Felipe Trueba/EFE
Felipe Trueba/EFE

Copa de 2022 planta algumas árvores e prepara-se para os refletores

Nos próximos quatro anos país chamará toda a atenção da comunidade global do futebol

NYT, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2018 | 07h00

Nas estradas aqui é difícil a recepção do GPS. Quando você dirige na cidade ele o leva por caminhos inúteis. A voz do robô começa a se contradizer. É assim o Catar há mais de duas décadas, desde que o boom do gás transformou a sorte do país. Ele ficou mais denso, mais alto e cada vez mais irreconhecível (para humanos e máquinas) de um dia para o outro. Mas nos últimos anos esse processo acelerou a uma velocidade vertiginosa à medida que o país se prepara para hospedar a próxima Copa do Mundo.

+ Sob investigação, Copa do Mundo no Catar será definida por política

+ Conmebol divulga vídeo e revela logo da Copa América de 2019, no Brasil

Com a Copa do Mundo da Rússia chegando ao fim, será a vez do Catar. Nos próximos quatro anos este país chamará toda a atenção da comunidade global do futebol. E em 2022 esta nação de 2,6 milhões de pessoas abrirá suas portas para um número esperado de 1,5 milhão de visitantes.

Assim, surgem as perguntas: até que ponto mais esse país vai se transformar? Até que ponto sua sociedade estará inclinada a hospedar convidados com a expectativa no tocante à maneira como a Copa do Mundo será vista e sentida? Como o país resolverá os problemas – entre eles os ligados aos direitos humanos – que têm prejudicado o projeto diante das críticas externas e dúvidas que surgiram desde que o Catar conquistou o direito de hospedar o campeonato mundial há oito anos?

Alguns problemas foram sanados. Outros não. E alguns talvez nunca sejam.

Enquanto isso o Catar continua crescendo, com seus arranha-céus, shopping-centers e estádios brilhantes. Quilômetros de estradas e novas linhas de transporte público surgem. Centenas de milhares de trabalhadores importados se estabelecem ali. Árvores e gramados florescem – no deserto.

“A cada dia alguma coisa muda”, disse Mohamed Ahmed, administrador do Khalifa International Stadium.

“Há dois anos isto era um deserto”, disse Yasser Al-Mulla, apontando para uma vasta extensão de grama e árvores, durante uma visita em maio, “eu tinha de usar um jipe para ir ao escritório”.

Agora ele dirige seu Jaguar para trabalhar. Mulla administra o viveiro de plantas que vem produzindo a grama e plantando as árvores que irão decorar os estádios, campos de treinamento e praças públicas daqui a quatro anos. Sua equipe cultiva campos de grama no deserto. O grupo também já reuniu 10.000 árvores do país e do exterior, alimentando-as em barracas à sombra.

Do outro lado da cidade, outro grupo vem fazendo experiências com 12 espécies de grama para preparar o gramado perfeito para os estádios. Eles combinam luz, solo, água etc. e fazem rolar bolas de futebol em espaços preparados para avaliar os resultados.

Os organizadores prometeram à Fifa que os estádios estarão a uma temperatura de 22 graus Celsius durante os jogos, e poderão baixar ainda mais, para 17. O torneio foi marcado pela Fifa para iniciar no começo de novembro, quando a temperatura externa está em cerca de 26 graus Celsius, para escapar do calor brutal durante as datas tradicionais de realização da Copa, em geral no verão.

Quase dois milhões de trabalhadores estrangeiros estão no país e a vida que levam tem sido objeto de um intenso escrutínio desde que o país conseguiu os direitos de hospedar o torneio. Eles estão por toda parte, incluindo o estádio Al Wakrah, onde 600 veículos estavam circulando pelo terreno numa tarde recente e quatro mil operários imigrantes com roupas fluorescentes circulavam pelo local sob um sol abrasador.

Inquietantes e às vezes chocantes, histórias ligadas ao problema da mão de obra continuam a surgir. Numa auditoria anual feita em fevereiro, por exemplo, a Impactt, que monitora o cumprimento das normas pelos organizadores, encontrou algumas pessoas trabalhando mais de 72 horas por semana em certas companhias e operários que vinham trabalhando por mais de 124 dias consecutivos.

Mas os críticos mais assíduos do Catar mudaram o tom, se bem que ligeiramente.

Em novembro, por exemplo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) revogou uma queixa formal que havia formulado em 2014 sobre o fato de o governo do país não proteger os direitos dos trabalhadores imigrantes. E ao mesmo tempo, o Qatar concordou em firmar um acordo de cooperação técnica com a OIT para reformular seu sistema trabalhista.

As medidas adotadas foram recebidas com otimismo e cautela. A agência da ONU delineou um projeto de três anos para resolver alguns problemas fundamentais: estabelecimento de um salário mínimo permanente; eliminação do sistema de vistos de saída que dificulta para os trabalhadores deixarem o país sem permissão do seu empregador; e a criação de um mercado de trabalho livre em que os trabalhadores não ficam presos a uma companhia. A parceria inclui também o treinamento de juízes, promotores, policiais e inspetores.

O Supreme Committee for Delivery & Legay, responsável pela supervisão do projeto de infraestrutura da Copa, no valor de US$ 200 bilhões, trabalha dentro de uma torre prateada similar a um tornado, cercada por outros arranha-céus de cores variados e formatos nada convencionais que juntos formam a caleidoscópica linha do horizonte de Doha.

Em uma entrevista do seu escritório com vista para o Golfo Pérsico, Nasser AL-Khater, secretário-geral adjunto do Comitê, disse que o grupo “está muito satisfeito”, com o avanço do trabalho e confiante de que tudo estará concluído dentro do prazo de dois anos antes do início da Copa. Ele disse que graves problemas relativos aos trabalhadores ainda permanecem, mas que o Catar está “anos-luz” à frente do ponto em que estava há cinco anos e “muito adiante dos seus vizinhos”.

Ele disse também que o boicote aéreo e marítimo liderado pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos envolvendo divergências políticas, levou o comitê a buscar outras cadeias de fornecimento de material de construção, como Índia, China e Turquia. Mas ele e outras autoridades envolvidas consideraram a experiência positiva, pois abriu os olhos do Comitê para “novas possibilidades”.

Entre as 2,6 milhões de pessoas que vivem no Catar, 300.000 mil são cidadãos catarianos. “Somos uma minoria em nosso país”, disse Khater. “De modo que temos experiência em lidar com uma grande população. E compreendemos que haverá pessoas, durante a Copa, que não estão habituadas com nossa cultura e não vão ficar aqui por tempo suficiente para compreender as normas do que é apropriado ou não. É nosso trabalho tentar esclarecer as pessoas sobre nossa cultura o máximo possível. E também nossa obrigação e responsabilidade fazer com que as pessoas aqui sejam as mais hospitaleiras possíveis”.

Jornalistas estrangeiros foram presos nos últimos anos por “difamarem” o Catar. E o país às vezes censura agências de notícias internacionais. No entanto, disse Khater, eles estão prontos para receber milhares de jornalistas, e muitos deles não focados no futebol.

“Nos últimos oito anos, posso afirmar com segurança, o país ficou mais acostumado às críticas. E posso dizer que em 2022 o país estará muito mais tolerante”.

Na Rússia, por exemplo, nos últimos dois meses as autoridades na maior parte ignoraram quando torcedores de outros países e moradores também faziam festas nas ruas, bebendo (o que é uma infração legal em muitos casos), cantando e dançando de madrugada.

A próxima Copa do Mundo com certeza não será assim, dizem as autoridades catarianas. Khater disse que “poderá considerar” a abertura de espaços designados para beber, e que o álcool será mais “restrito” do que em outras Copas. O que poderá ser difícil; a Copa do Mundo sempre domina o país que hospeda o torneio com sua própria energia e a enorme escala e diversidade das multidões pode fazer com que tentar moderar seu comportamento seja um desafio, o que os executivos do Catar envolvidos com a Copa aprenderam em primeira mão na Rússia.

Moscou, uma cidade de mais de 900 anos de existência, hospedou o jogo final da Copa. Lusail, a cidade que hospedará a final da Copa do Mundo daqui a quatro anos não existe realmente, ainda. Fica a 30 minutos de carro de Doha, num patchwork de torres no geral vazias, lado a lado, com novos edifícios surgindo rapidamente ao lado delas.

E as construções continuam também em lugares como West Bay, que ainda parece uma cidade fantasma. Gatos perambulam pelas ruas vazias. Nos prédios com as luzes acesas à noite um observador casual pode entra e ver o enorme vazio. Outras torres estão completamente no escuro.

E o Catar tem de crescer ainda mais para a Copa do Mundo. A Fifa exige que os países que hospedam o torneio tenham 125.000 quartos de hotel disponíveis. À época em que se candidatou o país possuía 30.000. Está agora construindo hotéis e também usará navios de cruzeiros e campings no deserto para complementar a demanda por leitos.

Especialistas dizem que a Copa do Mundo é um componente crucial de um plano não só para desenvolver o país fisicamente, mas também aumentar o reconhecimento do seu nome na esfera global.

Depois de oito anos de espera, o foco de atenção da Copa do Mundo, o microscópio, será o Catar sozinho, com tudo o que isto envolve.

Tradução de Terezinha Martino

 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Copa do Mundo Catar 2022 [futebol]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.