Arquivo/Estadão
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Copa América de 1989: Da ovada em Salvador à revanche do 'Maracanazo'

Seleção brasileira volta a disputar o torneio em casa 30 anos depois de trajetória complicada na competição

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2019 | 06h00

Hino Nacional vaiado, bandeira queimada, ovo atirado pela torcida, descrédito total com a seleção brasileira. A última Copa América disputada no Brasil, em 1989, foi marcada por condições bem diferentes em comparação ao torneio que terá início no Morumbi, na próxima semana. A equipe atual, comandada por Tite, busca passar longe das mesmas dificuldades do passado, mas quer repetir somente o resultado final: o título no Maracanã.

Se o momento atual é de tranquilidade e até de distanciamento entre os jogadores e a torcida, há 30 anos, a proximidade foi de certa forma até perigosa. O Brasil vivia com a seleção um relacionamento muito conturbado. O último título havia sido a Copa do Mundo de 1970, eram 40 anos sem ganhar a Copa América e resultados péssimos, como uma derrota sofrida por 4 a 0 para a Dinamarca em amistoso pouco antes do torneio.

A CBF também passava por uma reformulação. Ricardo Teixeira assumiu a presidência da entidade em 1989 e tinha na comissão o diretor de futebol Eurico Miranda e o treinador Sebastião Lazaroni, dois ex-funcionários do Vasco. As escolhas renderam polêmica, mas nenhuma definição de nome marcou tanto a Copa América como a lista de convocados. O pivô da confusão que marcaria o torneio foi o atacante Charles.

O então garoto de 21 anos era o destaque do Bahia, campeão brasileiro de 1988. A seleção brasileira faria os jogos iniciais na Fonte Nova, em Salvador, e para delírio da fanática torcida local, Charles teve o nome incluído entre os 22 convocados. Porém a lua de mel acabou a poucos dias da estreia, quando era preciso cortar dois nomes para reduzir a lista até 20 opções. O atacante perdeu a vaga para Baltazar.

A escolha fez a seleção deixar de ser acolhida em Salvador para virar uma inimiga do público baiano, como relembrou o ex-zagueiro Mauro Galvão. "O corte do Charles criou um ambiente negativo demais. Pareceu que a seleção estava deixando de lado o Nordeste. Nós na verdade fomos surpreendidos, porque ninguém esperava ter pressão, ainda mais jogando em casa", relembrou. O time bateu a Venezuela na estreia da Copa América por 3 a 1, mas não amenizou a ira local.

Entre vaias durante o hino e queima da bandeira, o segundo jogo, contra o Peru, foi o mais tenso. A torcida atingiu um ovo na cabeça de Renato Gaúcho na entrada em campo. Revoltado, o jogador logo depois chamaria a Bahia de "terra de índios". Para piorar, a partida chegou a ser interrompida por um apagão. Nervoso em campo, o Brasil ficou no empate sem gols.

O placar de 0 a 0 se repetiria na terceira rodada, contra a Colômbia. Seria preciso, portanto, ganhar na última rodada da fase de grupos para se garantir no quadrangular final. O alívio da equipe foi a mudança de sede e no Recife a seleção se tranquilizou, bateu o Paraguai por 2 a 0 confirmou vaga. "Em Salvador o pessoal estava predisposto a criticar. Tinha um clima que nós tínhamos feito algum mal para a cidade. Depois, no Recife, jogamos com mais apoio", relembrou Mauro.

O passo seguinte seria disputar o quadrangular final, no Rio, com a participação do próprio Paraguai, junto com o Uruguai e a temida Argentina, atual campeã mundial. O time de Diego Maradona foi justamente o próximo adversário. O elenco via na partida um teste de verdade para o esquema com três zagueiros, estabelecido há pouco tempo e bastante criticado na época.

"Nós conversamos com o Lazaroni e acertamos ao não fazer marcação individual no Maradona, mas sim por zona. Isso deu resultado. Nosso time também estava mais confiante e tinha evoluído", comentou Mauro Galvão. O Brasil ganhou por 2 a 0, gols de Bebeto e Romário, depois fez 3 a 0 no Paraguai e na rodada final do quadrangular, enfrentaria o Uruguai.

O curioso é que a partida estava marcada para um domingo, 16 de julho, no Maracanã. A combinação de data, estádio, adversário e dia de semana eram as mesmas da derrota na decisão da Copa de 1950. O fantasma uruguaio estava vivo na lembrança também por derrotas recentes na Copa América de 1983 e no Mundialito, em 1981.  

No jogo decisivo, o Brasil foi melhor e ganhou por 1 a 0, gol de Romário. "A gente sabia de tudo o que envolvia a Copa de 1950, mas ao mesmo tempo sabia que era o nosso momento. Chegamos ao gol em uma jogada forte nossa, um cruzamento do Mazinho", afirmou. Após 40 anos sem ganhar a Copa América, a equipe ergueu a taça no Maracanã e selou as pazes com a torcida.  

Charles: 'Fui pivô involuntário da revolta'

O atacante Charles se envolveu em uma polêmica em 1989 mesmo sem jogar. Ao não ter sido inscrito para a disputa da primeira fase, o jogador do Bahia viu a população de Salvador se rebelar com a seleção brasileira e manifestar a ira durante as partidas do time. Em entrevista ao Estado, ele relembra o episódio 30 anos depois e lamenta ter participado sem querer de todo o problema.

Como foi para você vivenciar toda aquela revolta em 1989?

Ninguém imaginava que poderia ter acontecido. O pensamento nosso é jogar futebol, aí você vê uma situação que a gente não esperava. Eu não fui inscrito para a primeira fase da Copa América e os torcedores ficaram revoltados. Eu tinha só 21 anos, fiquei assustado. É uma coisa que choca a gente. 

Para a fase final, você foi incluído nas duas vagas extras e participou do grupo. Isso amenizou o incômodo?

A minha família me ajudou muito. Quando eu me desliguei da seleção em Salvador, o presidente do Bahia na época, o Paulo Maracajá, foi me retirar do hotel. O torcedor da Bahia via a possibilidade de um atleta local, que tinha sido campeão brasileiro, defender a seleção brasileira. Eu fiquei fora e teve aquela revolta. Não foi bom ver o hino vaiado, bandeira sendo queimada. Foi um exagero.

Quando você se apresentou à seleção para a fase final, como foi a recepção?

Eu fiquei com medo da reação dos jogadores, porque eles poderiam achar que eu tinha participação no que aconteceu. Mas eu fui muito bem recebido. Eu fui um pivô involuntário daquilo. O povo baiano é de forma geral acolhedor e simpático, Mas esse carisma que o povo tem se transformou em uma revolta muito grande por eu ter ficado fora. A imprensa cobrou muito também.

A cobrança para ganhar a Copa América em 1989 era do mesmo nível que a atual?

Era muito maior em 1989. O Brasil tinha muitos anos que não ganhava a Copa América. Agora tem uma cobrança, claro, mas estão dando sequência para o trabalho do Tite. O Brasil vive um momento melhor.

Taffarel é o único remanescente da campanha de 1989

Claudio André Taffarel é o único brasileiro que participou em 1989 e estará de novo no torneio deste ano. Então com 24 anos, o goleiro do Inter ganhou chance de ser titular na campanha do título há 30 anos e atualmente trabalha como preparador de goleiros da seleção brasileira. Os pupilos atuais são Alisson, Éderson e Cássio.

Taffarel tem cinco Copas Américas no currículo (1989, 1991, 1993, 1995 e 1997), com dois títulos. Depois de 1989, o goleiro seria campeão em 1997, na Bolívia. No Uruguai, em 1995, a taça escapou nos pênaltis, após empate por 1 a 1 no tempo normal da decisão contra os donos da casa. Como preparador de goleiros, ele integrou a comissão técnica do Brasil nas edições de 2015 e 2016.

"Estou passando para os atletas o valor da Copa América. O jogador tem que sentir que essa chance é muito positiva. É uma oportunidade única. Tem que se concentrar nesse momento. Temos que ganhar", comentou Taffarel. O ex-goleiro participou de 26 partidas de Copa América na carreira. "Jogar no Brasil com a torcida a nosso favor nos deixa mais fortes ainda. Que a gente faça sempre por merecer ter o torcedor do nosso lado a todo o tempo", completou.

Entre a Copa América de 1989 e a de 2019 um outro nome se repete. O técnico uruguaio Óscar Tabárez dirigiu a seleção no Brasil há 30 anos e estará novamente no torneio. O experiente treinador voltou ao comando da equipe em 2006 e deste então ganhou mais uma edição da Copa América, em 2011, na Argentina.

Outra coincidência entre as edições recentes do torneio envolve o Paraguai. Há 30 anos, a equipe tinha como goleiro Roberto Fernández. Desta vez, é o filho dele quem vai disputar a competição. Gatito Fernández também é goleiro, atua no Botafogo, e está entre os 23 convocados da equipe.

Campeão do mundo, Maradona era a grande estrela da Copa América

A Copa América de 1989 foi a oportunidade para os torcedores verem de perto os principais craques do futebol sul-americano. Depois do Pan-Americano de 1963, em São Paulo, o torneio continental encerrou um jejum de mais de 20 anos do Brasil sem receber grandes eventos e nomes revelantes, como Diego Maradona, o grande astro daquele momento.

Então com 28 anos, o argentino estava na Napoli e vinha das glórias vividas na última Copa do Mundo, em 1986, quando foi campeão e principal destaque da competição. O jogador se apresentou à seleção de última hora e mexeu bastante com a torcida de Goiânia, onde a equipe passou cerca de duas semanas e disputou as quatro primeiras partidas da competição.

Os treinos da Argentina eram no CT do Goiás, sempre abertos ao público. A torcida presente vibrava com a presença de Maradona e as participações dele nas atividades, em especial com os gols. Ao fim das atividades o público goiano costumava entrar no gramado para pedir fotos e autógrafos. O camisa 10 costumava ser bastante atencioso, inclusive atendia torcedores na recepção do hotel.

O único momento mais tenso de Maradona foi em um desentendimento com um jornalista. O argentino estava irritado ao ser filmado e quase agrediu um cinegrafista. Mas tanto o camisa 10 como outros grandes nomes daquela época, como Caniggia, Ruggeri e Pumpido foram bem recebido pelos brasileiros.

A reclamação principal vinda dos jogadores recaía sobre os gramados. Campos mal cuidados e no caso de Salvador, com muita lama, receberam críticas. Os jogos de outras seleções não empolgaram tanto a torcida brasileira, exceto na fase final. Em Goiânia, os preços dos ingressos variavam entre cerca de R$ 18 a R$ 120, para partidas com rodada dupla. 

Além dos argentinos, a competição recebeu grandes nomes da época como os uruguaios Francescoli, Ruben Sosa e Hugo de León, mais os colombianos Higuita e Valderrama e o goleiro chileno Roberto Rojas (titular do São Paulo). Alguns futuros jogadores famosos eram ainda garotos quando estiveram naquela Copa América, como o caso do equatoriano Aguinaga, então com 20 anos, e o boliviano Etcheverry, de 18 anos.

Pepe reconstruiu seleção peruana após acidente aéreo

O ex-atacante Pepe assumiu um grande desafio em 1989. Pouco tempo depois de ter sido campeão brasileiro em 1986 pelo São Paulo como técnico, o ídolo do Santos recebeu um convite inesperado. A Federação Peruana de Futebol o chamou para dirigir o time na Copa América, um trabalho árduo. Em dezembro de 1987 parte do elenco morreu em uma tragédia.

O time do Alianza Lima era líder do Campeonato Peruano e na volta de um jogo, sofreu um acidente. O avião caiu no mar pouco antes da chegada. Toda a comissão técnica e os 16 atletas a bordo morreram. Uma das vítimas foi o goleiro José González Ganoza, que era tio do atacante Paolo Guerrero, destaque do Inter e craque da atual seleção peruana.

"O trabalho com a seleção peruana foi muito difícil. Tínhamos poucos jogadores para escolher, até porque o Alianza Lima formava grande parte do nosso grupo. Tivemos de fazer algumas peneiras pelo Peru para encontrar jogadores para a seleção", relembrou Pepe. O técnico viajou pelo interior do país para observar de perto alguns atletas e encontrar opções.

Pepe relembra com orgulho ter dado oportunidade a alguns jovens e descoberto revelações nesse trabalho. O elenco embarcou ao Brasil sem grandes expectativas de resultados e na estreia, perdeu para o Paraguai por 5 a 2. Foi um susto. O temor era ser goleado novamente dois dias depois, no encontro com o Brasil, na Fonte Nova.

Diante da ira da torcida pela exclusão de Charles, o Peru conseguiu segurar os donos da casa no empate sem gols. O técnico Pepe se sentiu até incomodado por enfrentar o Brasil. "Era visível que a seleção em campo estava pressionada e ansiosa. Isso nos ajudou a segurar o empate. Mas para mim foi muito estranho depois de toda a minha carreira virar adversário do Brasil em um jogo dentro do Brasil", admitiu.

Depoimento de Quiñonez: 'A Copa América de 1989 mudou minha carreira'

Eu me lembro com muito carinho da Copa América de 1989. Aquele torneio mudou minha carreira. Eu era zagueiro do Barcelona (de Guaiaquil) e era convocado com regularidade para defender o Equador. Mas por ter jogado bem na Copa América, tive a honra de ser contratado pelo Vasco meses depois. Fui campeão brasileiro com o time. Ganhamos do São Paulo no Morumbi no fim de 1989.

Foi uma experiência muito interessante disputar o torneio. Eu me lembro que o Equador ficou em Goiânia. O público local foi muito alegre e nos recebeu bem. Começamos a Copa América com uma vitória contra o Uruguai. Quase ninguém esperava. Eu como zagueiro estava ansioso para enfrentar a Argentina logo depois, por ter de jogar contra o Maradona. Foi bem dificil.

Maradona era um jogador espetacular, muito difícil de ser marcado. Para mim foi um aprendizado poder jogar contra ele. Conseguimos segurar o empate por 0 a 0. Fiz um ótimo jogo, mostrei meu pontecial. Eu sou de um tempo em que o Equador não disputava Copas do Mundo e os jogadores atuavam sempre no próprio país. Por isso jogar a Copa América era uma oportunidade excelente.

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