Psicólogos se dividem sobre o emocional da seleção brasileira

Choro pode fortalecer seleção nos próximos jogos, mas demonstra vulnerabilidade frente ao adversário da Copa do Mundo

Adriana Moreira e Sílvio Barsetti - enviado especial a Teresópolis, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2014 | 23h06

 As cenas de choro de atletas da seleção brasileira em diversas situações antes, durante e depois dos jogos do Mundial têm dividido a opinião de psicólogos do esporte. Alguns veem a reação do grupo como arriscada para o desempenho da equipe. Há, porém, quem considere essas manifestações passíveis de fortalecer o time.

Presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac afirmou que o trabalho da CBF para a Copa do Mundo deveria ter começado tão logo o País foi escolhido como sede do evento, em 2007. "Deixaram para 13 dias antes do Mundial. Está errado."

Ele imaginou uma situação "cabível" pouco antes da disputa de pênaltis no confronto recente entre Brasil e Chile. "Um adversário que olhe para o capitão e vários do outro time aos prantos, esse adversário tende a se sentir mais forte."

Suzy Fleury, especializada em psicologia esportiva, também acredita que o momento é preocupante. "É preciso mudar o discurso", afirma. "Em vez dessa coisa do Hino Nacional, de eles estarem jogando pelo Brasil, é preciso focar em futebol, nos fundamentos da bola."

Para Suzy, que trabalhou com Vanderlei Luxemburgo na seleção há 15 anos, o choro deve ser evitado, "porque demonstra que eles estão vulneráveis emocionalmente." Ela e Cozac criticaram o vídeo motivacional exibido aos atletas na véspera da partida contra o Chile, no qual crianças relatavam as sequelas da tragédia ocorrida na região serrana do Rio em 2011 – uma tempestade deixou centenas de mortos. "Aquilo deixou os atletas muito sensibilizados. Isso consome o nível de energia da pessoa", comentou Suzy.

Cozac foi mais contundente ainda na ressalva. "Uma ação assim cai como uma bomba num grupo que está com a emoção à flor da pele, por causa da pressão de ter de ganhar a Copa. Um vídeo como aquele explode emocionalmente a equipe."

Uma outra corrente de psicólogos não vê nenhum mal nas sessões de choro dos atletas brasileiros. Alessandra Dutra, da seleção nacional de handebol, defende que os jogadores não escondam suas emoções. "Geralmente, o choro é uma expressão natural para os latinos. Algo que não se vê muito na Europa, por exemplo", diz. Segundo Alessandra, como a seleção tem o acompanhamento da psicóloga Regina Brandão, não há risco de descontrole emocional.

O psicólogo do Botafogo, José Anibal Azevedo Marques, também não dá dimensão negativa às atitudes dos atletas. "Estão ali perfilados em campo, diante de 60 mil pessoas, todos cantam o Hino Nacional a capela e eles sabem que milhões de brasileiros fazem o mesmo diante da TV. É perfeitamente natural", afirma.

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