Alberto Lingria / Reuters
Alberto Lingria / Reuters

Coronavírus se espalha, atinge calendário do futebol, fecha estádios e atrapalha times

Na China, temporada de futebol é adiada por meses e equipe da primeira divisão está isolada no Oriente Médio

The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 10h00

Na China, as autoridades que tentam conter a disseminação do coronavírus adiaram o início da temporada de futebol por meses, e pelo menos uma equipe da primeira divisão está isolada no Oriente Médio há semanas, impedida de retornar dos treinos de pré-temporada.

Na Coreia do Sul, os torcedores que compareceram a partidas no início deste mês foram examinados para verificar se tinham febre, antes de poderem entrar nos estádios. No Japão, as máscaras eram presentes nas arquibancadas até a última terça-feira, quando as autoridades anunciaram que não haverá jogos da liga até, pelo menos, meados de março.

Os efeitos do coronavírus sobre o calendário global do futebol ultrapassaram as fronteiras. Há três semanas, a Confederação de Futebol da Ásia anunciou que os jogos de seu maior campeonato, com equipes chinesas, não seriam disputados por vários meses, e o Vietnã proibiu a realização de eventos esportivos de qualquer tipo este mês, pressionando ainda mais a programação.

Agora, a perturbação se espalhou para a Europa. Na Itália, onde o número de casos confirmados de coronavírus se aproximava de 300 na terça-feira, pelo menos um jogo – a segunda etapa de um mata-mata entre a Inter de Milão e o Ludogorets da Bulgária, pela Liga Europa – será disputado a portas fechadas, pois as autoridades continuam restringindo aglomerações públicas na região da Lombardia. A decisão de fazer o jogo sem torcida ocorreu depois que as autoridades italianas adiaram quatro jogos da liga no fim de semana passado.

A Inter de Milão disse que a decisão foi resultado de vários dias de conversas com autoridades de saúde da Lombardia e com o órgão que administra o futebol europeu, a Uefa, sobre como organizar o jogo, que não pôde ser cancelado por falta de datas alternativas. Acredita-se que a partida contra o Ludogorets seja o primeiro jogo de futebol europeu disputado a portas fechadas por causa de uma crise de saúde. Geralmente, essas condições são impostas às equipes como punição por violência dos torcedores ou episódios de racismo.

A Inter, propriedade de uma empresa chinesa, já estava tomando medidas para minimizar os riscos do vírus para os funcionários. Empregados não essenciais foram instruídos a trabalhar de casa, e o clube comprou para a sede da equipe estoques de máscaras faciais e desinfetante para as mãos.

A decisão de prosseguir com a partida desta quinta-feira no estádio San Siro foi confirmada na terça-feira. A Inter, que tem um jogo ainda mais importante no domingo, quando deve visitar a líder Juventus, foi um dos quatro clubes italianos que adiaram partidas da principal liga do país no fim de semana passado.

Governos e autoridades de saúde da China, onde os calendários esportivos foram mais afetados desde que o vírus começou a se espalhar, estão enfrentando uma realidade bem diferente. Quando Afshin Ghotbi, técnico iraniano-americano do Shijiazhuang Ever Bright, foi lançado ao ar por seus jogadores no início de novembro, depois de conquistar o acesso à Superliga Chinesa, ele não tinha ideia de que, quase quatro meses depois, eles ainda estariam esperando o início da nova temporada.

O Shijiazhuang Ever Bright, cuja cidade natal de 11 milhões de habitantes fica a cerca de 260 quilômetros de Pequim, deveria ter iniciado sua nova campanha no fim de semana passado. Mas, em vez de enfrentar superclubes chineses como Guangzhou Evergrande e Shanghai SIPG diante de 40 mil torcedores, a equipe de Ghotbi está jogando partidas de pré-temporada em estádios vazios de Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, sua base há mais de cinco semanas.

Os dirigentes da equipe disseram que não esperam participar de competições antes de maio, nem mesmo voltar à China antes de meados de março. "É um desafio para os jogadores", disse Ghotbi. "Eles estão longe das famílias e se sentem muito desamparados psicologicamente".

Ghotbi, ex-técnico da seleção nacional do Irã, tem experiência com eventos globais que interrompem as programações esportivas. Ele estava no comando do japonês Shimizu S-Pulse em 2011, quando um terremoto e tsunami fizeram com que a temporada da liga japonesa fosse adiada por seis semanas.

"Naquela época, também tentamos usar o time de futebol como fonte de inspiração e esperança", disse Ghotbi. "E estamos tentando fazer o mesmo agora, com banners nos estádios em que jogamos e com as redes sociais, embora seja diferente porque estamos fora da China".

Partidas classificatórias para a Copa do Mundo de 2022 e as Olimpíadas de 2020 já foram atingidas; em um exemplo extremo, a seleção feminina de futebol da China ficou em quarentena dentro de um hotel australiano, forçado a se exercitar e a treinar nos corredores, antes de poder jogar uma série de jogos classificatórios para a Olimpíada.

As implicações da propagação do vírus são uma preocupação em todo o mundo, mesmo em locais onde o vírus ainda não chegou. Em uma teleconferência na terça-feira com os executivos do Manchester United, que tem parceiros, torcedores e interesses financeiros no lucrativo mercado asiático, um analista americano perguntou se o vírus teria algum efeito sobre o US$1 bilhão do clube.

"É uma situação muito fluida", respondeu o vice-presidente executivo do Manchester United, Ed Woodward, "e estamos monitorando de perto". / Tradução de Renato Prelorentzou

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