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Coragem

Dos técnicos, o único que fez verdadeira inovação nunca é lembrado: Fernando Diniz

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

18 de dezembro de 2016 | 06h00

O Corinthians demitiu seu treinador depois de nove jogos. Uma injustiça, mas, ao mesmo, tempo, um bom negócio para Oswaldo de Oliveira. Não estou brincando nem sugerindo qualquer esperteza da parte do treinador. Oswaldo é uma pessoa digna e um bom técnico. O que digo é que a indenização por quebra de contrato pode ter salvado seu ano e, assim, permitir que, com calma, cultivando rosas em seu jardim, ele espere a próxima oferta. Ela virá, estejam certos. 

Oswaldo faz parte do circulo de profissionais, não tão restrito, que tem quase garantia de emprego certo. Fala-se hoje em renovação, com a chegada de vários treinadores jovens nesse circulo. Não creio muito nisso. Acho que está havendo uma mudança de guarda nas fileiras dos técnicos de futebol mais por motivo de idade do que por qualquer outra coisa. Alguns estão entrando na etapa da semi aposentadoria e, no entanto, ainda resistem. Eu não duvido que Marcelo Oliveira, Levir Culpi e Murici Ramalho ainda tenham terreno amplo á sua frente. Prova disso é a presença de Vanderlei Luxemburgo entre os nomes possíveis de dirigir o Corinthians. 

O que os faz sempre estarem a postos é, salvo exceções, o dourado intervalo subvencionado pelas indenizações. Todos os que já trabalharam como assalariados, como se costumava trabalhar neste infeliz país, sabem as agruras de quem é demitido e vai para a rua. Ninguém, nem quem recebe indenizações polpudas, fica em casa esperando chamado. Todo mundo sai batendo nas portas de amigos e conhecidos tentando voltar ao trabalho o mais rápido possível. O treinador é um pouco diferente. Ele pode apenas desaparecer e esperar sentado por uma vaga em outro clube. E nesse meio tempo, tem como viver bem. 

Abel Braga tinha sumido do mapa dos treinadores. Reaparece agora no Fluminense e não aparenta nenhum traço da angústia que sente alguém ao ficar fora do mercado de trabalho tanto tempo. Sabia, como treinador de primeira linha, que sua vez ia chegar. Os treinadores fazem muito bem de se defenderem de dirigentes amalucados. Soube que no Corinthians tiveram a ingenuidade de pedir a Oswaldo de Oliveira que renunciasse à indenização! Por que? Em nome de que? Talvez tenham pedido a mesma coisa a Cristóvão, que, por sinal, já assumiu o Vasco. A única defesa de um treinador é exatamente a indenização por quebra de contrato. Raros são os treinadores que pedem demissão. Talvez Roger Machado no Grêmio ou, menos recentemente, Mano Meneses, no Flamengo. E os dois sabiam que logo estariam contratados. 

Já que estou falando de técnicos, corre por aí polêmica causada por Renato Gaúcho, que afirmou que técnico com talento e personalidade não precisa estudar. Isso causou alvoroço num tempo em que esquemas e táticas de quadro negro estão na moda. Não sei quem tem razão. Nunca fui contra livro e estudo, ao contrário. O que falta neste país é leitura. Por outro lado, não me parece que os novos treinadores surgidos recentemente tenham feito qualquer notável inovação tática. Nem Jair Ventura, nem Zé Ricardo, nem mesmo Roger Machado, apresentaram muito de novo. Esquematizam bem seus times e dão moral aos jogadores. Em suma, aproveitam bem o que tem nas mãos. Não é qualquer um que faz isso, reconheço. Mas não há verdadeira inovação. 

Verdadeira inovação fez apenas um treinador que, infelizmente, quase nunca é lembrado: Fernando Diniz, Esse realmente mostrou algo que o mais tosco torcedor de resultados soube apreciar. Porque combinou beleza, arte e resultados. Ou não é um grande resultado ter transformado um time pequeno num vencedor de Palmeiras, São Paulo e Corinthians, perdendo, duramente, só para o Santos, na final? Por que Fernando Diniz não é contratado por qualquer desses times grandes? A resposta é simples: porque ele realmente vem para mudar. Alguém tem coragem? 

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