Frank Fife/AFP
Frank Fife/AFP

Marcas avaliam custo de se aproximar do Catar à medida que a Copa do Mundo se avizinha

Mundial deste ano está envolvido em controvérsias sobre desrespeito aos direitos humanos dos trabalhadores responsáveis pela construção dos estádios e também à comunidade LGBT+ no país-sede

Tariq Panja, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2022 | 15h00

Claro, ele já havia apresentado um sorteio da Copa do Mundo antes. E como um artilheiro da edição de 1986 que agora trabalha em uma famosa emissora de televisão inglesa, ele tem um relacionamento profissional contínuo com a organizadora do torneio, a Fifa. Mas enfrentar o glamouroso evento em Doha em março, que definiu os confrontos para o Mundial deste ano no Catar - uma escolha de sede que ele critica regularmente - não era algo, decidiu o ex-atacante Gary Lineker, que ele pudesse considerar. Então, em uma conversa com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, ele disse 'não'.

A relutância de Lineker em apresentar o sorteio — que deixou a entidade tendo que encontrar um substituto — é apenas um exemplo recente da linha que atletas e patrocinadores estão tendo que seguir quando se trata da Copa do Mundo do Catar, que desde o início tem sido envolvida em controvérsias e críticas sobre o tratamento que o país dá aos trabalhadores migrantes envolvidos nas construções dos estádios e à comunidade LGBT+. A decisão de Lineker ocorreu no momento em que várias empresas, e até federações de alguns países participantes, estão tomando medidas para distanciar suas marcas do país-anfitrião, embora tenham pago milhões de dólares para se associar ao evento esportivo mais importante do mundo.

Há muito tempo o Catar discorda das percepções sobre o país que considera imprecisas ou, na melhor das hipóteses, desatualizadas, tentando explicar que, à medida que o país mudou, também mudaram as suas relações com os trabalhadores. Mas exemplos de conduta abusiva e maus tratos persistem e continuam sendo motivo de notícias, principalmente na Europa, onde a Copa do Mundo do Catar continua sendo fonte de protestos e um pára-raios de críticas para aqueles que se associam a ela.

Preocupadas, algumas empresas que deveriam aproveitar o maior evento do esporte mais popular do mundo optaram por se afastar. Por exemplo, o ING Group, uma importante empresa internacional de serviços financeiros e bancários que patrocina as seleções da Holanda e da Bélgica, decidiu não aproveitar esses relacionamentos durante o evento. A empresa disse que não aceitaria nenhum repasse de ingressos para o Mundial ou se envolveria em qualquer ação promocional relacionada à Copa do Mundo, disse um porta-voz ao The New York Times.

"Dada a discussão e as preocupações em torno da situação dos direitos humanos da infraestrutura da Copa, achamos que é inapropriado", disse o porta-voz. Em vez disso, segundo o ING, a empresa concentrará seus esforços na Eurocopa feminina que será realizada na Inglaterra em julho.

Vários outros parceiros das seleções holandesa e belga também emitiram declarações descrevendo seus planos de ignorar o que, em circunstâncias normais, seria uma grande plataforma de marketing. A GLS, provedora de serviços de encomendas que patrocina a Bélgica, disse ao Times que, embora apoie a seleção desde 2011, não receberá ingressos para ações promocionais a seus clientes ou se envolverá em campanhas publicitárias no Catar devido às preocupações com os direitos humanos no país.

Por outro lado, a rede de supermercados Carrefour, que conta com unidades no Catar e também patrocina os belgas, emitiu uma nota negando as alegações de que se juntaria ao boicote coletivo ao Mundial. "O Carrefour e suas subsidiárias não estão envolvidos em nenhum tipo de boicote", disse a empresa ao Times.

Mesmo algumas das outras seleções, no entanto, estão "pisando em ovos". A seleção dos Estados Unidos manteve discussões internas sobre mensagens que pode dar aos jogadores quando eles precisam responder questões inevitáveis da imprensa sobre questões de direitos humanos. Já a seleção da Alemanha usou camisas com o slogan “direitos humanos” antes de uma partida das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo no ano passado.

E depois que a Dinamarca garantiu sua vaga ao Mundial ainda no ano passado, a federação de futebol do país anunciou que dois de seus patrocinadores, a loteria nacional Danske Spil e um banco proeminente, Arbejdernes Landsbank, concordaram em ceder o espaço pelo qual pagaram nos uniformes de treinos da seleção para que suas marcas possam ser substituídas por mensagens de direitos humanos durante a Copa do Mundo. (O Arbejdernes Landsbank mais tarde encerrou seu patrocínio antes do fim do contrato, uma decisão que disse ser sobre questões não relacionadas ao tema.)

Nenhum dos patrocinadores da seleção dinamarquesa, disse a federação do país, participaria de qualquer atividade comercial no Catar “para que a participação nas finais da Copa do Mundo seja principalmente sobre participação esportiva e não para promover os eventos dos organizadores da Copa do Mundo”.

Para outros, porém, o dinheiro envolvido ofertado é um valor alto demais para ser recusado. Há anos, o Catar assina alguns dos maiores contratos de patrocínio no esporte, e isso só aumentou à medida que a Copa do Mundo se aproximava. Seu grande trunfo e que virou aliado até hoje foi David Beckham, que, como Lineker, esteve presente no salão quando o Catar foi escolhido como anfitrião para 2022.

O acordo multimilionário do Catar com Beckham, agora também proprietário de um time de futebol dos Estados Unidos e investidor cuja celebridade transcende o futebol, vai além da Copa do Mundo. É, em muitos aspectos, um acordo para o ex-capitão da seleção da Inglaterra endossar o próprio Catar. Isso levou algumas pessoas próximas a Beckham a expressarem dúvidas sobre a natureza do acordo.

"É para promover e apoiar o país e o que eles estão fazendo", disse uma pessoa com conhecimento do acordo ao descrevê-lo. Beckham não falou publicamente sobre o que o motivou a assinar com o Catar, onde ele é um visitante frequente desde que assinou um contrato há mais de um ano e meio. Seu porta-voz não respondeu a um pedido de comentário da reportagem.

O relacionamento de Beckham com o Catar pode levar a um questionamento de seus outros parceiros, como a Adidas. A empresa forneceu poucos detalhes sobre como ativaria seu relacionamento com Beckham para a Copa do Mundo do Catar, dizendo apenas que ele “é um membro valioso e de longo prazo da família Adidas e nossa parceria continuará como tal”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.