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Ugo Giorgetti
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Corinthians 2 x 1 Cruzeiro

Meu sonho é que apareça um juiz ensandecido que enfrente a ira dos justos

O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2018 | 05h00

E por que ninguém se insurgiu, nem mesmo os corintianos, contra o placar da partida que deu a vitória final ao Cruzeiro? A resposta é porque se formou uma opinião generalizada de que o Cruzeiro é um time melhor do que o Corinthians. Ocorre que, melhor ou pior, são conceitos que se aplicam, ou antes dos jogos, ou depois. No campo, a coisa é outra. E no campo, naquele momento do segundo gol, o Corinthians era um time melhor.

Isso já por si legitima o gol. Mas havia mais. Não sei se houve ilegalidade no lance, mas houve beleza. Entre a justiça e a beleza fico sempre com a beleza. O mundo talvez não seja justo, o futebol certamente não é, mas sempre há a beleza para nos consolar das injustiças da vida e do futebol. E quando um gol desses é anulado em nome da justiça, é um desrespeito ao futebol.

É diminuir o futebol, a arte do futebol, e confiná-lo a regras medíocres de quem procura a justiça. Não aguento mais tanta gente procurando justiça e ela parece cada vez mais longe. Lançar mão de um aparelho de vídeo para determinar o destino de uma partida é o último recurso da mediocridade.

Só se falou se o gol era legítimo ou não. Ninguém falou na beleza do lance, executado por um garoto, uma das poucas revelações desse nosso pobre futebol, que mostrou no rosto a felicidade de ter feito o que fez. Ninguém levou em conta o salto magnífico, acrobático no seu entusiasmo, sincronizado como um coro de ópera, executado pela torcida atrás do gol, extasiada pelo que tinha acabado de ver.

Mas a preocupação era se tinha havido alguma irregularidade ou não. E se recorre a uma engenhoca grotesca como se fosse a máquina da verdade. No fundo, a engenhoca tenta uma proeza que artistas e inventores de várias épocas tentaram, escritores, poetas, alquimistas, até cineastas: reviver o passado. Esse sonho, que sempre se revela frustrado, ameaça agora o futebol.

Será que é tão difícil entender que o lance que vai ser revisto não existe mais, que sua realidade ficou num passado distante, pois o tempo obedece a outras velocidades? Uma coisa que parece ter passado há poucos instantes na verdade passou o equivalente a anos ou séculos. E, no entanto, o juiz olha reverente a máquina que mostra a mentira do tempo recuperado.

Todo mundo sabe que a câmera mente. Que a essência do cinema é a mentira das imagens, ilusão poética, às vezes bela, mas ilusão. Tomar o que a câmera registra como verdade é algo complicado, com consequências graves.

Só para continuar no tema do tempo, é incrível como o ponto crucial dessa partida se deu num tempo curtíssimo, meteórico e, ao mesmo tempo, longo, infindável. O lance rápido culmina com um chute raro, perfeito, o goleiro salta, a bola entra, a torcida delira. Isso tudo dá uns 20 segundos, talvez. Depois o tempo para, por uns 3 minutos, com consultas e conversas. E enfim, a decisão. A reação de loucura e alegria desliza rapidamente em direção do silêncio e desânimo. A beleza do lance tão recente é apagada pela frieza da decisão tomada pela máquina. A justiça estava feita e todos poderiam dormir tranquilos. O belo lance estava esquecido.

Eu tenho um sonho, para emprestar uma frase famosa de um discurso famoso. Meu sonho é aparecer um dia um juiz, alguém diferente e meio maluco, que diante de um gol duvidoso, mas de grande beleza, tomasse partido da beleza contra a justiça e validasse o gol. Sem hesitar. Que o gol fosse confirmado por respeito ao futebol. Um juiz ensandecido, que enfrentasse a ira dos justos em nome de algo que ainda está escondido no íntimo de cada verdadeiro torcedor. Na quarta, a partida, para mim, terminou no gol de Pedrinho. Corinthians 2 x 1 Cruzeiro.

 

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