Arquivo/Palmeiras
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Copa Rio, Academia e profissionalismo: como os técnicos estrangeiros revolucionaram o Palmeiras

Na expectativa por Abel Ferreira, clube se apega às conquistas históricas lideradas por Ventura Cambón e Filpo Núñez

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

O técnico português Abel Ferreira vai estrear pelo Palmeiras nos próximos dias com a expectativa de defender uma longa tradição do clube em ter bons resultados com treinadores de outros países. Antes dele, outros 22 estrangeiros (sete deles europeus) assumiram a equipe alviverde e alguns até foram capazes de transformar a história e conquistar títulos importantes.

A presença de estrangeiros no comando do Palmeiras teve início ainda na década de 1920. O clube formado por imigrantes italianos recorreu a vários compatriotas para comandar a equipe. "A escolha por treinadores italianos espelhou a busca por um trabalho de profissionais que pudessem trazer um ganho tático e físico para o futebol brasileiro, que ainda não era tão desenvolvido. O curioso é que assim como hoje, havia um conceito lá atrás de que os estrangeiros mereciam ter oportunidade", explicou o historiador do Palmeiras, Fernando Galuppo.

Por isso, os dirigentes do então Palestra Itália buscaram na Europa treinadores renomados para dirigir elencos formados por jogadores amadores. O choque cultural gerou até mesmo situações inusitadas, como a enfrentada pelo italiano Attilio Fresia em 1921. O exigente treinador acabou demitido por brigar com os atletas. "Ele veio com a missão de implementar treino físico para um time que havia acabado de ser campeão paulista. Os jogadores eram amadores e não queriam ter mais treinos. Só queriam jogar", contou o historiador.

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A escolha por treinadores italianos espelhou a busca por um trabalho de profissionais que pudessem trazer um ganho tático e físico para o futebol brasileiro, que ainda não era tão desenvolvido
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Fernando Galuppo, Historiador do Palmeiras

Além de italianos, a história alviverde teve somente uma outra nacionalidade europeia à frente do time. Dois húngaros foram técnicos entre 1929 e 1932. O mais famoso deles foi Eugênio Medgyessy, o Marinetti. "Existia o conceito de que o futebol húngaro era o futebol científico e tinha os melhores treinadores, com conceitos modernos", afirmou Galuppo. Duas excursões do tradicional Ferencvaros pelo Brasil em 1929 e 1931 ajudaram a reforçar a imagem positiva do futebol húngaro.

Os dois maiores técnicos estrangeiros do Palmeiras vieram da América do Sul. O uruguaio Ventura Cambón venceu o Campeonato Paulista de 1950 e no ano seguinte liderou a equipe na conquista da Copa Rio, considerada pelo clube uma das taças mais importantes da história. Cambón foi ainda jogador do time na década de 1930 e é até hoje o treinador que mais vezes assumiu o Palmeiras, seja de forma interina ou efetiva.

Na década seguinte, o argentino Filpo Núñez foi o comandante de um time fortíssimo e conhecido como Academia de Futebol, termo lembrado até hoje com orgulho pelos palmeirenses e utilizado para batizar o centro de treinamento do clube. Nomes como Valdir de Morais, Djalma Dias, Djalma Santos, Julinho, Ademir da Guia e Servílio faziam parte do elenco.

Núñez teve tamanho sucesso com o Palmeiras que chegou a dirigir a seleção brasileira em uma partida em 1965 e até hoje é lembrado no clube pelo estilo boêmio e pela expressão "pim, pam, pum, gol", utilizada para explicar ao elenco o estilo de jogo com toques de primeira e com proposta ofensiva.

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O (Filpo) Núñez foi o maestro da Academia. O time tinha muitos craques, mas ele conseguiu organizar todos para atuarem em um estilo de jogo fluído, organizado e ofensivo
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Fernando Galuppo, Historiador do Palmeiras

"O Núñez foi o maestro da Academia. O time tinha muitos craques, mas ele conseguiu organizar todos para atuarem em um estilo de jogo fluído, organizado e ofensivo. Todos os gols mais rápidos da história do Palmeiras foram na época dele, graças ao estilo vertical de jogo", contou Galuppo. Outro estrangeiro vitorioso foi o uruguaio Humberto Cabelli, tricampeão paulista com o Palestra Italia em 1932, 33 e 34.

Prisão e boxe

Por outro lado, a presença estrangeira no comando do Palmeiras nem sempre deu certo. Em 2014, o argentino Ricardo Gareca durou só 13 jogos no cargo e foi demitido após maus resultados. Outro treinador a ter problemas foi o italiano Caetano De Domenico, mas por outro motivo. Apesar de ter sido campeão estadual em 1940, o técnico trabalhava paralelamente como sapateiro e se tornou uma figura conhecida do governo por causa do futebol. Anos mais tarde, no auge da Segunda Guerra Mundial, o treinador acabou preso por ser natural de um país que era rival do Brasil no conflito.

Outros técnicos palmeirenses chegaram ao clube com bagagem adquirida em outros esportes. O uruguaio Ramon Platero e o argentino Jim Lopes haviam atuado no boxe. Lopes, inclusive, foi o responsável por iniciar a montagem do time que venceu a Copa Rio em 1951. 

ESTRANGEIROS NO COMANDO DO PALMEIRAS

Argentinos: Jim Lopes, Abel Picabéa, Armando Renganeschi, Filpo Núñez, Alfredo Gonzalez, Ricardo Gareca

Húngaros: Emeric Hirche, Eugênio Medgyessy

Italianos: Adriano Merlo, Attilio Fresia, Dante Vagnotti, Renzo Mangiante, Caetano De Domenico 

Paraguaio: Fleitas Solich

Português: Abel Ferreira

Uruguaios: Ramon Platero, Humberto Cabelli, Carlos Viola, Ventura Cambon, Conrado Ross, Felix Magno, Segundo Villadoniga, Ondino Vieira

 

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