Denis Tyrin/AP
Torcida do Spartak Moscou se transformou numa das piores inimigas do ditador russo Joseph Stalin. Denis Tyrin/AP

Copa do Mundo volta ao palco de ofensiva de Stalin contra time russo

Há quase 80 anos, após polêmica se a bola havia ou não cruzado a linha do gol, ditador se voltou contra o Spartak

Jamil Chade, enviado especial a Moscou, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2017 | 17h00

A Copa de 2018 consolidará o uso da tecnologia em mundiais. Em 2014, os árbitros contaram com sistema eletrônico para definir se uma bola havia ultrapassado a linha do gol ou não. Agora, além disso, os juízes terão auxílio do árbitro de vídeo para tomada de decisões no jogo. A Fifa decidirá em março, mas seu presidente, Gianni Infantino, já deixou claro que esse é seu desejo.

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Há quase 80 anos foi uma polêmica se a bola havia cruzado a linha do gol que despertou uma ofensiva de Joseph Stalin contra um de seus piores inimigos: a torcida e o time do Spartak.

A partida era válida pelas semifinais da liga soviética de 1939. Em campo, os já consagrados jogadores do Spartak, com seus uniformes pesados e reconhecidos em todo o território da União Soviética, mesmo sem o poder de hoje da publicidade e das transmissões pela TV.

Liderando o time estava o hábil Nikolai Starostin, além de seus três irmãos considerados como verdadeiras estrelas dos anos de 1930. Do outro lado, o Dínamo Tbilisi, da capital da Geórgia, exatamente a região de onde vinha o ditador Joseph Stalin. Uma vitória daria à equipe um lugar na final. A tensão era escancarada, tanto em campo quanto nas arquibancadas onde o torcedor se espremia para acompanhar o confronto.

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Após 90 minutos, o resultado não surpreenderia nem torcedores nem os jornalistas esportivos da época. O Spartak, com sua equipe que entusiasmava multidões, havia derrotado o Tbilisi por 1 a 0, para o delírio de seus torcedores, simples trabalhadores do chão das fábricas soviéticas. Mas aquele gol foi considerado polêmico, pelo menos pelas autoridades e pela polícia secreta de Stalin.

A bola teria de fato cruzado a linha. Antes de tocar no chão, no entanto, já dentro do gol, um dos zagueiros do Tbilisi conseguiu afastá-la de forma espetacular, dando a impressão de que havia evitado o gol. Na história do futebol, gols polêmicos, decisões equivocadas de juízes e mesmo encenações de atletas foram alvo de discussões que perduraram por décadas. Até hoje, o gol da Inglaterra contra a Alemanha na final da Copa de 1966 é contestado. Em 2010, na Copa da África do Sul, a Alemanha deu o troco sobre os ingleses e as televisões do mundo todo mostraram que um chute do inglês Lampard resultou em um gol legítimo contra os alemães. O mundo viu a bola entrar. Mas o árbitro optou por mandar o jogo seguir, sem validar o gol, e a Alemanha acabou eliminando o time de Rooney.

Em 1939, o juiz soviético validou o gol do Spartak, que o classificou para mais uma decisão. Mas a polícia secreta de Stalin simplesmente ordenou que a partida voltasse a ser disputada. O destino do árbitro nunca foi revelado. Não só ele não apitaria mais nenhum jogo de futebol, como seu paradeiro passou a ser um mistério, inclusive para sua própria família. Alguns dias depois, os dois times voltariam a se enfrentar.

Poucas vezes o estádio em Moscou tinha visto torcedores tão entusiasmados em incentivar a equipe da cidade. Ainda no vestiário, os jogadores do Spartak aguardavam para entrar em campo com o sentimento de obrigação de demonstrar que não haviam conquistado a primeira vitória por acaso. Escutavam o grito da torcida e, em cada um dos jogadores, havia a sensação de que a batalha não seria apenas 11 contra 11 do time adversário. O jogo seria uma batalha contra um sistema que unia forças diante do Spartak.

Assim que a bola rolou, as considerações políticas foram colocadas de lado. Em campo, mais um jogo duro, com faltas violentas. No fim da partida eletrizante, 3 a 2 para o time de Nikolai, conhecido por sua velocidade e técnica. O Spartak venceu.

No dia seguinte, as autoridades então optaram por uma decisão ainda mais drástica: prender Nikolai, com base nas acusações feitas dois anos antes de que o principal jogador e líder do Spartak promovia um modelo de vida “antissoviético”, um crime que até a derrubada do bloco comunista, ninguém conseguiu explicar o que seria.

A prisão apenas foi evitada graças ao primeiro-ministro soviético Vyacheslav Molotov, que teria rejeitado assinar a ordem. O próprio Nikolai estimou, décadas mais tarde, que o ato do ministro estaria ligado ao fato de que sua filha era muito amiga da filha de Molotov.

Com o fim do stalinismo, o astro teve sua imagem e credibilidade resgatadas. Hoje, sua estátua faz parte do parque que dá acesso ao principal estádio de Moscou e onde o futebol será um instrumento do governo de Vladimir Putin para mostrar ao mundo sua força.

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Sede da Copa, Volgogrado foi palco de batalha decisiva na 2ª Guerra

Cidade-sede, que já foi chamada de Stalingrado, quer resgatar na Copa o orgulho e a importância do povo russo na Guerra

Jamil Chade, enviado especial a Moscou, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2017 | 17h10

Entre as várias cidades que receberão a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, uma delas expõe suas fotos e tradições de maneira especialmente orgulhosa no centro de imprensa internacional de Moscou: trata-se de Volgogrado, antiga Stalingrado e local que, há 75 anos, definiu a história do século 20.

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Foi ali, no mesmo terreno que hoje conta com um moderno estádio de US$ 250 milhões (equivalente a R$ 815 milhões), que milhares de russos e alemães perderam suas vidas, em combate. Os 200 dias da Batalha de Stalingrado, na visão de historiadores, definiu o destino da Segunda Guerra Mundial e abriu caminho para a derrota do líder alemão, Adolf Hitler.

Para os soviéticos, o heroísmo dos soldados daqueles dias marcaria toda uma geração e a resistência da cidade passou a ser um poderoso instrumento de propaganda para Stalin, que esteve à frente do exército russo. Quando a batalha terminou, os moradores que haviam sobrevivido organizaram uma partida de futebol para comemorar.

Em 2 de maio de 1943, o Dínamo Stalingrad derrotou o Spartak por 1 a 0. Naquele momento, o Estado soviético promoveu a partida como um símbolo da resistência do povo. “Foi um jogo histórico”, comentou Andrei Bocharov, o governador local, em entrevista ao Estado por conta do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Somando mortos, capturados e todos os feridos, a batalha de Stalingrado teve 1,8 milhão de pessoas.

Hoje, segundo os representantes da cidade-sede da Copa do Mundo, de aproximadamente 1 milhão de habitantes, o futebol será jogado em “uma terra banhada de sangue” e que quer usar a competição para voltar a atrair a atenção internacional.

Assim que a construção do estádio de 45 mil lugares começou, em 2014, as obras tiveram de ser suspensas, para o desespero dos organizadores. Dois corpos foram encontrados nas escavações – eram vítimas da Grande Guerra. Logo depois, mais 20 minas terrestres ainda colocadas durante as batalhas tiveram de ser desativadas.

Só então o estádio começou a ganhar forma. Depois de realizar estudos, os engenheiros descobriram que o terreno onde a arena foi erguida havia sido um dos principais locais da sangrenta batalha, impedindo que os alemães cruzassem o rio Volga.

A Copa do Mundo em Volgogrado faz ainda parte de uma ampla campanha do governo de Vladimir Putin por resgatar o orgulho da população e tentar mostrar ao mundo que a Segunda Guerra Mundial foi, em grande parte, definida por causa do sacrifício do povo russo. A esperança das autoridades locais é que o Mundial de 2018 mostre uma nova imagem da cidade que, em 1961, deixou de ser chamada de Stalingrado. O culto à personalidade de Stalin também foi abandonada. “Só se sabe o que é patriotismo indo até Volgogrado”, diz o governador. “A cidade tem a marca da vitória”. O certo é que o local, 75 anos depois, voltou a ser arma de propaganda do Kremlin.

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