Corredores quenianos sofrem com conflito no país

Atletas ficam no Brasil após participarem de provas e temem por futuro do esporte em seu País

Heleni Felippe, O Estado de S. Paulo

30 de janeiro de 2008 | 23h57

Os corredores quenianos que estão no Brasil não desgrudam da TV a cabo e da internet, sempre em busca do noticiário internacional, preocupados com familiares e amigos enfrentando a violência que se abateu sobre o Quênia. E também com o futuro do atletismo no país, o maior fornecedor de corredores de fundo para o mundo. Gladys Jepkemoi Chemwendk, de 19 anos, foi sexta colocada na São Silvestre. Chegou ao Brasil em dezembro para correr pela equipe Movoeste e está vivendo em Tarabai, no Pontal do Paranapanema (SP). É da etnia kalenjin e treinava em Eldoret. Disse nesta quarta-feira, por telefone, à Agência Estado, que está apreensiva por sua própria vida e a de outros corredores do Quênia. "Estou preocupada, porque sei que o Quênia não tem paz agora. Minha família está segura, em Kapsowar, cidade pequena onde não chegou a briga de etnias. Mas há guerra no caminho até lá, e eu não saberia como chegar", afirmou Gladys, que tem visto de permanência no Brasil até 21 de março. "Eu me sentiria mais segura se pudesse ficar. Sei que voltar tem risco. Minha vida pode acabar, porque o país não tem paz." A crise no Quênia começou após a realização de disputadas eleições presidenciais, em dezembro. O atual presidente do país, Mwai Kibaki, foi declarado vencedor. A oposição, porém, não aceitou a derrota de seu candidato, Raila Odinga. O confronto político ganhou contornos de violência étnica - Kibaki é da etnia kikuyu, enquanto Odinga é um luo. O país tem mais de 40 etnias, e estima-se que por volta de 800 civis já morreram nos confrontos. Gladys correu mais três provas além da São Silvestre. As corridas de rua do Brasil estão atraindo quenianos. A existência de provas todos os fins de semana, a disputa da São Silvestre e a concorrência entre agentes provocaram esse crescimento. Além do Pontal do Paranapanema, o Brasil tem duas bases que recebem fundistas quenianos. Em Nova Santa Bárbara, no Paraná, o projeto do técnico Moacir Marconi, o Coquinho, tem Amos Maindi, Gatheru Daniel Ndiritu (6.º colocado na última São Silvestre), Pauline Chetchumba e Eunice Jetoo. Coquinho traz grupos para disputar corridas de rua, em revezamento - cada um fica cerca de três meses. "Eles ligam para a família quase todos os dias, não desgrudam da CNN e da internet. Estão tristes, é até difícil manter o foco nas corridas." O outro grupo fica em Campos do Jordão, com Jorge Luiz da Silva e o ex-maratonista Luiz Antônio dos Santos. A equipe, porém, foi de férias para o Quênia e não consegue voltar por falta de segurança no aeroporto de Nairóbi.

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