Vítor Silva/Botafogo
Vítor Silva/Botafogo

Contratação de jogadores africanos ainda é uma realidade distante para o futebol brasileiro

Nigeriano na base do São Paulo é exceção; dificuldades de adaptação e burocracia estão entre os principais entraves para esse tipo de aquisição

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2022 | 15h00

A chegada do nigeriano Azeez Olalekan Balogun, de 18 anos, para reforçar o time sub-20 do São Paulo, com possibilidade de utilização no profissional por Rogério Ceni, é um ponto fora da curva do futebol brasileiro. A vinda de atletas africanos para o Brasil está longe de ser uma realidade, ao contrário do que acontece na Europa, quando muitos clubes estão recheados de bons jogadores oriundos da África.

Para se ter uma ideia de como Brasil e Europa se diferenciam nesse quesito, mais da metade das seleções da Eurocopa disputada em 2021 tinha jogadores de origem africana. A França liderava com 12 atletas, seguida por Bélgica e Suíça (oito cada). Portugal (cinco), Alemanha e Suécia (quatro), Áustria, Islândia, Holanda (três), Dinamarca e País de Gales (dois), e Inglaterra e Espanha (um) também tinham africanos naturalizados em suas fileiras

Por aqui, nenhum africano disputou a Série A do Campeonato Brasileiro no ano passado. Até 2020, o atacante marfinense Salomon Kalou havia se tornado apenas o 13º jogador do continente a disputar a principal competição nacional, atuando pelo Botafogo. O primeiro foi o atacante nigeriano Ricky, pelo América-RJ, em 1994.

"Podemos citar que, hoje, os principais países africanos têm uma demanda grande de agentes e ex-jogadores que fazem um trabalho muito intenso para que esses atletas possam ir para a Europa", alerta Júnior Chávare, que trabalhou na base do Grêmio e São Paulo, na transição de base e profissional no Atlético-MG e recentemente foi campeão como executivo de futebol profissional da Copa do Nordeste pelo Bahia.

Na gestão dele, contratar atletas africanos não foi exceção. "Fizemos esse tipo de intercâmbio no Grêmio e mais recentemente no Bahia, com a vinda do camaronês Williams Kouame. De fato, a questão de adaptação, alimentação e comunicação pesam muito, mas também tem o processo burocrático de transferência internacional, que nem sempre é simples, e o investimento financeiro. Os principais jogadores desses continentes vão todos para Europa", explicou.

A contratação de Azeez para as categorias de base do São Paulo é um alento de oportunidade, mas reflete também a dificuldade com que esses atletas, mesmo aqueles mais experientes que são contratados por times profissionais, têm com a adaptação.

O diretor executivo de futebol Rui Costa foi o responsável em 2013, então no Grêmio, por protocolar na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) um pedido para aumentar de três para cinco o número de jogadores de fora do País em campo. Atualmente no respectivo cargo do São Paulo, ele lembra que a distância entre os países já diminuiu bastante ao longo do tempo com os sul-americanos, e a tendência é que isso também mude com jogadores de outros continentes.

"Já ficou provado há algum tempo que são jogadores de muita qualidade. Antigamente, víamos isso apenas de quatro em quatro anos na Copa do Mundo, mas isso mudou e muitos desses jogadores estão em clubes de ponta do futebol europeu. Já a questão da adaptação talvez seja o problema principal, a própria distância da família e as questões culturais e de idioma. Isso já acontece com jogadores sul-americanos, cuja afinidade é maior. Mas essa distância está diminuindo", aponta o executivo do São Paulo.

Outro ponto citado por especialistas tem a ver com a situação histórica e cultural. França e Inglaterra, por exemplo, possuem muitos 'afroeuropeus' na sociedade, e consequentemente no futebol. Gustavo Grossi, com passagem marcante como executivo da base do River Plate, da Argentina, e atualmente responsável por dirigir o mesmo departamento no Internacional, afirma que o Brasil já possui uma ascendência de atletas 'afrosul-americanos' dentro de seu DNA.

"O mesmo que acontece agora com a Europa, aconteceu no Brasil há 50 ou 60 anos. A tendência do futebol africano já está dentro do futebol brasileiro através da genética, do atletismo, do vínculo de algumas regiões do país com cidadãos africanos. O Brasil é o primeiro país da América do Sul que possui atletas 'afrosul-americanos', e por isso acho que aqui o investimento também é menor, pois na genética do sul-americano, o africano já está presente. Talvez venham poucos africanos 'puros', pois já temos aqui o 'afrosul-americano'. O Brasil está enraizado com isso desde pequeno, na base ou nas seleções menores. É o primeiro país do mundo que misturou os africanos com os sul-americanos e que deu certo", aponta.

Eduardo Carlezzo, advogado de direito desportivo e com forte trânsito entre atletas e agremiações da América do Sul, também revela alguns entraves burocráticos para esse percurso entre África e Brasil, especialmente na exportação de jovens profissionais. "Um impeditivo inicial para a contratação de jovens jogadores estrangeiros é a idade. A Fifa apenas admite a transferência internacional de um jogador que tenha mais de 18 anos. Além disso, a possibilidade de pagamento de compensação por formação também pode ser um obstáculo adicional, pois a aquisição de um atleta que esteja livre no mercado pode acabar sendo onerosa se este atleta tiver 23 anos ou menos e a transferência satisfizer os requisitos para a cobrança da formação."

COPA AFRICANA DE NAÇÕES

Se dentro das quatro linhas os clubes apontam problemas, fora de campo a aproximação mais recente da África com o Brasil veio da TV Bandeirantes, que apostou na transmissão da Copa Africana de seleções e não se decepcionou. Durante o mês de janeiro e começo de fevereiro, alguns jogos que não eram decisivos chegaram a dar 3 pontos de audiência, considerados excelentes para a representatividade da disputa. Já a final entre Senegal x Egito, por exemplo, foi a maior audiência da Band no domingo, registrando 8,3 pontos de audiência em São Paulo, o equivalente a 1,71 milhão de espectadores na região metropolitana - ficou apenas atrás da Rede Globo.

Se no Brasil a África ficou mais próxima, tendo a possibilidade do telespectador conhecer as seleções e atletas jamais antes vistos por aqui, a internacionalização dos clubes nacionais neste continente também estão distantes. 

De acordo com Bruno Maia, CEO da Feel The Match e especialista em inovação e novas tecnologias do esporte, o simples fato de um time brasileiro contratar um profissional africano não deve fazer com que ele ganhe novos adeptos. "A grande questão é não ter projeção do produto brasileiro na África. Se existir algo forte, bem vendido e acompanhado de itens que gerem interesse, isso certamente terá uma consequência de mudança. Mas não acredito que um jogador sozinho seja capaz de fazer essa transformação", aponta.

Lênin Franco, diretor de negócios do Botafogo e com larga experiência em ações envolvendo clubes e torcedores, também entende que o processo de internacionalização fora do país passa longe apenas da contratação dos atletas de origem. "O produto futebol brasileiro ainda não está bem formatado para o mercado internacional. As redes sociais não podem ser o principal ativo de divulgação, mas sim, um braço de sustentação desse produto, ou seja, com campeonatos bem formatados, com direitos de televisão bem negociados, com conteúdos exclusivos para os países que adquirirem, e as redes darão o suporte e o engajamento necessário para o produto se fortalecer", encerra.

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