Paulo Liebert/Estadão
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Corinthians x Palmeiras

Futebol expressa a nação, é parte importante da nossa formação, da nossa arte

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2020 | 05h00

Há uma unanimidade quanto ao jogo de quarta-feira, o famoso dérbi de São Paulo, jogado entre equipes das mais tradicionais do futebol brasileiro. Foi um jogo horrível, horrendo, todos concordam. As causas objetivas são bem conhecidas: interrupção por causa da pandemia que ainda tem efeitos sobre a qualidade do jogo, perda de poderio com a saída, frequente no futebol brasileiro, de jogadores que podiam dar aspecto diferente à partida, como Dudu ou Pedrinho, duas equipes ainda se reorganizando, o frio do estádio vazio, etc.

Tudo isso é verdade, mas não posso me impedir de trazer algumas considerações pessoais para o que estava ocorrendo. Vamos deixar claro, primeiro, que jogos sofríveis sempre existiram, inclusive entre esses dois adversários. Por que então esse jogo em particular atraiu tanta ira e foi criticado tão fortemente? Talvez porque, mesmo inconscientemente, muita gente tenha percebido que esse jogo contava uma história um pouco mais complexa do que aquilo que estava em campo.

Detesto metáforas, pelo menos as minhas. Metáforas são para grandes escritores e grandes poetas, muito longe de mim, evidentemente. Por outro lado, não posso me impedir de pensar que esse jogo foi uma representação simbólica perfeita do Brasil que temos diante de nós. Jogadores correndo em campo desesperados, desorientados, jogando para a solidão das arquibancadas, transidos de medo ou impotência de criar alguma coisa, afastando de si a bola de qualquer maneira e quase nunca procurando reagir e tentar o gol.

De quebra, ao lado do campo os dois líderes, com as vozes e os lábios petrificados por máscaras, não se faziam ouvir, na duvidosa hipótese de ter alguma importância o que pudessem dizer. No final, todos pareciam satisfeitos, não com suas atuações, mas pelo mero fim de um jogo que parecia um sacrifício. Como se durante o tempo do jogo dissessem para si mesmos: “Isso vai passar, uma hora vai passar”.

Exatamente o que pensam muitos de nós a respeito do instante em que vivemos. Futebol expressa a nação. É um dos aspectos pelos quais o momento pode ser lido, é parte de nós, parte importante da nossa formação e importantíssimo da nossa arte. Eu encaro o futebol como arte popular autêntica, como dança popular brasileira de altíssimo nível, como era. Me atinge profundamente porque faço parte dessa comunidade em que coloco o futebol. Eu também me vejo dentro de uma atividade que, como todas as atividades artísticas, ilumina o País. Por isso, examino o futebol sem cessar, à procura de que ele me ajude a entender minha própria situação.

O jogo pode mudar? Claro que sim, é possível que ontem, sábado, as duas equipes tenham feito um jogo diferente, levados pelo desespero, pela defesa da dignidade e – por que não? – por uma explosão inesperada de talento e o jogo tenha ficado dentro de suas tradições. Que tenha prevalecido a atmosfera diferente que há num clássico, que a ausência da torcida tenha sido um dado a dar mais coragem e vontade aos jogadores, que os dois treinadores tenham respeitado as camisas e os times tenham jogado no sentido da vitória, mesmo que lhes custasse a derrota.

Seria também uma metáfora do Brasil, dessa vez otimista. E essa metáfora otimista não pode sair da vista. Não se destrói um país, a menos que ele se destrua sozinho, por vontade própria. Equilibrado entre pessimismo inato e otimismo obrigatório, torço para que o sábado tenha sido melhor que a quarta. Afinal, como dizia Lima Duarte, personificando um treinador, num filme que fiz há anos, advertindo uma torcedora: “Minha senhora, a senhora não sabe o que é um Palmeiras x Corinthians”. Poderia ter acrescentado: um Palmeiras x Corinthians é a nação.

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