FABIO MOTTA/ESTADAO
FABIO MOTTA/ESTADAO

Corinthians: a anatomia de um campeão

Saímos a campo para tentar compreender o que levou um time com tantos problemas ao título

Amilton Pinheiro, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2015 | 11h21

As duas desclassificações do Corinthians em dois importantes campeonatos que disputava, o Paulista e a Libertadores, poderiam ser um prenúncio de que as coisas não seriam boas para o time em 2015. Para complicar ainda mais, a saída de dois importantes jogadores, Guerrero e Emerson Sheik, parecia ser a senha de que seria melhor terminar o ano e pensar em 2016. Ontem o empate em 1 a 1 com o Vasco da Gama, em São Januário, e a derrota do Atlético-MG para o São Paulo por 4 a 2, selou o improvável, a conquista do Campeonato Brasileiro, o sexto título do Corinthians.

Mas essa conquista, na verdade, foi sendo desenhada lá atrás, logo nas primeiras partidas do Campeonato Brasileiro; assim entendem três ex-jogadores do clube: Ricardinho, que defendeu o time entre 1998 e 2002 e em 2006; Zé Elias, que jogou entre 1993 e 1996, e Luizão, que vestiu a camisa do time entre 1999 a 2002. “Foi um time que soube driblar as dificuldades do início do Campeonato Brasileiro e do próprio começo de ano ruim. Chegou num determinado momento que o Tite teve que arrumar o time novamente com a saída de jogadores importantes, como o Guerrero e Emerson Sheik, para conseguir fazer as mudanças com muita destreza e qualidade. Foi uma equipe muito regular, competitiva e consiste”, explica Ricardinho que era técnico até pouco tempo do Santa Cruz, de Pernambuco.

Parece que a palavra 'regularidade' foi mesmo a tônica dominante do time, principalmente num campeonato de pontos corridos e que por isso privilegia a constância. “Essa conquista do Corinthians premia aquele time que conseguiu manter uma regularidade. Esse campeonato representa o seguinte: venceu o time que teve planejamento e o manteve ao longo da disputa do Campeonato Brasileiro. Apesar das perdas de alguns jogadores, o time fez contratos específicos para determinadas posições e a manutenção do treinador foi essencial para encontrar o equilíbrio necessário durante as mudanças. O Corinthians conseguiu manter uma equipe que durante todo o campeonato manteve a regularidade, como destaquei no inicio, essa foi a fórmula para o hexa”, analisa Zé Elias, que atualmente trabalha como comentarista da ESPN.

Outro ponto salientado pelos ex-jogadores para o Corinthians vencer com três rodadas de antecedência o Campeonato Brasileiro foi a determinação da equipe e a figura de um técnico que soube orquestrá-la com maestria. “É um elenco determinado, que abraçou a maneira que o treinador, Tite, imprimiu para que o time jogasse. É um grupo muito unido e que não teve um grande craque, um ajudava o outro, um deixava o outro se destacar”, entende Luizão.

Elenco e os destaques individuais

Apesar do elenco corintiano ter sido o ponto destacado pelos ex-jogadores para a conquista do Campeonato Brasileiro, eles também reconheceram a importância de alguns jogadores individuais que ajudaram o time nos momentos decisivos, o que parece que faltou nos adversários mais próximos na tabela, como Grêmio, São Paulo e Santos. “A forma de jogar do Corinthians priorizou o elenco, mas não deixou de destacar alguns jogadores individuais. Como foi o caso de Jadson, do Elias e do Renato Augusto, que sobressaíram pelo que fizeram individualmente, mais muito em função do que a equipe proporcionou. Quando precisavam decidir, eles decidiram”, diz Zé Elias.

Ricardinho faz um paralelo entre essa equipe de 2015 com aquela que venceu o Campeonato Brasileiro em 2011. “O coletivo do Corinthians foi o ponto forte da conquista do campeonato, como tinha sido na última conquista de 2011, que era coletivamente muito forte. Mas diferentemente de 2011, as individualidades sobressaíram mais agora. Quando se tem um time coletivamente forte, você abre espaço para individualidades e nesse caso da conquista do Corinthians essas individualidades decidiram em momentos cruciais”. 

O Maestro Tite

Uma questão feita aos ex-jogadores durante as entrevistas foi: “Como uma torcida tão exigente, que muita vezes cobra de maneira enfática e fanática, conseguiu ter paciência com o time diante das duas desclassificações, de dois importantes campeonatos, Paulista e a Libertadores?”. Nas respostas, a explicação; a importância de Tite para o Corinthians. “A torcida teve uma tolerância com o time diante dos fracassos do campeonato Paulista e da Taça Libertadores da América por causa da figura do seu comandante, que é o Tite. A credibilidade que ele tem, a história que ele construiu, a maneira como ele lida com os jogadores e com o clube, transfere para a torcida”, analisa Zé Elias.

“Tite teve estabilidade e credibilidade necessárias quando o time não estava indo bem e quando teve as baixas de jogadores importantes como Guerrero e Emerson Sheik. Ele soube contornar as dificuldades e trouxe de volta a estabilidade do grupo e a adesão da torcida que atendeu e entendeu ao chamado dele. Uma equipe que fez mais de 70 pontos (77 pontos), e sofreu poucos gols (27 gols) conquista o título com todos os méritos”, sintetiza Ricardinho.

Para entender ainda mais

Preparamos uma entrevista com Luiz Zanin, que é colunista do Caderno 2, mas também blogueiro de esportes do Estadão com o seu O Jogo de Zanin. Ele aprofunda a análise dos atributos que levaram o Corinthians a conquistar o seu sexto título nacional, que o coloca no mesmo patamar de Flamendo e São Paulo, até então os únicos hexacampeões nacionais. Confira a seguir os principais trechos do bate-papo.

Em campeonato de pontos corridos, vence o mais regular? O que fez o Corinthians ser o time mais regular do campeonato brasileiro?

A resposta é o equilíbrio do time, entre os três setores. Por isso, o Corinthians tem os melhores números. Maior número de pontos, mas também melhor ataque e defesa menos vazada. Isso dá a dimensão de como o time é orgânico.

Quais foram os destaques do time para vencer o Campeonato Brasileiro?

Os melhores (jogadores) foram Elias e Renato Augusto. Cássio voltou a jogar bem. E até Vagner Love desencantou ao longo do campeonato. O que prova que o conjunto é que dá condições aos destaques individuais.

O que faltou nos adversários para pressionar o Corinthians na tabela?

Faltou a eles o que sobrou ao Corinthians: regularidade. O Atlético-MG jogou bonito, mas oscilou. O Grêmio encontrou um futebol interessante este ano, mas também vacilou quando não podia. E o Santos só foi acordar quando já era tarde demais. Palmeiras tem um conjunto em formação e o São Paulo atravessou um ano de turbulências, inclusive políticas.

Venceu o melhor time?

Você pode criticar o sistema de pontos corridos. Mas ele é o mais justo de todos, A não ser que ocorra alguma coisa, sempre vence o melhor. Justíssimo título para o Corinthians.

Quais os pontos mais fracos do Corinthians que não comprometeram suas vitórias e consequentemente o título?

Como todos os times brasileiros, também o Corinthians sofre com desmanches de equipes. No seu caso, perdeu dois jogadores fundamentais – Guerrro e Emerson Sheik. E soube remontar-se sem eles. A ponto de não terem feito falta à equipe. Mérito do Tite.

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