Tommy Gilligan/USA Today
Tommy Gilligan/USA Today

COPA AMÉRICA TERÁ 'INVASÃO' DE TÉCNICOS ARGENTINOS

Metade das 12 seleções serão comandadas por profissionais do país vizinho

ALMIR LEITE, O ESTADO DE S.PAULO

26 Março 2015 | 07h00

A Copa América será mais uma oportunidade de constatar a valorização dos treinadores argentinos. Detentores de bom conceito no cenário internacional do futebol, bem aceitos e em alguns casos até mesmo cobiçados na Europa, eles também estão com moral alta no continente. Na competição que vai ser disputada no Chile de 11 de junho a 4 de julho, nada menos que seis das 12 seleções deverão ser comandadas por um argentino, um impressionante índice de 50%.

Além da Argentina, o anfitrião Chile, Colômbia, Paraguai, Peru e Equador terão técnicos do país vizinho. Alguns já estão há algum tempo no comando de suas seleções, casos de Jorge Sampaoli e José Pekerman, que desde 2012 estão a serviço de chilenos e colombianos, respectivamente.

Outros estão começando agora o trabalho e vão estrear entre esta quinta-feira e a próxima terça-feira. Ramón Diáz, por exemplo, faz nesta noite sua primeira partida pelo Paraguai, no amistoso contra a Costa Rica. No sábado, Gustavo Quinteros dirigirá o Equador num confronto contra o México, em território norte-americano. E na terça-feira será a vez de Ricardo Gareca "debutar''  no Peru, também jogando nos EUA, mas contra a Venezuela.

Mas o que leva seleções de outros países a recorrerem a treinadores argentinos (algo que, na América do Sul, não é de hoje)? Os dirigentes listam vários motivos, que vão do fato de o idioma ser o mesmo, o espanhol, à falta de profissionais competentes e experientes em seus países, passando pelos salários - considerados razoáveis para um estrangeiros.

Mas o argumento mais forte, apontam, é que o técnico argentino é bem preparado. Tem grande apreço para disciplina tática, procuram sempre se reciclar e são incansáveis na tarefa de dar padrão ao time.

Foi isso que levou o presidente da Associação Paraguaia de Futebol, Juan Angel Napout, também presidente da Conmebol, a contratar Ramon Diáz. Depois da péssima campanha da seleção do país nas Eliminatórias para a Copa de 2014 - a equipe sempre esteve longe da vaga - ele espera que o argentino possa levar o Paraguai não só a fazer boa campanha na Copa América como conquistar uma vaga no Mundial da Rússia.

"Ramon é experiente, conhece o futebol e vai fazer um bem para o Paraguai'', disse Napout. Mas ele também precisou pedir apoio ao treinador, aos torcedores e à imprensa. O ex-goleiro Chilavert, atual comentarista esportivo, é um dos mais críticos à contratação de Diáz. "Ele não tem a qualidade que uma seleção como a nossa precisa'', argumenta.

Diáz garante saber o que fazer para em pouco tempo cair nas graças de torcedores e jornalistas. "Quero que os jogadores entendam minha mentalidade, minha forma de ver futebol e a responsabilidade que representa defender as cores de seu país.''

Situação mais tranquila tem Gustavo Quinteros no Equador. Isso porque ele fez longo trabalho no Emelec, clube que acaba de deixar para assumir a seleção, foi eleito o melhor treinador do país nos últimos dois anos e, por isso, não enfrenta resistência. Sem contar que nos últimos meses por várias vezes afirmou que treinar a equipe nacional fazia parte de seus planos. "É um grande prazer. Estou adaptado ao futebol equatoriano e creio que poderei fazer bom trabalho.''

O problema é que ele terá pouco tempo para montar o time para a Copa América e, assim, já planeja uma preparação melhor para as Eliminatórias, a partir do segundo semestre deste ano. Desafio semelhante vive Ricardo Gareca, que foi contratado em fevereiro pela seleção peruana e estreia na próxima terça-feira em amistoso contra a Venezuela.

O ex-treinador do Palmeiras chegou falando grosso a Lima. "Quero o Peru protagonista em todos os jogos e competições de que participe. Acho que há bons jogadores, capazes de levar a seleção a uma boa condição. Assumir a condução da seleção peruana e levá-la à Copa do Mundo de 2018, na Rússia, é o desafio mais importante da minha vida."  O Peru será o adversário da seleção brasileira na estreia da Copa América, dia 14 de junho, em Temuco.

AMBIÇÃO

Enquanto três compatriotas seus começam um trabalho, Jorge Sampaoli entende que a Copa América pode ser o ato final - e vitorioso - de uma reformulação na seleção chilena que ele começou em 2012. Ele sinaliza que pode sair, e quer sair com um título. "Penso em terminar este processo com o tema da Copa América. Fazer com que este grupo se consolide, tratar de ter a possibilidade de conquistar algo", disse.

O argentino diz que a geração de jogadores do Chile é "excelente'', mas precisa, e merece, conquistar um título. "Eles necessitam de uma alegria, um triunfo, e devemos aproveitar esta geração de jogadores tão combativos para lhes dar a possibilidade de conquistar uma Copa América, que nunca ganharam. O Peru já ganhou; Bolívia e Chile, ainda não. Este é um desafio que temos.''

Gerardo Martino pensa a mesma coisa em relação à Argentina. A geração de Messi chegou perto do objetivo na Copa do Mundo, e agora tem nova oportunidade. "O time está mais maduro e motivado. Temos um longo caminho, mas é possível fazê-lo vitorioso.''

'PRATAS DA CASA'

Cinco outras seleções optaram por "treinadores nativos'' para a disputa da Copa América: o Brasil de Dunga, o México de Miguel Herrera, a Venezuela de Noel Sanvicente, a Bolívia de Mauricio Soria, além do Uruguai, atual campeão e que tentará o bi com Oscar Tabárez. A Jamaica, que disputará a competição como convidada, tem um técnico estrangeiro, mas que veio de longe: o alemão Winfried Schafer.

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Técnicos vizinhos não conseguem emplacar no futebol brasileiro

As poucas experiências recentes com argentinos fracassaram

ALMIR LEITE, O Estado de S.Paulo

26 Março 2015 | 07h00

O bom conceito que os técnicos argentinos têm no futebol mundial, comprovado também pelo fato de muitos deles fazerem sucesso em equipes da Europa, não se aplica ao futebol brasileiro. São raras as vezes em que um clube do Brasil se interessa por um treinador do país vizinho. Quando isso acontece, dificilmente chega-se a um acordo. E quando um argentino é contratado para comandar um time brasileiro, invariavelmente não dá certo.

O caso mais recente envolveu Ricardo Gareca e o Palmeiras. Na temporada passada, o treinador foi uma aposta do presidente Paulo Nobre para tentar levar a equipe a uma posição ao menos razoável no Campeonato Brasileiro. Com um elenco fraco e uma confessa dificuldade de adaptação ao futebol brasileiro ­- após uma derrota para o Corinthians no Itaquerão, por exemplo, admitiu ter se assustado com as cobranças e até com quantidade de jornalistas que acompanham diariamente o clube, bem menor do que estava acostumado quando trabalhava no Vélez Sarsfield -, não durou nem três meses.

Gareca foi demitido após apenas 13 partidas, nas quais o Palmeiras obteve apenas quatro vitórias, um empate e foi derrotado oito vezes. E corria grande risco de rebaixamento no Brasileiro.

Ele não conseguiu nem esquentar o lugar, vítima que foi dos resultados (ou dá falta deles). "O Gareca é um excelente técnico, vitorioso na Argentina. Infelizmente o resultado não chegou a tempo. A longo prazo, o Gareca daria certo aqui. Mas mudar depois poderia ser tarde'', justificou Paulo Nobre.

Curiosamente, Gareca não teve tempo num clube que, ao longo de sua história havia sido treinado por cinco argentinos, o mais conhecido deles Nelson Filpo Nuñez, que passou pelo clube em três ocasiões, inclusive na época da Academia, fez sucesso, conquistou títulos e até hoje é lembrado. "El Bandoneón'' dirigiu o time em 154 ocasiões, com 94 vitórias, 27 empates e 33 derrotas.

Filpo Nunez teve vez no passado. Uma época em que outros argentinos também puderam ter situação estável no comando de clubes brasileiro. Foi o caso de Armando Renganeschi, que treinou o São Paulo em 1958 e de 1965 a 1967 esteve no Flamengo, e de Jim Lopes, que na década de 50 do século passado trabalhou no Palmeiras, Portuguesa, Juventus, São Paulo e Corinthians.

Antes de Gareca, duas outras experiências, nem tão recentes, deram em nada. Daniel Passarela teve uma meteórica passagem pelo Corinthians em 2005. Em 1985, Omar Pastoriza treinou Grêmio e Fluminense. No Sul ainda trabalhou por alguns meses, mas no Rio praticamente não desfez as malas. Ficou menos de um mês.

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