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Um dos dilemas da Copa do Mundo do Catar: a proibição de bebidas alcoólicas no país

Torcedores visitantes terão regras para seguir no país muçulmano, onde as bebidas são restritas aos residentes e não podem ser consumidas em ambientes abertos; Fifa e organizadores tentam montar áreas específicas e liberar bares de hotéis

Anne Levasseur e Aziz el Massassi / AFP, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 10h33

Coquetéis a valores médios de R$ 22, venda e consumo proibidos no exterior e em aeroportos. Os torcedores que viajarem ao Catar para a Copa do Mundo de 2022 terão de se adaptar aos costumes locais para satisfazer seu desejo de beber álcool durante a competição, marcada para novembro. Brasil e Argentina garantiram vagas nesta semana. Espanha, Alemanha, França, Bélgica, Dinamarca, Inglaterra, Holanda, entre outras, também confirmaram presença na disputa.

Um dos maiores eventos esportivos do planeta costuma estar vinculado a comemorações suntuosas, festas e muita diversão. Mas o torneio de estrelas do futebol mundial será disputado pela primeira vez em um emirado muçulmano conservador no Golfo Pérsico, onde o acesso a bebidas alcoólicas é severamente restrito.

Enquanto as licenças para comprar bebidas alcoólicas são essencialmente reservadas para residentes, e o 'Duty Free' no aeroporto é 'seco' para o produto, os turistas devem se ater às áreas de torcida e a determinados bares e restaurantes de grandes hotéis. Não podem perder de vista também as leis de sanções por embriaguez nas vias públicas do país. As distâncias entre os estádios serão as menores de uma Copa do Mundo, e isso pode ajudar nesse sentido. A promessa é de que o transporte público funcione. Caminhar pelas ruas também deverá ser uma opção porque haverá arenas separadas por menos de 10 quilômetros. Os torcedores passam boas horas do dia nas ruas, comendo e bebendo, mesmo aqueles que não estão com ingressos para todas as partidas.

Os organizadores da Copa do Mundo do Catar prometem que o álcool estará "disponível em locais destinados aos torcedores" dos 32 times credenciados para a competição. "Estamos trabalhando com a Fifa e com os atores locais para garantir que atendam às expectativas de todos os fãs, locais ou turistas", disse um porta-voz à AFP. Na Copa da Rússia, três anos atrás, a média de público dos jogos foi de 50 mil pessoas, abaixo dos padrões tradicionais das últimas edições.

Durante a Copa do Mundo de Clubes de 2019, o Catar montou uma 'fan zone' com capacidade para 45 mil pessoas, oferecendo bebidas alcoólicas por menos de US$ 11. O valor alto também é um jeito de evitar ou reduzir a venda.

No Catar, garrafas de bebida alcóolica camufladas e vidros coloridos

Em 2011, o emirado liberou amplamente o acesso ao álcool no bairro de The Pearl, em Doha, com o objetivo de atrair uma rica comunidade ocidental. Recentemente, restaurantes foram novamente autorizados a solicitar licenças para a venda de bebidas, mas enfrentam um tabu, pois temem tocar no assunto e até falar publicamente por medo de provocar a rejeição de alguns clientes, autoridades ou de seus próprios proprietários.

"Tive de esperar um ano e meio para obter minha permissão, ninguém queria assinar o documento. Muitos catarianos se recusam a se associar ao álcool", explicou à AFP um gerente de restaurante do The Pearl, com vista para os grandes iates ancorados em sua porta. No verão passado (no hemisfério norte), esse mesmo dono de restaurante pôde servir bebidas alcoólicas com algumas condições: não era possível em terraços nem ter garrafas em cima das mesas. E as taças de vinho tiveram de ser tingidas e camufladas.

Apesar das críticas de alguns vizinhos nas redes sociais, o comerciante reconhece que teve seu "melhor mês em oito anos" de faturamento. "As pessoas não vão entender que precisam ficar fechadas em casa para beber, quando o clima estará magnífico nesta época do ano no Catar", diz ele sobre a Copa do Mundo daqui a um ano.

Até os hotéis cinco estrelas, que têm todas as licenças, encontram problemas. Em um novo estabelecimento inaugurado no centro de Doha, um grupo de garçons se forma em um bar que espera fazer sucesso durante o torneio. Mas não se sabe se eles vão operar conforme imaginam.

Palavras ligadas ao consumo de álcool são tabu no país-sede da Copa

Segundo o responsável pelo hotel, as promoções de bebidas alcoólicas devem melhorar sua inventividade para evitar os tabus da sociedade catariana. "Há palavras que devemos evitar. Em vez de "cerveja", dizemos "lúpulo e grão". Para "vinho", falamos "uvas". Para vinho com bolhas, usamos "espumante"', explica. Ele prefere não se identificar para a reportagem. "Temos diferentes ofertas de brunch, a mais cara dará direito ao álcool e será chamada de "passe reservado" para não incomodar os catarianos que leem o cardápio".

O presidente da Autoridade de Turismo do Catar, Akbar al-Baker, argumentou à AFP que "haverá a quantidade de álcool que eles quiserem". "Vamos fazer com que os visitantes vivam uma experiência única no seu gênero", acrescentou sem dar detalhes.

Para alguns observadores, o Catar estará preparado em termos de infraestrutura e organização, mas o verdadeiro desafio será oferecer lazer e diversão a milhares de visitantes em um pequeno país pouco conhecido por suas atrações e festas. A questão é saber se o país do Golfo está preparado para conhecer culturas do mundo todo. "Dadas as experiências das Copas do Mundo de 2006 a 2018, os espectadores da primeira fase assistem a uma partida a cada três ou quatro dias apenas. Eles vêm principalmente para se divertir", explicou um especialista em eventos esportivos.

De acordo com o especialista, que pediu anonimato, pode faltar ao Catar "uma verdadeira compreensão do que o visitante espera em um evento como esse", acostumado a atrações turísticas e ao álcool como ingredientes de sua viagem e estadia no país-sede. A Fifa ainda não se manifestou de forma definitiva sobre o assunto, mas sempre negociou bem seus assuntos comerciais. Entre seus patrocinadores para a Copa do Catar, há uma empresa de cerveja, a Budweiser.

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