REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Por que a China usa a Copa Africana de Nações para exercer mais influência no continente

País atua na construção e renovação de estádios nos países-sede do torneio como forma de estender sua relação com a África

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2021 | 10h00

A Copa Africana de Nações 2021 será disputada em Camarões a partir de janeiro e o torneio é, novamente, tema de grande interesse de um país localizado fora do continente: a China. Há várias edições do torneio, o país asiático, através de suas empresas, está envolvido no financiamento, construção ou renovação de estádios em países que vão sediar a competição, processo chamado de “diplomacia de estádios”. O uso do esporte tem um pano de fundo por trás: os chineses usam essa forma de soft power com interesses econômicos e políticos. 

Esse é o caso de dois dos seis estádios do Camarões, país-sede da atual edição da Copa Africana. O Limbe Stadium e o Kouekong Stadium foram desenvolvidos através da China Machinery Engineering Corporation, inaugurados em 2016. Se em 2019 no Egito, não houve influência chinesa, antes disso, foi diferente.

Foram três arenas no Gabão, em 2017 (Stade d’Angondjé, Stade d'Oyem e Stade de Port-Gentil), duas na Guiné Equatorial em 2015 e 2012 (Estádio de Bata e Estádio Malabo) e quatro em Angola em 2010. Outras edições do torneio também tiveram participação chinesa na construção ou renovação dos estádios.

A Costa do Marfim sediará a edição de 2023 da Copa Africana e três estádios que receberão jogos da competição receberam ajuda chinesa: Estádio Nacional, para 60 mil pessoas, além do Stade de San Pédro e Stade de Korhogo. Os dois últimos ainda estão em construção.

“São três grandes vetores para explicar essa influência da China na África. Tem a economia política, com a busca de mercados e matérias-primas, e junto com isso a transferência de tecnologia, além de uma série de outros elementos. Um segundo interesse é o soft power. A África tem mais de 50 países e cada um tem um voto na ONU. Não é bem aliança, mas convergência diplomática. Além disso, tem o eixo estratégico, de defesa, no âmbito militar, com a construção de bases”, explica Bruno Hendler, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). “Não existe bondade nas relações internacionais, existem interesses”, completa.

Empresas chinesas também estiveram envolvidas na construção ou renovação de pelo menos 12 estádios pelo continente, que não tem relação com a Copa Africana: Estádio do Zimpeto (Moçambique), Estádio Nacional (Cabo Verde), Estádio Olímpico de Oran (Argélia), Cape Coast Sports (Gana), Moi International Sports Centre (Quênia), Bingu National Stadium (Malawi), Mkapa Stadium (Tanzânia), Samuel Kanyon Doe Sports Complex (Libéria), Mandela National Stadium (Uganda), Bo Stadium (Serra Leoa), Addis Ababa Stadium (Etiópia), Levy Mwanawasa Stadium (Zâmbia), dentre outros.

A “diplomacia de estádios” como estratégia

A China pode atuar em todas as fases de processo de construção de estádios ou parte deles, delegando o restante das tarefas aos próprios países. A negociação se dá muitas vezes com doações das arenas ou empréstimos com juros baixos para a realização das obras.

Diferentes empresas chinesas estiveram envolvidas nessa relação, como a China Metallurgical Group Corporation, Anhui Foreign Economic Construction Group, Shanghai General Construction, China Overseas Engineering Group, China IPPR International Engineering Corporation, Sheng-Li Engineering e Beijing Construction Engineering Group.

O fenômeno não é novo. A China construiu estádios em países da África durante as décadas de 1970 e 1980, chamados de “Friendship Stadiums” (Estádios da Amizade). A construção chinesa de estádios na África estagnou durante a década de 1990, mas depois retomou a prática nos anos 2000. 

“A primeira década dos anos 2000 é pautada pelas relações comerciais entre China e África, com o boom das commodities, sendo muito voltada para exportação de petróleo e minérios. Depois, vemos uma complexificação. A China estabilizou essa demanda por commodities, e essas relações ficaram mais sofisticadas. Então o investimento externo direto é muito importante, como construção civil, infraestrutura em geral, envolvendo transportes, telecomunicações”, explica Hendler.

A “diplomacia de estádios” é uma estratégia menos impactante em comparação com projetos de infraestrutura de grande escala, como a construção de estradas, ferrovias e portos. Mas, de uma perspectiva estratégica, elas são consideradas menos custosas, populares e altamente simbólicas para o país envolvido.

Elefantes brancos?

Críticos apontam que muitos desses estádios são pouco úteis, atendendo principalmente aos interesses dos governantes. Em novembro, Angola ficou impossibilitada pela Confederação Africana de Futebol (CAF) de receber partidas de competições internacionais em três dos quatro estádios que tiveram jogos da Copa Africana de Nações em 2010, devido às condições precárias das instalações

O Oyem Stadium, no Gabão, que sediou jogos da competição em 2017, foi outro que recentemente enfrentou falta de manutenção. Fotos que circularam nas redes sociais mostraram mato alto onde é o gramado.

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