Daniel Augusto Jr.
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Corinthians ‘liquida’ categoria de base e vende promessas

Jovens formados pelo clube não têm chance no time principal e são negociados por valores baixos. Cassisi, 19, deve ir para o Palermo 

Vítor Marques*, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2015 | 07h00

A provável venda do atacante Matheus Cassini, de 19 anos, reforçou a tese de que o Corinthians pouco aproveita os atletas formados nas categorias de base. Malcom, hoje titular, pode ser considerado uma exceção. Cassini, que nem sequer atuou pelos profissionais, recebeu uma proposta do Palermo, da Itália.

Se a negociação for concretizada, o Corinthians receberá R$ 3,5 milhões pela transferência. Esse é o valor correspondente a 70% dos direitos econômicos do atleta – os outros 30% pertencem a empresários. Em 2013, aconteceu algo semelhante com o zagueiro Marquinhos, hoje no PSG. Marquinhos havia defendido o Corinthians em apenas 14 jogos antes de ser negociado com a Roma.


Em menos de um ano, o clube italiano, que havia pago R$ 20 milhões por Marquinhos, vendeu o atleta ao PSG por R$ 100 milhões. O Corinthians ficou com 5% dessa transação. No acordo da venda de Cassini, o Corinthians fica com 10% de uma futura venda. É uma maneira de faturar caso o jogador se destaque no Palermo, time mediano da Itália, e seja negociado com outro clube europeu.

Cassini foi promovido ao elenco profissional logo depois de o Corinthians conquistar a Copa São Paulo deste ano. Ele sofreu uma lesão no púbis, voltou a treinar com o elenco, mas não foi aproveitado por Tite. Os casos de Marquinhos e de Cassini têm algo em comum. Independentemente do momento do time, eles têm a sensação de que não vão jogar, segundo apurou o Estado. Como, na visão deles, a chance no time não aparece, fazem pressão para sair do clube.

Nas redes sociais e nos fóruns de torcedores do Corinthians, a diretoria foi criticada por vender um jogador que nem sequer atuou nos profissionais. Mas o ex-presidente Andrés Sanchez usou o Twitter para defender o clube. “Ninguém quer vender, ele quer ir embora. Se não for agora, em um ano sai de graça”, escreveu Andrés. Quando Marquinhos foi vendido, dirigentes diziam que o pai do atleta forçou a saída do clube.

Tite era o treinador do Corinthians quando Marquinhos foi vendido. O time vivia seu auge, campeão da Libertadores e Mundial. Quem trabalha nas categorias de base achava que a boa fase do time praticamente impedia que jogadores formados no clube tivessem chance entre os profissionais.

Malcom ganhou sua primeira oportunidade com Mano e virou titular com Tite depois que Emerson Sheik perdeu espaço. O seu contrato foi renovado até 2019. Outros jogadores que vieram da base não tiveram a mesma sorte: o lateral-esquerdo Guilherme Arana foi emprestado ao Atlético Paranaense, o zagueiro Pedro Henrique e o atacante Gustavo Tocantins foram cedidos ao Bragantino.

O Estado apurou que o clube gasta cerca de R$ 20 milhões por ano com as categorias de base. O CT voltado à base ainda não ficou pronto. E não há data para ser inaugurado. Por falta de dinheiro, a obra atrasou.

OS RIVAIS

PALMEIRAS

GAROTOS SEM ESPAÇO

O Palmeiras tenta mudar isso, mas atualmente, as suas categorias de base têm servido muito mais para dar prejuízo do que retorno ao clube. No ano passado foram gastos R$ 20,515 milhões com a base, e arrecadados míseros R$ 32 mil – um déficit de R$ 20,483 milhões.  Dos 37 atletas que fazem parte do elenco principal, apenas sete saíram da base do clube. E o único que tem um pouco mais de espaço é o atacante Gabriel Jesus (foto). Os outros são: Fábio, Vinícius, Nathan, Wellington, João Pedro e Victor Luis. O clube tem dificuldades para dar espaço para os garotos e, consequentemente, fazer bons negócios com eles.


SÃO PAULO

REDUÇÃO DE GASTOS

A política do clube é a contenção de custos em vários departamentos, e um dos principais focos é a categoria de base. De acordo com o balanço financeiro do último ano, o investimento no setor vai ser reduzido gradativamente. Dos R$ 27,3 milhões aplicados em 2013, a meta é fechar 2015 com R$ 23 milhões. O clube diminuiu o número de funcionários que trabalham na base e também a quantidade de garotos que moram no CT de Cotia. A diretoria quer revelar ao menos quatro jovens jogadores durante o ano para serem aproveitados em 2016. Atualmente o elenco profissional tem nove jogadores que foram revelados pelo próprio São Paulo.

SANTOS

EXCEÇÃO

Dos quatro grandes do futebol paulista, o clube da Vila Belmiro é o único a ter a maioria do elenco vinda da base. Dos 33 jogadores, 20 começaram no Santos – lista que inclui o veterano Robinho. A tradição do clube em formar talentos não significa, porém, que o investimento em 2014 tenha sido elevado no segmento. De acordo com o balanço do clube, somente R$ 9,6 milhões foram empregados com os garotos em 2014. O valor é inferior ao do ano anterior, quando o gasto foi de R$ 11 milhões. Para os próximos anos o número de jogadores promovidos deve diminuir, porque a atual geração Sub-20 foi eliminada na primeira fase da Copa SP.

Colaboraram Ciro Campos e Daniel Batista

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