estádio perdeu uma de suas arquibancadas na década de 50 a pedido da prefeitura local que decidiu duplicar uma rua. 

Hoje em dia tem capacidade para 4.300 torcedores. Por um período passou a ser campo para treinamento do profissional do clube. Mas desde que o Fluminense inaugurou seu Centro de Treinamento, em 2016, o elenco principal deixou de ir ao local.

A REPORTAGEM CENTENÁRIA

Pelo acervo do Estado, é possível ter um pouco da dimensão da importância daquele jogo de cem anos atrás. O relato da partida mostra uma narração como se fosse de rádio e um scout do que aconteceu minuto a minuto da partida.

Há lances engraçados, como: "Milton inutiliza nova avançada por estar "off-side". É a terceira vez em cinco minutos. A linha brasileira está atacando, auxiliada valiosamente pelos jogadores de linha média. Registra-se novo "off-side" de Milton."

A narração do gol foi assim: "Os uruguayos avançam, mas são de novo repelidos. Neco avança, enquanto Heitor apanha a bola e escapa fazendo um belíssimo passe a Friedenreich, que "shoota" marcando o primeiro "goal" para o quadro nacional às 16 horas e 52 minutos."

No dia seguinte ao relato uma foto de destaque no jornal mostrava milhares de pessoas aglomeradas na porta em frente ao Estado acompanhando por um placar o andamento da partida.

AS CONQUISTAS BRASILEIRAS

A seleção brasileira vai em busca a partir de 14 de junho de seu nono título da Copa América. E receber a competição foi historicamente fundamental para a equipe nacional erguer seus troféus. Tanto é que as quatro primeiras foram conquistadas em casa. Em 1919, 1922, 1949 e 1989, com o Brasil como sede, a força do torcedor fez a diferença e o time brasileiro foi campeão. 

O primeiro título fora de casa aconteceu na Copa América da Bolívia, em 1997. Dois anos mais tarde, a equipe brasileira de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho, comandada por Vanderlei Luxemburgo, faturou o torneio disputado no Paraguai. Em 2004, o Brasil foi campeão no Peru e a conquista mais recente aconteceu em 2007, na Venezuela.

ANÁLISE

O jornalista Roberto Sander, autor do livro "Sul-Americano de 1919 - Quando o Brasil descobriu o futebol" fez a pedido do Estado uma análise sobre a importância da conquista para o futebol brasileiro. Confira:

"Impossível analisar o momento da conquista sem entender o que era o Brasil no momento. Era um país elitista, estávamos na República Velha, onde havia um sistema que as elites se alternavam no poder. Havia um ranço escravista muito forte. O futebol era um bem das elites. Os descendentes da burguesia, estudantes de engenharia, direito medicina é quem praticavam. Pouco a pouco foi assimilado pelas periferias e caiu no gosto popular. Dessa mistura do futebol que veio da Inglaterra com o dos negros, com mais ginga e molejo, nasceu o futebol brasileiro. A fusão do negro com o branco.

E o Friedereich simboliza isso. Friedrench era filho de alemão com uma lavadeira negra, ex-escrava. Aquela conquista ajudou a combater o preconceito porque ficou claro ali que o importante era a vitória. O envolvimento da torcida no sul-americano foi muito grande, a sensação de que o Brasil não era país  de segunda linha. O Pixinguinha fez a música "1 a 0". A conquista foi muito comemorada. Houve uma celebração por todo o país. Todo esse envolvimento fez que os clubes pouco a pouco inserissem o negro no futebol. Não que o preconceito tenha acabado da noite para o dia, mas essa conquista foi o ponto de partida, um divisor de águas para que pouco a mpouco o negro conseguisse espaço nos grandes clube."

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