Arte/estadao.com.br
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Copa Africana de Nações começa sob a sombra da guerra

Angola tenta apagar trauma do atentado à equipe do Togo, no ano do primeiro Mundial no continente

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

10 de janeiro de 2010 | 16h03

SÃO PAULO - A apreensão tomou conta dos dias que antecederam o início da Copa Africana de Nações, programado para este domingo, em Angola - com duração até o dia 31. A 27ª edição terá 15 seleções, mas os preparativos foram abalados pelo chocante episódio de sexta-feira, quando o ônibus da delegação do Togo foi metralhado por um grupo armado que luta pela independência de Cabinda, uma das províncias do país e uma das quatro sedes do torneio. Sob ordens do governo do país, os togoleses abandonaram a competição.

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“Fiquei um ano em Angola e nunca tinha visto nada parecido. Há muitos brasileiros em Cabinda e sempre tive a impressão de que a guerra estava distante. Vivi tranquilamente e era muito difícil ver roubo ou assassinato por lá”, conta o atacante Serginho, hoje no Guaratinguetá. Ele atuou no Recreativo Libolo, time da cidade de Kalulo e atual vice-campeão angolano.

A principal competição do futebol africano correu o risco de ser cancelada, mas a comissão organizadora decidiu manter o evento e fará de tudo para garantir a segurança dos participantes. A escolha de Cabinda para ser uma das sedes foi justamente uma tentativa de mostrar que o país havia superado as décadas de guerra civil. Mas o atentado que atingiu os atletas de Togo - oficialmente o alvo era a polícia - ligou o alerta vermelho para as sete partidas que serão disputadas no Estádio Chimandela. As Forças de Libertação do Estado de Cabinda (Flec) já avisaram que as ações vão continuar durante o torneio, que tem como saldo negativo três mortos e sete feridos.

Quando a bola rolar, Angola talvez consiga apagar a impressão ruim e mostrar que se esforçou nos últimos anos para fazer um campeonato à altura do futebol africano. “O torneio ajudou a melhorar a situação de transporte e dos aeroportos. Foi muito interessante ser sede, pois é um país que está se reestruturando, mas ainda é pobre. Os estádios são bons e a seleção não tem tanto prestígio, mas, quando atua em casa, a torcida empurra. Eles são fanáticos e adoram o futebol”, diz Serginho.

Angola aposta justamente no fato de jogar em casa para tentar o título inédito. Mas outras seleções estão em melhor nível. Casos da Costa do Marfim, do atacante Didier Drogba, e de Camarões, do artilheiro Samuel Eto’o. As duas equipes são favoritas e também representarão o continente na Copa do Mundo deste ano - as outras seleções são Nigéria, Gana e Argélia, que estão em Angola, e África do Sul, que não se classificou para o torneio continental, mas disputará o Mundial em sua casa.

Na Copa Africana de Nações, porém, nunca se deve deixar de lado o Egito, atual bicampeão e maior vencedor, com seis troféus. Quando o assunto é o torneio continental, os egípcios se superam. O time conta com o atacante Mohammed Zidan, que atua no Borussia Dortmund, da Alemanha. Quando enfrentou o Brasil pela Copa das Confederações, no ano passado, na África do Sul fez dois gols.

FUTEBOL TIPO EXPORTAÇÃO

O campeonato também marca a volta de dezenas de jogadores africanos que atuam longe de seus países e de suas torcidas. As grandes ligas europeias importam os principais atletas do continente, mas para a disputa da competição os clubes são obrigados a liberá-los. Nesta edição, as equipes francesas são as que mais tiveram de ceder craques para o torneio. No total, são 56 africanos que defenderão seus países na Copa Africana e atuam no futebol francês. Em seguida vem a Inglaterra, com 27 atletas liberados, e depois a Alemanha, com 21.

Assim, Angola hospedará, durante pouco mais de três, semanas os astros africanos e terá estádios cheios para recebê-los. O cobiçado troféu está em disputa e até as seleções mais fracas sonham com uma campanha vitoriosa. Se os problemas políticos permitirem, a festa da torcida ditará o ritmo dos atletas em campo. “Eles investem no futebol e Angola é um país que recebe muito bem os estrangeiros. Gostei de jogar lá e, se precisar, volto numa boa”, complementa Serginho.

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