Conspiração no ar

É batata: todo ano, à medida que se aproxima o final do Brasileiro, árbitros e eventuais decisões polêmicas que venham a tomar se transformam em tema central de discussões. Superam até os debates em torno dos méritos dos candidatos ao título e dos pecados cometidos pelos atingidos pelo descenso. Os homens do apito concentram as teorias da conspiração, sempre presentes no futebol daqui.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2015 | 03h00

Desta vez, o bafafá começou cedo, mais precisamente no domingo passado, na antepenúltima jornada da primeira metade do campeonato. A largada da temporada de boatos sobre mutretas veio com o pênalti - indiscutível, por sinal - não assinalado para o São Paulo no clássico com o Corinthians (1 a 1). E ganhou força, no meio da semana, com a penalidade marcada para os corintianos em cima da hora, e que lhe garantiu vitória difícil e importante diante do Sport.

Para engrossar o caldo, o Atlético-MG lamentou que lhe tenha sido negado pênalti no jogo em que perdeu para o Grêmio por 2 a 0, em BH. A combinação dos placares, no Mineirão e no Itaquerão, colocou o Corinthians na liderança, um ponto à frente do Galo. 

Pronto, armou-se o circo. Ainda nos vestiários do estádio dos 7 a 1 para a Alemanha, o técnico Levir Culpi mordeu a isca, em perguntas que insinuavam estranhas coincidências em benefício corintiano, e largou dúvidas no ar. O coro engrossou com questionamentos na crônica esportiva e, em todas as entrevistas, não faltaram referências às falhas dos árbitros em lances letais.

A conspiração entrou em cena. Para o senso comum, sem meias palavras, tudo armado para levar Tite e a rapaziada dele a mais um título nacional. Uma estreiteza de visão, para dizer o menos e não perder a elegância. Uma indigência esportiva sem tamanho. 

Para corroborar a tese da mutreta, na campanha pró-alvinegra, sobram ponderações, que transitam de interesses da televisão, a interferência do ex-presidente Lula! Há quem lembre do escândalo do apito, aquele do Edilson Pereira, em 2005, que obrigou a repetição de várias partidas e teve o Corinthians afinal como campeão. E, logicamente, não pode ficar de fora a CBF.

Que o futebol não é terreno fértil para bem-intencionados, isso até o papa sabe. Que histórias cabeludas se repetem, já intuía o beato José de Anchieta, cinco séculos atrás. Que uma dose de ceticismo faz bem, até Cândido, o otimista padrão de Voltaire, aceitaria. 

Muito bem, não se deve mesmo acreditar em muita coisa no mundo da bola. Daí a alardear picaretagem explícita em favor de um time, vai distância, a ser respeitada pela decência e pela sensatez. Até se compreende que o torcedor papagueie o que quiser, fale em roubalheira sem a menor cerimônia. Está no papel dele, não tem responsabilidade alguma; o único compromisso se resume à paixão pelo próprio time. 

Chato é ver formador de opinião vir com papo furado de “apito amigo”, em nome de audiência, cliques, bairrismo. Populismo barato e irresponsável, pois alardeia desonestidade sem provas. Antes de sugerir má fé, que se cobre eficiência dos juízes, critérios claros na interpretação das regras, reciclagem (a popular “geladeira”) para os que errarem muito.

Nisso a CBF deve ser apertada. Se bem que pouco se importa com a bolinha doméstica. O negócio é seleção. Tanto que, por causa de amistosos caça-níqueis, diversas equipes ficarão sem titulares por três rodadas. Pois a Série A não para, enquanto a amarelinha sai por aí para ganhar uns trocos. Acha que a CBF vai se preocupar em armar esquemas para o Corinthians - por acaso time de André Sanchez, desafeto de carteirinha de Del Nero. Mais lógico seria que atuasse contra os corintianos...

Gasta-se energia demais com questões que deveriam ser secundárias e se passa por alto pelo trabalho de técnicos e jogadores. Tite recuperou o equilíbrio da equipe, que tem possibilidade real - e méritos - para concluir a fase na ponta. Basta não baixar a guarda na visita ao instável Avaí, na tarde de hoje em Floripa.


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