Copa coincide com o Ramadã, e seleções discutem como manter jejum de jogadores

Pelas regras do Corão, muçulmanos devem evitar comer e tomar água quando o sol estiver presente. Pelo menos seis dos 32 times no Mundial são compostos, em sua maioria, por jogadores islâmicos

Jamil Chade - Enviado especial ao Rio, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2014 | 15h56

Pela primeira vez em 28 anos, a Copa do Mundo coincide com o período do Ramadã e vai obrigar jogadores, treinadores e torcedores muçulmanos a tomar decisões sobre como vão cumprir as regras religiosas durante o torneio em um país tropical. No próximo sábado, começa o período do ano considerado como um dos principais momentos no calendário do Islã. Pelas regras do Corão, todo muçulmano precisa evitar comer e tomar água enquanto o sol estiver presente. No caso do Brasil, isso significaria em média 13 horas sem se alimentar. 

Na Copa de 1986, apenas três seleções tinham em seu grupo uma maioria muçulmana. Mas, agora, pelo menos seis dos 32 times são compostos em sua grande maioria por jogadores islâmicos e aqueles que passarem para as oitavas de final certamente se confrontarão com essa realidade. 

Bosnia-Herzegovina, Argélia, Irã, Costa do Marfim, Nigéria e Camarões são os principais afetados. Mas vários jogadores nas seleções da Alemanha, França ou Suíça também passarão por um dilema. Karim Benzema, um dos astros até agora da Copa, Bacary Sagna, Mamadou Sakho, Sissoko e outros da seleção da França são muçulmanos. 

Os alemães Mesut Ozil e Sami Khedira também, além dos irmãos da Costa do Marfim, Yaya e Kolo Toure, e vários outros estariam nesta situação. Do time da Bélgica já classificado para oitavas de final poderiam ser afetados os jogadores Mousa Dembélé e Marouane Fellaini. 

Jiri Dvorak, chefe do departamento médico da Fifa, admite que a entidade tem discutido o assunto. "Mas fizemos estudos e a conclusão é de que, se o período do Ramadã for realizado de forma adequada, ele não afeta a capacidade dos jogadores", indicou. Isso implica não compensar a falta de alimentos durante o dia com jantares pesados ou consumo excessivo de água.  Segundo Dvorak, religiosos consultados pela Fifa garantem que os jogadores teriam o direito de adiar o período do jejum e compensar o mês não cumprido em outro período do ano. "Isso é algo que a religião permite", garantiu. 

Em 1982, o técnico Carlos Alberto Parreira comandou o Kuwait na Copa da Espanha. Seus jogadores, porém, insistiram em manter o jejum no Ramadã durante o torneio. A seleção acabou perdendo dois dos três jogos que disputou. Mas naquele momento ninguém condenou a prática do jejum como motivo para o resultado.    

No caso da Copa no Brasil, os jogadores estão divididos. "Jejum? Vocês já viram a temperatura que faz no Brasil? Morreríamos se fizéssemos isso", declarou Toure. Entre os iranianos, a orientação é a de manter o Ramadã, se conseguissem passar para as oitavas de final. "Os nossos jogadores estão acostumados com essa posição e a relação entre o esporte e a religião", declarou há poucos dias Carlos Queiroz, técnico português que comanda o time iraniano. Em 2010, o melhor jogador da Ásia naquele ano, Ali Karimi, foi demitido de seu time em Teerã por não ter seguido o Ramadã. 

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