Arquivo Estadão| Reprodução
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Copa América faz 100 anos após brigas, tabus e decreto contra craque

Campeonato Sul-Americano foi disputado pela primeira vez em 1916 e é o torneio de seleções mais antigo do mundo

Rafael Pezzo, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2016 | 12h11

Os Estados Unidos sediarão, a partir desta sexta-feira, a Copa América Centenário, edição especial organizada para celebrar os 100 anos do torneio. Apesar de comemorar o aniversário de um campeonato sul-americano, esta será a primeira vez que o torneio acontecerá fora do continente. 

A Copa América é a competição de seleções mais antiga do mundo, sendo disputada pela primeira vez em 1916, na Argentina, ainda com nome de Campeonato Sul-Americano de Seleções. Semelhante à taça deste ano, a edição de estreia homenageou outro centenário, o da independência argentina. 

Após uma disputa de todos contra todos com as seleções da Argentina, Brasil e Chile, o Uruguai conquistou a primeira edição oficial do campeonato. Desta vez em casa, os uruguaios foram bicampeões em 1917, precedendo a primeira supremacia no futebol mundial, já que a "Celeste" também ganharia os Jogos Olímpicos em 1924 e 1928 e a Copa do Mundo em 1930. 

PRIMEIROS TÍTULOS DO BRASIL

O terceiro Campeonato Sul-Americano seria realizado no Brasil, em 1918. No entanto, uma epidemia de gripe espanhola no País adiou a competição para o ano seguinte. Pela primeira vez o torneio contou uma final, disputada depois de outra fase de confrontos entre todos os participantes. 

Em 29 de maio de 1919, o Brasil levantou a primeira taça ao bater os uruguaios por 1 a 0, placar confirmado somente na quarta prorrogação. O gol do título foi anotado pelo primeiro ídolo do futebol brasileiro, Arthur Friedenreich. O atacante foi impedido de atuar nas ediçãoes de 1920 e 1921 devido a um decreto do presidente Epitácio Pessoa, que proibia a participação de negros na modalidade. Sem o craque, a seleção brasileira fez seis jogos, perdeu quatro e ganhou somente dois. 

Com Friedenreich de volta, o Brasil foi mais uma vez anfitrião e campeão em 1922. A novidade deste torneio foi a participação de cinco seleções. O Paraguai, que estreara em 1921 como substituto do Chile, chegou à final contra a seleção brasileira, e foi derrotado por 3 a 0.  

O Peru foi o primeiro país além dos quatro fundadores a sediar o Campeonato Sul-Americano, em 1927; e também o primeiro a quebrar a dinastia do quarteto nos títulos, com a conquista de 1939. 

Disputado anualmente na década de 1920, o troféu sofreu uma pausa entre 1930 e 1935. Junto da criação da Copa do Mundo, divergências políticas entre uruguaios e argentinos causaram o hiato. O único tricampeonato registrado até hoje pertence à Argentina, realizado entre 1945 e 1947. 

FINALMENTE, O TRI

O Brasil conquistou seu terceiro título continental em 1949, quando voltou a sediar a competição, vista como um evento-teste para a Copa do Mundo de 1950. Em oito partidas, a seleção venceu sete e perdeu apenas na última rodada, por 2 a 1 para o Paraguai, o que forçou um jogo extra. Na finalíssima em São Januário, Brasil 7 a 0. 

Em 1959 houve dois torneios, o primeiro sediado e conquistado pela Argentina e o segundo, no Equador, marcou a décima vitória uruguaia. Planejado para ocorrer de quatro em quatro anos, somente duas edições foram realizadas na década de 1960, com os anfitriões levantando o caneco em ambas: Bolívia em 1963 e Uruguai em 1967. 

OFICIALMENTE COPA AMÉRICA

O Campeonato Sul-Americano de Seleções trocou de nome em 1975, se tornando a atual Copa América. Além do nome, a fase de grupos também estreou neste ano. Outra novidade foi ausência do país-sede, uma vez que as partidas foram realizadas por todo o continente, assim como em 1979 e 1983. 

Desde o título de 1949, o Brasil se sagrou tricampeão mundial (1958, 1962 e 1970), revelou alguns dos melhores jogadores da história e sofreu com as eliminações nas Copas de 1982 e 1986; porém não voltou a vencer na América do Sul. Por incrível que pareça, Pelé, o maior de todos os tempos, nunca foi campeão continental. Aliás, só foi artilheiro do torneio uma vez, no vice de 1959.

O jejum brasileiro durou 40 anos e terminou apenas quando novamente recebeu a competição, em 1989. Depois de uma primeira fase tranquila, o time de Sebastião Lazaroni bateu Argentina, Uruguai e Paraguai no quadrangular final. O gol do título foi marcado por Romário no início do segundo tempo contra a "Celeste", para mais de 132 mil pagantes no Maracanã. 

Ainda com a geração vice do mundial de 1990, na Itália, o técnico Alfio Basile comandou o bicampeonato da "Albiceleste" em 1991 e 1993. Estes são até hoje os dois últimos títulos da seleção principal argentina. Essa geração, que sofreu com a expulsão de Diego Maradona por doping da Copa do Mundo de 1994, é considerada  última grande seleção do país. 

A primeira vez que o Brasil foi campeão sul-americano fora do território nacional foi em 1997, na Bolívia. Além do fim de mais um tabu, esta Copa América ficou marcada por duas frases marcantes. A primeira foi publicada por um jornal mexicano, depois da derrota de virada por 3 a 2 para o Brasil: "Jogamos como nunca. Perdemos como sempre." A segunda foi gritada pelo técnico Zagallo após a final diante dos bolivianos: "Vocês vão ter que me engolir!". 

BRASIL CORRE ATRÁS E CHILE SE CONSAGRA

Se nos primeiros 72 anos da competição o Brasil venceu somente três troféus (1919, 1922 e 1949), nos 27 seguintes foram cinco títulos (1989, 1997, 1999, 2004 e 2007). Atual comandante da seleção brasileira, Dunga já possui três conquistas, sendo duas como jogador (1989 e 1997) e uma como técnico (2007). A Copa América no Chile, em 2015, foi a primeira em que ele não foi finalista. 

A edição de 2004, no Peru, retomou a série de um campeonato a cada quatro anos (2007, 2011 e 2015). Na última disputa, o Chile recebeu as seleções sul-americanas pela sétima vez. Com jogadores protagonistas nas principais ligas do mundo, os torcedores locais estavam otimistas em relação à conquista do primeiro título da história do país. A expectativa foi aumentando à medida que "La Roja" foi avançando de fase. Nas quartas de final passou pelo Uruguai e nas semifinais, pelo Peru. A decisão, em 4 de julho, foi diante da Argentina de Lionel Messi, Gonzalo Higuaín e Angel di María. Depois do empate por 0 a 0, a vitória nos pênaltis por 4 a 1 deu ao Chile de Jorge Valdivia, Alexis Sanchez e Eduardo Vargas sua primeira taça no futebol.

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