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Construção ou desconstrução?

Ou o Palmeiras não tem o tal grande elenco ou alguém está sacrificando os veteranos

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2017 | 03h00

Quarta-feira próxima, o Palmeiras joga em Montevidéu um dos jogos da competição que parecia ser a única que lhe importava neste ano, já que antes ninguém por lá mencionava o Campeonato Paulista. O Palmeiras pode se aprontar para uma guerra. Uruguaios não mudam.

Talvez o jogo não seja tão truncado como o do Allianz. Talvez não haja tanta violência, desleal inclusive, como no primeiro jogo. Jogo muito interrompido não será vantagem para o Peñarol. Mas será um jogo altamente físico, de contato pessoal intenso, em que os uruguaios vão tentar se valer do físico, já que sua técnica não é lá grande coisa. Espera-se, portanto, do Palmeiras, um time fisicamente preparado para o que vier.

Dito isso, volto ao passado. O Palmeiras foi campeão brasileiro correndo muito, marcando implacavelmente, com jogadores esbanjando juventude e vitalidade. Misturados a poucos veteranos necessários, o time tinha Gabriel Jesus, Tchê Tchê, Róger Guedes, Moisés, Vitor Hugo, Dudu, correndo 90 minutos. Esse time foi campeão brasileiro com folga. Na minha opinião, bastava, para continuar sua trajetória vitoriosa, substituir Gabriel Jesus e contratar um ou outro bom jogador para eventualidades, como a contusão de Moisés. Não foi isso que o Palmeiras fez.

Na verdade trocou um time jovem por um time de veteranos. Já havia Prass com quase 40 anos, Dracena com 35, Zé Roberto com 42. Vieram Felipe Melo com 33, Michel Bastos com 33, Guerra com 31 (aparência de 35). Para talvez contrabalançar chegaram Borja com 23, Rafael Veiga com 21, Keno com 27, Hioran com 23 e Vitinho 19. Conservaram ainda o reserva Alecsandro com 36 e Rafael Marques com 33. 

O problema é que nenhum jovem é muito aproveitado. Quem joga são os veteranos. Edu Dracena, que no ano passado foi reserva privilegiado, muito útil, mas jogando pontualmente, passou a jogar todas – às quartas e domingos. Zé Roberto que se revezava um pouco com Egídio, milagrosamente rejuvenesceu este ano, pois joga quarta e domingo. Guedes, por outro lado, que quando entra decide a partida, não entra. Rafael Veiga, habilidoso meia que fez até alguns gols, não entra mais, Hioran nem se ouve falar. Jogam incansavelmente, sem ironia, os veteranos.

Então, a questão é: ou o Palmeiras não tem o tal grande elenco ou alguém está sacrificando deliberadamente jogadores veteranos, fazendo-os jogar além de suas forças em partidas, aliás, não tão importantes. Qual a razão do sacrifício? Quem está mandando no Palmeiras hoje? Por que um time campeão precisa ser modificado (ia escrever destruído) dessa maneira? Não bastava conservar o time de Cuca e trazer algum bom centroavante, como Lucas Pratto, que esteve à disposição até o São Paulo ter a inteligência de contratá-lo?

O time foi “reforçado” como se tivesse se colocado num oitavo, nono lugar no Brasileiro. Essas atitudes parecem incompreensíveis, mas não são. São pensadas e refletidas. Uma razão importante é achar que a Libertadores se ganha com jogadores “cascudos”. Vou me poupar, em respeito à inteligência dos leitores, de dar exemplo de jogador “cascudo”. 

Outra razão, muito mais provável, é a disputa por espaço e atenção nas diversas mídias e meios de comunicação. Isso só se ganha fazendo uma contratação por dia, cada dia mais espetacular, um evento por hora, uma “notícia” por minuto. Não importa muito se necessário, mas tem que ser novidade. 

Isso a diretoria, ou quem dirige o Palmeiras, cumpriu muito bem. Atordoados, os torcedores veem chegar novidades às pencas. E retribuem enchendo o estádio, talvez porque o estádio também é novidade. E, por fim, se o time ganhar, melhor ainda, mas isso talvez não seja mais indispensável.

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