Filipe Araújo/AE
Filipe Araújo/AE

Conselho do Corinthians cobra contrato definitivo para o Itaquerão

Presidente do Conselho afirma que clube tem apenas um pré-contrato repleto de 'lacunas'

Vítor Marques, estadão.com.br

17 de outubro de 2011 | 18h01

SÃO PAULO - O Itaquerão, estádio do Corinthians que será anunciado nesta semana como palco da abertura da Copa de 2014, tem apenas um pré-contrato assinado com a Odebrecht e virou alvo de embate entre o Conselho Deliberativo do clube e o presidente Andrés Sanchez.

O Conselho cobra que seja divulgado o contrato definitivo entre a empreiteira e o clube, além de uma série outros pontos considerados por eles como obscuros.

Por sua vez, a diretoria se defende e diz que está disposta a prestar esclarecimentos aos conselheiros.

O ponto de discórdia é quanto a assinatura do contrato, ratificado por clube e empreiteira no dia 1.º de setembro, em festa realizada no Itaquerão com a presença do ex-presidente Lula.

O Conselheiro Deliberativo garante que tudo não passa de um pré-contrato, "com imensas lacunas", segundo o presidente do Conselho Carlos Senger, que assinou o documento, em nota divulgada nesta segunda-feira (leia a integra abaixo).

"Impõem-se - só para ficarmos num item - que todo o Conselho seja informado, por exemplo, dos termos em que o eventual empréstimo junto ao BNDES será tomado. Com que juros, com que prazo, com que garantias, com quais riscos?", afirma Senger.  "Aliás, a quantas andam este vultoso contrato? O empréstimo já foi solicitado formalmente àquele orgão? Foi concedido?"

Essa é a segunda manisfestação pública do conselho em um mês cobrando a diretoria e o presidente Andres Sanches sobre o contrato do Itaquerão.

A primeira nota do Conselho, divulgada no dia 7 de outubro, desencadeou uma resposta de Andres Sanchéz na última sexta-feira. A "batalha" pode terminar no Conselho numa reunião extraordinária. A cobrança maior dos conselheiros, em especial os da oposição, diz respeito ao custo final da obra, que poderá ultrapassar R$ 1 bilhão.

A Fifa irá confirmar nesta semana que o estádio do Corinthians será o palco da abertura da Copa do Mundo. O anúncio oficial será feito na Suíça até esta quinta-feira, informa a entidade. O presidente Andrés Sanchez, segundo sua assessoria, não irá participar do evento.

Leia abaixo a íntegra da nota do presidente do Conselho Carlos Senger:

NOTA OFICIAL

O cargo de Presidente do Conselho Deliberativo do S. C. Corinthians Paulista requer de quem o ocupa discernimento, senso de responsabilidade e equilíbrio.

 
Mas, também, impõe a quem foi constituído nesta posição por livre vontade dos conselheiros, em eleição democrática, firme posicionamento sobre tudo quanto diz respeito e pode interferir na vida econômica e financeira do clube. Vigilância e fiscalização, sempre, é o que se espera de quem exerce minha função.
 
Por isso, mantenho a serenidade e o nível, ao responder à Nota "explicativa" da diretoria que, sinceramente, não acredito expresse o sentimento pessoal do Presidente Andrés Sanchez.
 
Certamente, pressões de neófitos na vida do clube, açodados e pouco afeitos a enfrentar o contraditório, produziram uma peça tão inócua quanto desnecessariamente agressiva. De fato, o estilo contido na mesma não é o do Presidente Sanchez, a quem trato e tratei com respeito e consideração em minha manifestação anterior.
 
Entendo que a formalidade do seu cargo, senhor Presidente, muitas vezes torna inevitável, mesmo contra sua vontade, a "produção" de tão infeliz resposta às minhas indagações. Que, acredite, também o são da grande maioria dos conselheiros e associados. 
 
Porém, vamos ao que interessa.
 
A Nota "explicativa" da diretoria peca fundamentalmente na sua estrutura argumentatória.
 
1. Em primeiro lugar, não é a figura de Carlos Senger que está em discussão.
 
Sem falsa modéstia, meus quarenta anos de serviços ao clube e minha reputação ilibada estão acima de ataques menores e sem base alguma. Querer atingir-me, como insiste o raivoso redator da Nota, é tentar desviar o foco do que realmente importa: abrir a Caixa Preta em que acabou se tornando o assunto estádio Itaquerão.
 
2. Em segundo lugar, porém não menos grave, é esconder deliberadamente no texto da Nota "explicativa" o fato de que o que foi assinado em relação ao estádio foi apenas um PRE-CONTRATO, com imensas lacunas de informação, como, aliás, é comum nos PRE-CONTRATO.
 
Chamá-lo repetidas vezes de CONTRATO na aludida Nota demonstra falta de cautela e mesmo má-fé na tentativa da explicação do inexplicável. Em linguagem jurídica isto se classifica como "Indução a Erro".
 
Pois foi justamente com o compromisso de recebermos um CONTRATO DEFINITIVO que atendemos aos insistentes pedidos do Presidente da diretoria para que colocássemos nosso timbre pessoal naquele instrumento.
 
Com muita humildade, graças à dedicação integral e trabalho me tornei Procurador da Justiça, Professor Universitário no Brasil e no exterior, jurista por formação e por vocação. Por conta disso, aprendi no meu primeiro ano de Faculdade a discernir o que é uma simples peça preparatória, introdutória e manifestação das partes em realizar um determinado negócio, como é o espírito de um PRE-CONTRATO, de um CONTRATO definitivo, onde objetos específicos, prazos, valores, formas de pagamento e de recebimento, deveres, concessões, direitos, multas, peças acessórias e anexas, como planilhas, por exemplo, além de inúmeras outras avenças são pormenorizadamente explicitadas.
 
CONTRATO assim, entre o Corinthians e a empreiteira do Itaquerão, como é óbvio, e do conhecimento geral, não existe.
 
Ou pior: se existe, não foi nunca a mim apresentado e muito ao Conselho Deliberativo. 
 
O que cobramos agora é, pois, exatamente o cumprimento da promessa feita quando da assinatura do PRE-CONTRATO. E isto está muito claro em nossa primeira NOTA OFICIAL. Em cada parágrafo, em cada linha, em cada palavra, em cada vírgula da mesma.
 
3. Por fim, registre-se: 
 
O essencial, reclamado em minha Nota anterior, permanece sem elucidação.
 
Não há informe sobre os custos reais da obra e sobre quem vão recair as responsabilidades da empreitada.
 
Impõem-se - só para ficarmos num item - que todo o Conselho seja informado, por exemplo, dos termos em que o eventual empréstimo junto ao BNDES será tomado. Com que juros, com que prazo, com que garantias, com quais riscos?
 
Aliás, a quantas andam este vultoso contrato? O empréstimo já foi solicitado formalmente àquele orgão? Foi concedido?
 
Estas questões fundamentais permanecem em aberto. Nada foi esclarecido. Nada foi relatado a respeito.
 
O que foi dito no Conselho Deliberativo pelo diretor que se auto-intitulou coordenador único deste projeto de grande vulto e importância para o Corinthians, não passou de generalidades, sem nenhum apoio documental, como todos sabem. A se comparar valores que ali foram apresentados por outros que foram publicadas na sequência, inclusive pela diretoria, sem nenhuma contestação oficial, a diferença é abismal. 
 
Daí a necessidade de se esclarecer os conselheiros.
 
Caro Presidente Sanchez, quando em nossa Nota Oficial anterior afirmamos que o momento era o de união e de nos estendermos as mãos, o movimento era de extrema sinceridade. Continua sendo.
 
Já quando encerramos a nossa mensagem anterior, com o pensamento do grande pensador católico Santo Agostinho, que nos recomenda preferir "aqueles que me criticam, porque me corrigem; àqueles que me adulam, porque me corrompem", foi por justamente acreditar na existência de pessoas capazes de incitar a discórdia e cultivar a soberba. Seja com maus conselhos, seja com Notas "explicativas" divagativas, prolixas, redigidas com falta de cuidado no contéudo e na forma.
 
O Corinthians, enfim, é maior que todos nós, senhor Presidente. Estamos de passagem pelo clube. Façamo-lo de modo honrado e principalmente PRESTANDO CONTAS, sempre que solicitados e sem nos exasperarmos com as cobranças, considerando-as parte de nossa agenda.
 
É a obrigação de quem está no poder.
 
 
Carlos Senger
Presidente do Conselho Deliberativo
Sport Club Corinthians Paulista
 
 

 

 

 

 

 

 

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