Esqueceram de mim

Felipão enfrenta clamor popular, imprensa e até o presidente para barrar Romário em 2002

O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2014 | 12h56

SÃO PAULO -  São comuns os clamores populares por jogadores esquecidos em tempos de Copa do Mundo. Desde Carlos Alberto Torres em 1966; passando por Falcão em 1978; Neto em 1990 até Neymar e Ganso em 2010.

Na seleção brasileira, um dos casos mais ruidosos envolveu a ausência de Romário no Mundial da Ásia. Estrela na conquista do tetracampeonato em 94, cortado por lesão em 98, embora com 36 anos em 2002, estava em forma. Havia acabado de ser artilheiro do Brasileirão pelo Vasco nos dois anos anteriores.

O técnico Luiz Felipe Scolari nem sempre o preteriu. O escalou em sua primeira convocação, para enfrentar o Uruguai pelas Eliminatórias. Concedeu-lhe inclusive a braçadeira de capitão. O atacante foi mal naquela oportunidade e desde então não retornou. Era uma das explicações possíveis para o litígio entre o técnico e o craque, relatou o Estadão no dia 6 de maio de 2002.

"'Felipão não tem coração', diz mãe de Romário", publicou O Estado de São Paulo no dia 8 de maio. "Felipão o enganou até a última hora. Ficou falando que ele não precisava mais de testes", desabafou Dona Lita.

Em entrevista concedida nove anos depois, em 2011, Felipão contou ter ficado comovido com o apelo, porém desconfiou que as declarações tivessem sido armadas por Eurico Miranda, presidente do Vasco à época e seu desafeto declarado. Isso o fez descartar definitivamente o nome de Romário, admitiu.

Até Fernando Henrique Cardoso havia entrado no lobby. "Romário joga na seleção do presidente", noticiou com destaque o Estadão no dia 25 de fevereiro de 2002. "Ah, eu sou Romário", declarou o político durante visita a Varsóvia. O assunto estava nas primeiras páginas dos principais jornais do país.

"Choro de Romário não comove Felipão", informou o Estadão no dia 6 de abril de 2002. A reportagem relatava que o atacante do Vasco tentara uma reconciliação, após ter pisado na bola ao dizer que não aceitaria ser reserva.

Nada disso fez Scolari ceder. E a certa altura ele decidiu não responder mais sobre Romário. "Só falo sobre quem foi convocado", avisava antes de iniciar as entrevistas coletivas.

 

As evasivas do técnico serviram para dar margem ao surgimento de mais versões. O jornal relatou na edição de 6 de maio que um amigo de Felipão confidenciou que o treinador não digeriu ter sido enganado por Romário antes do início da Copa América de 2001, quando atacante pediu dispensa alegando que faria uma cirurgia nos olhos. Além de não ter realizado a tal operação, Romário partiu em uma excursão caça-níqueis pelo Vasco.

E assim a lista final de selecionados para a Copa de 2002 acabou com os seguintes atacantes: Ronaldo como titular, Edílson, Denílson e Luisão na reserva. O time jogou com os meias Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho encostando na frente. Felipão sabia, contudo, quem seria o primeiro atacante a ser lembrado em caso de fracasso no Mundial.

Felizmente, para ele e para o Brasil, não foi o que aconteceu. Suas apostas deram resultado. O Brasil foi penta sem Romário em 2002 e graças ao feito Felipão tornou-se o técnico na disputa pelo hexa.

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