Controvérsias e atrasos marcam 'novo' Maracanã

Reforma do palco mais importante do futebol brasileiro, que deveria ter acabado em dezembro, custou quase R$ 1 bilhão

TIAGO ROGERO E LEONARDO MAIA, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2013 | 08h30

RIO - O Maracanã que todos conheciam, aquele da final da Copa de 1950 e do milésimo gol de Pelé, não existe mais. Ontem, depois de muitos atrasos na maior de todas as reformas desde a sua inauguração, o “novo” Maracanã recebeu seu primeiro evento-teste para a Copa das Confederações. Nos últimos 14 anos, mais de R$ 1,3 bilhão foi gasto na modernização do estádio, que agora será entregue, em um processo recheado de polêmicas, à iniciativa privada.

A obra, que teve início em agosto de 2010 – teria começado em janeiro daquele ano, não fosse pelos apelos de Flamengo e Fluminense –, não ficou pronta ontem. Já são dois anos e oito meses de reforma (104 dias a mais do que o tempo necessário para erguer o estádio, no local do antigo Derby Club do Rio, entre 1948 e 1950), mas a “inauguração oficial”, segundo o governo do Rio, ocorrerá só em 2 de junho, no amistoso entre Brasil e Inglaterra – e com capacidade máxima: 78.838 lugares.

Foram muitos os atrasos. Pela previsão inicial, o estádio teria ficado pronto há quatro meses, em dezembro – prazo que a Fifa exigia para todas as seis arenas da Copa das Confederações. Em 2011, o consórcio responsável pela reforma, formado por Odebrecht e Andrade Gutierrez (tinha também a Delta, que, investigada pela Polícia Federal no “caso Carlinhos Cachoeira”, abandonou o barco), informou que a marquise do Maracanã estava comprometida.

Uma nova cobertura teria de ser construída. A mudança encareceu a reforma do estádio em mais de R$ 200 milhões. Com a alteração, o prazo de entrega passou para fevereiro de 2013. Depois, 15 de abril. E, no último acordo com a Fifa, ficou decidido que ontem, 27 de abril, o estádio – ainda que não totalmente pronto – receberia o seu primeiro evento-teste.

Só na reforma atual foram gastos R$ 932 milhões (pelo orçamento inicial, seriam R$ 705 milhões). Na história do Maracanã, estouros de orçamento são comuns. Primeiro na reforma para o Mundial de Clubes de 2000, que deveria custar R$ 52 milhões e terminou em R$ 106 milhões. Depois, para o Pan de 2007: os R$ 67 milhões inicialmente previstos se transformaram em R$ 304 milhões.

CONTROVÉRSIA

O projeto original, de 1947, queria fazer do complexo do Maracanã um verdadeiro parque olímpico, com direito a estande de tiro e até concha acústica. E chegou bem perto disso com o Maracanãzinho, o estádio de atletismo Célio de Barros e o parque aquático Júlio Delamare. Agora, o que importa para o governo do Rio são lojas, restaurantes e estacionamento. Júlio Delamare e Célio de Barros virão abaixo. Tudo para “viabilizar economicamente” o complexo, como gosta de dizer o secretário estadual da Casa Civil, Régis Fichtner.

Dois consórcios concorrem na licitação que cederá o controle do estádio nos próximos 35 anos. Em um deles, estão juntas nada menos do que uma das empreiteiras responsáveis pela atual reforma, a Odebrecht, e a IMX, empresa do bilionário Eike Batista, responsável pelo estudo de viabilidade econômica do estádio, ponto de partida para o edital de concessão.

O processo está correndo. Ele já foi alvo de ação do Ministério Público Estadual (MP-RJ), que pediu a suspensão da concorrência. Segundo o MP-RJ, o processo está viciado, já que a mesma IMX autora do estudo que deu base à licitação está entre os concorrentes. Uma juíza acatou o pedido do MP-RJ e suspendeu a licitação. Horas depois, acionada pelo governo do Rio, a presidente do Tribunal de Justiça cassou a decisão.

Agora, o governo estadual analisa as propostas técnicas. Na proposta econômica, o consórcio “Maracanã S.A.”, de Eike, Odebrecht e AEG, saiu na frente. Ofereceu valor de outorga (pagamento anual pela operação do estádio) 17% maior do que o adversário, chamado de “Complexo Esportivo e Cultural do Rio”, formado por OAS, Stadion Amsterdan N.V. e Lagardère Unlimited.

Foi-se o Maracanã gigante, o “maior do mundo”, da geral e dos públicos de 200 mil pessoas. E chega um novo estádio, moderno, confortável e caro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.