Fábio Motta/ Estadão
Fábio Motta/ Estadão

Copa garantiu mais de R$ 11 milhões para Marin e Teixeira

Esse foi o benefício recebido pelos dois dirigentes por organizar o Mundial que aconteceu no ano de 2014

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2016 | 12h10

O relatório paralelo preparado pelos senadores na CPI do Futebol aponta para suspeitas em relação aos contratos da preparação do Brasil para a Copa do Mundo de 2014.  O centro das investigações é Comitê Organizador Local (COL), que era presidido por Ricardo Teixeira, José Maria Marin e, mais recentemente, por Marco Polo del Nero. 

No total, a Fifa repassou ao COL US$ 453 milhões. "O sigilo bancário do COL revela uma série de pagamentos a empresas que precisam ser melhor investigados, em função do histórico e das conexões dessas empresas e seus acionistas com o COL, a CBF e seus dirigentes, especialmente, quanto a eventuais ajustes, combinações ou qualquer outro expediente voltado ao recebimento de vantagens indevidas decorrentes de contratações direcionadas", alertou o documento.

Um exemplo se refere ao pagamento do COL de R$ 129 milhões para a empresa Presc Viagens e Turismo LTDA. Entre seus acionistas está a Asa Participações, representada por Wagner José Abrahão. O empresário, segundo diversas apurações e e-mails confiscados, é amigo íntimo de Del Nero e envolvido em diversos outros casos suspeitos com o cartola.

Outro contrato sob suspeita é o do COL com a Arena Assessoria de Projetos Ltda, envolvendo transferência de R$ 36 milhões. Um dos donos da empresa, porém, era sócio de Danilo Carvalho. "Um mês após a escolha das cidades-sedes, Danilo Carvalho fundou o Grupo Stadia, empresa que acabaria ficando com o projeto da Arena da Amazônia e da Arena das Dunas", disse. "Portanto, a empresa de Danilo Carvalho ganhou os projetos de estádios após o seu antigo sócio tornar-se o principal consultor do COL na área de arquitetura e engenharia de estádios", alertou o informe, que pede a investigação do Ministério Público Federal sobre um eventual favorecimento. 

A suspeita também recai sobre a empresa Online Segurança Patrimonial Eireli Ltda, que recebeu do COL, de maio a novembro de 2013, R$ 3,2 milhões. A empresa, que atua no ramo de segurança patrimonial, tem patrimônio declarado de  R$ 110 mil. Mas, segundo o Relatório de Inteligência Financeira do COAF, a empresa fez saques em espécie no valor total de R$ 2,7 milhões. Os saques foram efetuados por Dgival Alves dos Santos Filho, sócio da empresa e candidato a Deputado Distrital (DF) no ano de 2014. "Em continuidade às investigações, recomenda-se que o sócio da empresa seja ouvido, com o objetivo de esclarecer o destino dos recursos sacados em espécie", pede o informe da CPI. 

O que também fica claro pelos e-mails é a recusa dos dirigentes em ver um controle do governo. Em uma comunicação em 2012, Del Nero que informa o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, que é contra o envolvimento do governo nos assuntos do COL. "Importante o governo federal participar de todas as visitas de trabalho das obras mas que não tivesse assento obrigatório no COL", indicou. "Pudesse ser chamado quando o COL o convidasse em reuniões de trabalho interno como convidado", completou. "Portanto, o COL se mostrou refratário a incorporar um representante do governo federal em sua administração", constata o relatório da CPI. 

"Afastados os órgãos públicos de fiscalização em função de sua natureza privada, o COL reportou-se unicamente à Fifa para justificar todas as suas contratações e gastos", indicaram os senadores. Se os contratos estão sob suspeita, o informe ainda aponta que a Copa do Mundo garantiu uma renda de mais de R$ 11 milhões a Ricardo Teixeira e a José Maria Marin. 

Em 2009, quando a entidade ainda era presidida por Ricardo Teixeira, ele recebeu R$ 1,3 milhão. O mesmo valor foi pago no ano seguinte. Mas, em 2011, o valor saltou para R$ 3,1 milhões, em seu último ano no comando das operações da Copa. "Considerando que o objetivo máximo do COL seria a realização da Copa do Mundo Fifa 2014, que ocorreria apenas três anos depois, torna-se difícil justificar os recebimentos como 'bônus de desempenho'", alertou.

A partir de 2013, o COL passaria para o controle de Marin, que assumiu também a CBF no lugar de Teixeira. Naquele ano, o dirigente que hoje cumpre prisão domiciliar nos EUA acumulou salário de R$ 1,6 milhão. No ano da Copa, o total foi de R$ 3,6 milhões.

Outra constatação do informe é de que, ao contrário do que foi anunciado pela Fifa, foi sim a entidade quem pediu isenção fiscal a seus parceiros no Brasil e a todos com envolvimento no COL. Em um e-mail, o ex-secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, era quem pressionava pelos benefícios.

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