Corinthians: as várias faces de Tite

Quem acompanha as contidas entrevistas de Tite não pode imaginar a figura complexa que está comandando o Corinthians. O treinador que recuperou o time do rebaixamento para a luta efetiva por uma vaga para a Libertadores da América mistura vários dogmas do atual futebol brasileiro.Misticismo, neurolingüística, estratégia, planejamento, psicologia e palavrões, muitos palavrões. "O Tite não é essa figura calma e tranqüila das entrevistas para a televisão. No intervalo, quando a coisa está difícil, ele pega pesado. Xinga, esperneia, cobra. Como foi jogador, fala de ?boleiro para boleiro?. Todos entendem e respeitam. Não ofende ninguém, mas cobra pesado. Ele se transforma para ganhar o jogo", diz o capitão Anderson. "Muita gente tem uma imagem distorcida de mim. Sou uma pessoa educada, mas não sou um cordeirinho. No futebol não posso falar 24 horas ?por favor, marque mais de perto?, ?se antecipe, por obséquio?. Gostaria, até. Mas para ser compreendido, falo: ?raspa a bunda no gramado, cacete?. E por aí vai. Tudo depende do contexto. Jogador de futebol é um ser muito complicado, que precisa sentir atitude do seu técnico, que é a sua referência. Eu assumo a postura de líder, do condutor", revela Tite.Formado em Educação Física pela PUC de São Paulo, o treinador nunca esqueceu a sua religiosidade. É devoto de Nossa Senhora do Caravaggio, como seu conterrâneo Luiz Felipe Scolari. Flagrado jogando água benta nos duros gramados do Parque Ecológico, Tite assumiu, mas evitou discussões profundas sobre o tema. "Não quero que a minha crença vire motivo de piada por aí. Faço minhas orações, peço proteção, saúde e ponto final. Não rezo por vitórias. Mas não quero falar mais sobre esse assunto", corta, seco.Proibiu a esposa de trazer do Rio Grande do Sul qualquer peça de roupa com o tom verde, cor do rival Palmeiras. Foi a mesma estratégia que utilizou no Grêmio, quando era o vermelho do Internacional que acabou banido do seu guarda-roupa. Supersticioso, Tite insiste em se vestir totalmente de preto, como um corvo, nas partidas do Corinthians. "Me sinto bem assim, não vou mudar. Está dando certo. O nosso time reagiu no Brasileiro. Não importa o calor, vou de preto, que é a nossa cor, para o banco de reservas."Outro lado forte de Tite é o emocional. Quando circulou como meia por Portuguesa e Guarani, ele ficava irritado com a apatia dos treinadores que comandavam o time. Tanto que faz hoje o que gostaria que tivessem feito com ele quando era jogador. "A gente já sabe. Ele fica em pé na saída do vestiário para o campo. Quando o avistamos, estufamos o peito porque lá vem ele e os seus tapões no nosso peito para nos animar. Nos anima e nos acorda. Porque se alguém estiver distraído vai logo se lembrar de onde está e o que precisa fazer", brinca Jô.Folclore - As comemorações dos gols dentro de campo com os jogadores e as corridas para o vestiário dando socos no ar após vitórias do Corinthians já se tornaram folclóricas. "Eu misturo emoção com competitividade. Preciso extravasar. Quando percebo, já fiz", admite. Tite chegou até a ser punido em Porto Alegre por exagerar nas comemorações de gols do Grêmio.Além dessa psicologia de torcedor, a contradição de Tite aumenta no uso escancarado da neurolingüística para buscar o máximo dos seus jogadores. Utiliza palestras motivacionais, filmes, documentários. Compensa na motivação a falta de mais jogadores talentosos que gostaria de ter. "Ele é uma pessoa dedicada, que consegue arrancar tudo o que os seus jogadores têm a oferecer e, muitas vezes, nem eles sabiam que tinham", resume o diretor de futebol e psicólogo Paulo Angioni. "Eu só posso dizer uma coisa: sou autêntico. Não faço tipo para ninguém", resume o multifacetário e surpreendente Tite.

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