Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Corinthians vai do céu ao inferno em 15 meses

Decadência iniciada após a conquista do Mundial de Clubes resulta na eliminação precoce no Paulista

Vítor Marques, O Estado de S. Paulo

18 de março de 2014 | 05h00

SÃO PAULO - A precoce eliminação no Campeonato Paulista é, de fato, o mais doloroso fiasco do Corinthians após a conquista do título do Mundial de Clubes. Mais até do que a campanha medíocre no Brasileirão do ano passado. Em 15 meses, o time foi da glória em Yokohama ao fundo do poço em Penápolis. Até dezembro, a diretoria acreditava que o problema era Tite. Assim, bastaria trocá-lo para que, como em um passe de mágica, o elenco "acomodado com as vitórias" reagisse. Evidentemente, isso não aconteceu. Até agora, Mano Menezes só obteve resultados inexpressivos.

Do fim de 2013 ao início de 2014, sobraram problemas - os principais estão listados abaixo. Crise financeira, relação conturbada com a torcida, contratações que não deram certo, o "mico" Alexandre Pato, racha no grupo político que está no poder desde 2007. A crise foi escancarada pela queda na primeira fase do Paulista, como acontecera em 2008 e 2010, ambas com Mano Menezes, que foi campeão invicto em 2009.

Os dirigentes que comandam o futebol garantem que tudo vai mudar e que os bons resultados logo aparecerão, embora alguns conselheiros já temam pelo pior no Campeonato Brasileiro, que começará no dia 20 de abril. Nesta quarta-feira, o Corinthians estreará na Copa do Brasil fora de casa, contra o Bahia de Feira de Santana. Se eliminar o jogo de volta, o time ficará quase um mês sem jogar. Mais uma consequência negativa da eliminação no Paulistão.

ELENCO - REFORMULAÇÃO TARDIA E APOSTAS EQUIVOCADAS

Tão logo o Corinthians foi campeão do mundo, o tema renovação entrou na pauta. A diretoria, então, contratou três jogadores para "arejar" o elenco. O primeiro problema: dos três, só um deu certo, o zagueiro Gil. Na prática, Renato Augusto e Alexandre Pato foram dois tiros n’água. Moral da história: o clube se complicou financeiramente (leia ao lado) e não alcançou seus objetivos.

No meio do ano passado, já estava bem claro que a renovação teria de ser profunda. As contratações, no entanto, só foram feitas na reta final do Campeonato Brasileiro. Assim mesmo, em caráter emergencial e com pouco dinheiro para gastar.Tite ficou com um elenco desgastado e sem boas peças de reposição para os casos de convocações para seleções e, principalmente, de lesões dos jogadores veteranos – que foram frequentes. Não foi por acaso que o zagueiro Paulo André chegou a jogar de centroavante, assim como o meia Renato Augusto.

Neste ano, a reformulação só começou depois do início ruim no Paulistão – mesmo que Mano Menezes já estivesse confirmado como técnico desde dezembro. A sequência de derrotas no torneio culminou na invasão ao CT e na debandada de jogadores – Ibson, Douglas, Paulo André e Pato foram embora. "Alguém tinha de começar com isso (reformulação) e vamos colocar a mão na massa", disse Mano no domingo. O elenco ainda conta com reservas de luxo, como Emerson Sheik e Danilo, que acabou de renovar contrato.

IMAGEM - ACUSAÇÃO AO SÃO PAULO NÃO PEGOU BEM

O gerente de futebol Edu Gaspar foi o escolhido pela diretoria para apagar o incêndio causado pelas declarações do atacante Romarinho e, principalmente, de Mano Menezes a respeito da derrota do São Paulo para o Ituano. Elas foram classificadas como infelizes até mesmo pelo presidente Mário Gobbi, que não foi a Penápolis, mas conversou com o treinador ainda na noite de domingo, por telefone.

"Não (entregou). Nós não vamos envolver uma coisa com a outra. O problema da eliminação foi do próprio Corinthians. E temos de assumir as nossas responsabilidades", disse Edu em entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira, no CT.

Uma das justificativas apresentadas por Edu foi que Romarinho e Mano estavam de cabeça quente após a partida. Apesar desse “desconto” dado pela diretoria, a conclusão foi que Mano, como treinador da equipe, não poderia ter feito insinuações como as que fez sobre o rival. Não pegou bem e causou a revolta de Muricy Ramalho (leia mais abaixo).

Para exibir autoridade, Gobbi foi nesta segunda ao treino, fez reuniões com o departamento de futebol e viajará com o time nesta terça-feira para Feira de Santana, onde o Corinthians fará nesta quarta a sua estreia na Copa do Brasil. O presidente assumiu o comando do futebol nesta segunda porque o diretor Ronaldo Ximenes ficará afastado por motivo de saúde. Ximenes é homem de confiança de Gobbi.

FINANÇAS- ELIMINAÇÃO TAMBÉM DÓI NO BOLSO

Ficar fora das finais do Paulistão também terá impacto importante nas contas do clube. O campeão ganha cerca de R$ 3 milhões da Federação Paulista, além, é claro, das arrecadações, infladas nos jogos do mata-mata.O Corinthians vive situação de apuro financeiro e chegou a atrasar direitos de imagem no início do ano porque demorou para receber as cotas de patrocínio da Caixa Econômica Federal, o que já foi regularizado. Reforçar o elenco virou uma tarefa árdua porque o clube gastou R$ 40 milhões com Alexandre Pato, que agora está defendo o rival São Paulo.

TORCIDA - UMA RELAÇÃO MAIS DO QUE CONTURBADA

Se no ano passado as organizadas foram responsáveis por importante perda de receitas – por causa de punições, o time jogou várias vezes com portões fechados ou longe de casa –, em 2014 elas continuam causando problemas. E o clube se viu envolvido de novo em um caso de polícia.

A invasão ao CT acabou na delegacia e resultou em uma saia justa entre Mário Gobbi e o atacante Paolo Guerrero, que contradisse o presidente ao garantir que não foi agredido. Nesta segunda-feira, a Justiça determinou que os três torcedores que estavam presos por causa da invasão fossem soltos.

BRIGA POLÍTICA - GOBBI SE AFASTA DE ANDRÉS E CRIA RACHA

O ex-presidente Andrés Sanchez, responsável pelas obras do Itaquerão, tornou-se um duro crítico da gestão de Mário Gobbi, a quem havia apoiado. No último sábado, por exemplo, o presidente não foi ao treino no novo estádio, assim como esteve ausente do jogo de domingo. Já Andrés esteve na partida e até foi tietado por torcedores. O racha no grupo político que comanda o Corinthians é evidente.

Andrés disse há duas semanas, em entrevista a um jornal estrangeiro, que voltará à presidência do clube. No Parque São Jorge, não são poucos os que querem seu retorno ao cargo.

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