Contusões: mero acaso ou culpa do excesso de treinamento?

Lesões como as de Diogo, da Portuguesa reabrem a discussão sobre a condição física do atleta de futebol

18 de janeiro de 2008 | 17h30

Afobação, gramados ruins, falta de entrosamento e ritmo físico. Estas são as principais razões pelas quais jogadores se machucam no começo da temporada brasileira  de futebol. Pelo menos são as "desculpas" mais utilizadas. Tido como a grande revelação da Portuguesa nos últimos tempos, Diogo jogou os 90 minutos da vitória por 2 a 0 diante do Santos, na abertura do Paulistão, mesmo com dores. Depois de uma radiografia, o atleta descobriu que sofreu uma fissura no quinto metatarso do pé direito, fazendo com que fique de longe dos gramados por cerca de 50 dias. Jogadores como o lateral-esquerdo Kléber, do Santos, e o zagueiro Juninho, do São Paulo, também se machucaram logo na primeira rodada.E, como de costume, as explicações recaíram sobre a condição dos gramados, disputas acirradas, com lances bruscos, assim como falta de entrosamento e ritmo. Tudo isto, no entanto, não convence o fisioterapeuta Nivaldo Baldo, que tratou de lesões de atletas famosos, como Juninho Paulista, Amoroso, Hortência e Oscar Schmidt. Para ele, o problema não está na falta de preparação do atleta ou a condição do gramado, e sim no trabalho físico realizado na maioria dos clubes brasileiros, que é excessivo. "No Brasil, a maioria dos clubes treina em dois períodos, e isto está completamente errado. O treinador no Brasil tem bom resultado porque tem peça de reposição. Eles não protegem o jogador como deveria proteger. Faz muitos exercícios como pula-pula e caixa de areia. Ninguém agüenta, e quando o jogador vai jogar, ele já está cansado", afirmou Nivaldo, que confessou: "Essa é a verdade que ninguém fala no Brasil, mas precisamos rever os conceitos. O jogador não pode falar [sobre o excesso de exercícios físicos], porque depois ele é perseguido no clube."Nivaldo Baldo também faz um alerta sobre o futuro dos jogadores após o término de suas respectivas carreiras. Lesões como artrite e artrose são comuns devido ao excesso de esforço físico. "O jogador de hoje tem que durar pelo menos até os 60 anos sem problema algum, mas não será isso que vai acontecer. E quando chegar na idade do Careca, do Júlio César e do Falcão? O que faremos com esse povo? Estamos judiando deles [dos jogadores]. Eu falo para não fazer exercícios na caixa de areia, mas eles {clubes] continuam. O Luxemburgo, que admiro muito, ainda continua com caixa de areia e levou até para a Espanha [quando treinou o Real Madrid, em 2005]. Se isso desse certo, camelo e time da Arábia seriam os melhores do mundo", desabafou o fisioterapeuta.A SOLUÇÃO?Simpósios sobre o assunto sempre acontecem, mas nenhuma atitude concreta é tomada, segundo Nivaldo Baldo, que prega mais atenção por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo (Sapesp). "Já passou da hora de mudar {forma dos treinamentos]. O sindicato, a CBF e a Federação [Paulista de Futebol] precisam abrir os olhos. Sei que são bem-intencionadas, mas não resolvem o problema. O brasileiro tem uma capacidade incrível, mas não tiramos proveito disso. Muitos times da Europa treinam uma vez por dia. Nós castigamos o jogador. Parece coisa de escravo." Lutando para tentar mudar o quadro atual, o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo, Rinaldo Martorelli, também acredita que o excesso de treinamento seja a causa mais provável para as inúmeras contusões, mas a culpa estaria no excesso de torneios disputados por temporada. "Excesso de treinamento decorre do excesso de competição. A gente sabe que esta pré-temporada, com esta teórica sobrecarga de exercícios, tem como fundamento a suportabilidade da temporada, que vem com muitas competições. É lógico que o excesso de treino é um fator complicador, mas a culpa esta no número de jogos", disse Martorelli.   O Presidente da Sapesp  confessou encontrar muita relutância para a mudança do calendário atual, assim como coisas básicas, como a hidratação de atletas durante os jogos. "Teríamos que revisar algumas coisas. Estamos com uma briga danada [com as federações] para hidratar os atletas durante os jogos. É um parto fazer algo mudar no futebol. Coisas que são óbvias em outros setores não são para nós [futebol] e a gente perde muito tempo discutindo. Dizem que o futebol é um negócio. A gente, portanto, tem que lucrar com o negócio e, para que isto aconteça, você tem que cuidar deste negócio, e não é isto que acontece."

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