Enquanto uns festejam, outros culpam FMI por derrota da Argentina

Praça San Martin é o palco da decepção argentina na Copa

ARIEL PALACIOS, Agência Estado

13 de julho de 2014 | 20h13

Dezenas de milhares de pessoas que haviam saído às ruas no início da tarde deste domingo para celebrar uma hipotética vitória da seleção argentina, entraram em estado de tristeza após o encerramento do jogo com placar negativo. Muitas delas empreenderam o retorno a seus lares na cidade de Buenos Aires e nos municípios da área metropolitana. No entanto, uma hora depois do fim da Copa, o clima havia mudado entre os torcedores que haviam permanecido no centro, com o surgimento de um crescente entusiasmo pela conquista do vice-campeonato. Com a virada do clima, torcedores que haviam voltado a suas casas retornaram ao centro para festejar.

Os torcedores concentraram-se ao redor do Obelisco, no cruzamento das avenidas Nueve de Julio e Corrientes para dar vivas aos integrantes da seleção, especialmente Lionel Messi e Javier Mascherano, além do goleiro Sergio Romero. Com frenesi, no meio da noite de frio, a multidão gritava "vamos Argentina!", enquanto agitava bandeiras como se a seleção tivesse vencido a Copa. Carros circulavam pela área buzinando, enquanto que os torcedores agitavam bandeiras argentinas. Pela segunda vez em 24 anos a seleção argentina chegava em uma final e perdia. Coincidentemente, para a mesma seleção alemã.

Em meio a esta reconfiguração da derrota, estimulada pela mídia, que insistia no caráter "heróico" dos jogadores argentinos, em diversos bairros portenhos os torcedores dispararam seus fogos de artifício, comprados para celebrar a vitória que não ocorreu. Em outros pontos da cidade ouviam-se barulhos isolados de cornetas.

No entanto, a análise sobre a reação variava de acordo com cada portenho. "Não devem ser alemães", ironizou ao Estado Gabriel Cejas, porteiro de um prédio no bairro da Recoleta. "Deve ser o pessoal que está com raiva e sopra essas cornetas para aliviar a dor", afirmou enquanto olhava centenas de pessoas passando pela avenida provenientes do centro portenho rumo a suas casas.

"Eu festejo o segundo lugar. Somos campeões morais. E ainda por cima, ficamos melhor classificados que o Brasil. Isso sim vale a pena!", disse em frenesi ao Estado José Carlos Zini, que após ter deixado o centro da cidade estava voltando às pressas para o Obelisco.

Diversos torcedores, além de conformar-se com o segundo posto na Copa, destacavam o sabor especial de ter chego longe em uma Copa no Brasil, um dos países que integram o trio dos rivais clássicos da Argentina, junto com a Inglaterra e o Uruguai. Estes torcedores continuavam cantando o "hit" argentino desta Copa, o "Brasileiro, me diga o que sente", cuja letra ufana-se de estar jogado no Brasil, junto com alusões sexuais.

Na retirada rumo a suas casas, os torcedores também embalavam o retorno com cânticos exultando – embora com cadência menos alegre - a seleção que havia ficado com o vice-campeonato.

"Isso parece um karma", afirmou ao Estado a dona de casa Estela Bossio, no bairro da Recoleta. "De novo os alemães. Não pode ser!. Eu queria uma final contra o Brasil. Deu tudo errado de novo". 

NO TRAVESSEIRO

Um dos torcedores que não se conformavam com a derrota era Arturo Colotti, que afirmou ao Estado que queria ir para casa e chorar: "vou afundar a cara no travesseiro. Chegamos tão perto...e mais uma vez nos cortaram as pernas!". Colotti afirmou que a derrota deste domingo equiparava-se “à catástrofe da Itália de 1990”.

"Nunca vi a conquista de uma Copa! Isso não é justo", explicou Colotti, estudante de 22 anos, em referência à última conquista argentina do troféu da FIFA, ocorrida em 1986, há 28 anos.

Fazendo um paralelo com a derrota brasileira perante os germânicos na semana passada, Colotti disse que "pelo menos os argentinos tem um consolo...não foi a goleada de 7 a 1 que os brasileiros sofreram. Nós perdemos com certa dignidade. Não morremos ajoelhados".

CONSPIRAÇÃO

O septuagenário Norberto Dinardi caminhava furioso pela avenida Pueyrredón, xingando o juiz do jogo contra a Alemanha. Ao falar com o Estado, desatou uma longa lista de "conspiradores internacionais" contra o país: "isto é o resultado de uma conspiração internacional. A FIFA está de conluio com o FMI e todas essas forças do capitalismo que não querem que as pessoas vejam a garra argentina".

Eleitor de Cristina Kirchner, Dinardi – que auto-definiu-se como “peronista da velha guarda” - sustentou que a FIFA "não quer que a Copa fique na América do Sul, onde surge uma resistência contra os poderes do norte!"

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