Catadora de ferro torce para que Brasil seja campeão do Mundial

Maria Mendes Sousa correu para casa com sua jumenta para tentar pegar o segundo tempo do jogo

Jorge Macedo, Especial para o Estado de S. Paulo

28 de junho de 2014 | 23h14

Enquanto a bola rolava em Minas Gerais para Brasil x Chile, não muito distante de lá estava Maria Mendes Sousa (57). Cabeleireira e cozinheira por profissão, hoje Maria tem como fonte de renda o trabalho como catadora de ferro na Estrutural, favela do Distrito Federal distante a dez quilômetros do centro da capital.

Esquecidos em barracos de madeira e à margem da urbanização, muitos dos catadores nunca ouviram falar dos famosos monumentos de Oscar Niemeyer espalhados pela cidade. A quem caminha pelo lugar, impressionam os enormes buracos nas ruas e avenidas, improvisadas em chão de terra batida. O cheiro forte que vem do lixão é traço marcante por toda a favela.

Em meio a essa realidade está Maria Sousa. Quando a bola começou a rolar no Mineirão, às 13h, ela caminhava cabisbaixa ao lado da filha Daniele Mendes (16) com uma melancia na cabeça. A fruta, segundo ela, serve para alimentar Joaninha, uma jumenta que ela comprou há pouco mais de um mês.

Com o chinelo marrom da cor do chão que pisa, ela se apressa em ir para a casa. Quando questionada sobre o porquê, ela é rápida na resposta: "Preciso dar de comer para a Joaninha e ir para casa tomar banho. Quero ver o segundo tempo do jogo do Brasil". Até minutos antes, a catadora circulava pela favela em busca de ferro, material que a sustenta junto com os três filhos.

"Faço isso porque quero ver uma cidade limpa e consigo algum dinheiro também. Quando o dia está muito bom consigo tirar até R$ 50", conta. Em média, Maria vive com renda de R$ 20 a R$ 30 por dia. Moradora da favela há três anos, ela pretende deixar o local para dar uma educação melhor para os filhos, em especial para Daniele, que está no primeiro ano do ensino médio e trabalha como atendente em Ceilândia, cidade próxima a favela.

Divorciada, a mulher passou por um drama pessoal há dois anos e meio quando enfrentou a separação do último companheiro. Segundo a filha Daniele, o padastro 'Pedrão' é usuário de drogas e maltratou muito a mãe. "Ele não aceitou o fim e tocou fogo no meu barraco. Perdi tudo que tinha, saí só com a roupa do corpo", relembra Maria. Agora na Estrutural, ela busca um recomeço de vida. Sem perder a esperança, ela se despede com um sorriso e diz: "A Copa é ótima para o Brasil, espero que possamos ser campeões e ter muita alegria."

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