Nilton Fukuda/ Estadão
Seleção japonesa tinha maioria dos jogadores com idade olímpica. Nilton Fukuda/ Estadão

Copa América do Brasil: primeira escala olímpica do futebol japonês

Torneio Sul-Americano marcou o início da preparação da seleção asiática para os Jogos de Tóquio; objetivo foi dar experiência aos jovens atletas

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 04h30

A Olimpíada de Tóquio começou na Copa América para a seleção japonesa masculina de futebol. Com o objetivo de formar uma equipe capaz de lutar por medalha nos Jogos que irá sediar no ano que vem, de preferência a de ouro, a federação do país e o técnico Hajime Moriyasu decidiram aproveitar o torneio sul-americano para dar experiência e aprendizado aos jogadores. Por isso, o grupo do Japão que se despediu da competição no empate por 1 a 1 com o Equador, no Mineirão, tinha 18 dos 23 jogadores em idade olímpica. E vários deles estão começando a defender agora a seleção principal.

"A Copa América tem um nível muito parecido com o da Copa do Mundo. Os jogadores, que ainda têm experiência limitada, tiveram boa oportunidade de aprender aqui (no Brasil). A ideia é que tenham um espírito desafiador para que a experiência sirva como base para uma ascensão maior", disse Moriyasu, de 50 anos, técnico da equipe olímpica do Japão desde 2017 e que no ano passado assumiu também a seleção principal.

Dos 18 jogadores com idade olímpica (até 23 anos completados em 2020) que ele convocou, apenas um, o volante Tomiyasu, de 20 anos, tinha alguma experiência com a seleção principal antes do início da preparação para a Copa América. O meia Kubo, 18 anos e grande revelação do futebol japonês, estreou em recente amistoso contra El Salvador. A média de idade da equipe, 22,3 anos, era a mais baixa da Copa América. 

No entanto, até algum tempo atrás Moriyasu relutava em fazer o torneio de laboratório. Sua ideia inicial era trazer um elenco "cascudo", que pudesse fazer boa campanha. Vários fatores o fizeram mudar o foco.

Para começar, os próprios dirigentes japoneses sempre viram com bons olhos o desenvolvimento da garotada olímpica. Outro fator que conspirou favoravelmente foi a negativa de clubes europeus em liberar seus atletas nipônicos para participar da Copa América, apesar de o futebol no Velho Continente estar em recesso. Como o Japão participou como convidado, não havia esta obrigação. Além disso, muitos já haviam sido liberados no início do ano para a disputa da Copa da Ásia - o Japão foi vice ao perder a decisão para o Catar.

Porém, a renovação radical e a pouca "rodagem" internacional da garotada, apesar de 9 dos 23 que vieram ao Brasil terem contratos com clubes da Europa, cobrou seu preço. Na estreia contra o Chile, por exemplo, o time japonês até conseguiu jogar de igual para igual nos 30 primeiro minutos, mas depois foi amplamente dominado e perdeu por 4 a 0. 

FOCO

A derrota chateou, mas não abateu os japoneses, que procuram olhar adiante. O goleiro Osako, de 19 anos, refletiu a mentalidade adotada pelos asiáticos para a disputa do torneio. "O Japão tentou o máximo possível e quase marcou um ou dois gols. Tivemos grande chance disso. Se tivéssemos marcado, o jogo mudaria. Então, quando se vê o resultado como o 4 a 0 para o Chile, a impressão é que não fomos competitivos. Mas, na minha análise, o Japão fez um bom trabalho e mostrou estar no caminho certo para o próximo ano", disse ao Estado.

O próximo ano, ou seja, a Olimpíada de Tóquio, é o que de fato interessa. "A experiência de jogar na Copa América é muito importante para saber o nível em que o Japão está", acrescenta Osako. "Estamos caminhando passo a passo. É muito importante a Copa América para nós. A gente jogou contra times muito bons, com bons jogadores, e isso vai servir para nos ajudar na preparação para os Jogos Olímpicos", enfatiza o meio-campista Teruki Hara, de 20 anos.

O técnico Moriyasu não veio ao Brasil pensando alto, mas nem por isso deixa de exigir que seus jogadores persigam bons resultados. Por isso, na partida contra o Uruguai escalou um time mais experiente, com alguns veteranos. O time jogou bem e só não foi além do empate por 2 a 2 final por causa de equívocos de arbitragem. Outro ponto foi ganho na despedida de segunda-feira contra o Equador.

"Não pode ser só um aprendizado. Quero que eles busquem sempre a vitória e uma vaga na seleção principal. Sou o técnico do time olímpico e, dentro desse conceito, temos de buscar a vitória e correr atrás para que esses jovens tenham experiência. Precisamos ter sempre o mesmo espírito que se tem numa Copa do Mundo."

Além do grupo que esteve na Copa América, o Japão tem outra "ninhada" de jogadores jovens, da qual deverão sair alguns para os Jogos de Tóquio. Fizeram parte da equipe vice-campeã no Torneio de Toulon. Perdeu a taça, nos pênaltis, para o Brasil.

O Japão tem apenas uma medalha olímpica no futebol masculino. É o bronze conquistado nos Jogos de 1968, na Cidade do México, com vitória sobre os anfitriões na disputa do terceiro lugar. Em Londres/2012, os japoneses chegaram perto, mas saíram da Inglaterra com gosto bem amargo, pois perderam o bronze para a arquirrival Coreia do Sul.

 

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Contratado pelo Real, promessa rejeita o apelido de 'Messi Japonês'

Kubo, de 18 anos, atuará na próxima temporada no clube de Madri e não gosta de ser comparado ao craque do Barcelona

João Prata, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 04h30

Takefusa Kubo, 18 anos, é a principal promessa do futebol japonês. É um jogador que tem no currículo passagem pelas categorias de base do Barcelona e está de malas prontas para voltar à Espanha, mas desta vez para atuar pelo Real Madrid - há duas semanas foi contratado para atuar pelo time B espanhol.

Durante a participação do Japão na Copa América, Kubo foi o jogador do seu país mais difícil de tentar conversar na zona mista. Os jornalistas se dividiam, praticamente, em dois grupos para ouvi-lo. Primeiro, ele falava em espanhol fluente com os sul-americanos. "Só penso na Copa América agora. Quando acabar, começarei a pensar no Real Madrid", costumava dizer durante a competição.

As declarações, de uma maneira geral, eram curtas.  O que ele mais teve de responder foi sobre o apelido ‘Messi Japonês’. "Não gosto que me comparem com um jogador tão grande como ele". 

O apelido surgiu nos tempos em que estava no Barcelona. Se olhar para a qualidade do futebol, todos concordam com o garoto japonês, de que não deve haver essa comparação. Mas Kubo tem de fato características semelhantes às do astro da Argentina. Ambos atuaram na base do Barcelona, os dois são canhotos, beiram o 1,70m de altura e têm como principais armas a habilidade e a velocidade.

Com os jornalistas japoneses, ele conversa por mais tempo, e em um tom mais baixo. É uma outra realidade para a imprensa brasileira que costuma tentar ser escutado no grito pelo entrevistado. Cada repórter faz sua pergunta tranquilamente. Kubo, parado, atende a todos.

"Sei que falam muito de mim. Mas não posso ficar me preocupando com isso. Sou só mais um jogador. Jogamos com 11 e não com um", disse o garoto que veste a camisa 21 do Japão. 

Kubo nasceu em Kawasaki, a 25 quilômetros de Tóquio, e começou a jogar bola aos sete anos. Por ser melhor do que os demais, em 2011, recebeu o convite para conhecer o centro de formação dos jogadores do Barcelona e por lá ficou durante três anos. Ele só não fez o primeiro contrato como profissional no clube catalão, com 16 anos, pois não tinha cidadania europeia - no período, o Barcelona foi punido por contratos irregulares com garotos da base. Kubo então acertou com o Tokyo e disputou o Mundial Sub-20 pelo Japão com apenas 15 anos. 

“É o jogador japonês mais promissor da história. Por ter atuado no Barcelona, tem características diferentes dos outros japoneses”, disse Mika Ono, correspondente no Brasil do jornal Sports Nippon. “Como é canhoto e começou no Barcelona teve o apelido”, prosseguiu a jornalista.

O repórter Wataro Funaki, do site Football Channel, discorda da comparação. “Não acho certo. O Messi é mais atacante. O Kubo, meia”, disse. O jornalista também acredita que a promessa japonesa vai demorar para se adaptar ao Real. “Lá a intensidade é muito alta e no Japão o estilo de jogo é mais cadenciado”, analisou. “Mas ele é jovem e no futuro terá chance no time principal do Real Madrid”, encerrou.

SALDO FINAL

Na Copa América, Kubo foi titular na estreia do Japão na derrota para o Chile por 4 a 0. Na segunda rodada, no empate por 2 a 2 com o Uruguai, começou na reserva e entrou no segundo tempo. O jovem de 18 voltou a começar a partida na igualdade por 1 a 1 com o Equador, resultado que eliminou a seleção japonesa da competição. 

O garoto voltou na noite de terça-feira com a delegação japonesa para Tóquio. De lá deverá seguir para a Espanha e se apresentar ao Real Madrid. Na Copa América, ficará a torcida para "Uruguai ou Chile, um dos que estavam no nosso grupo", disse.

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